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Voamos sobre as profundezas do oceano judaico desde o primeiro dia quando percorremos Jerusalém banhada por um entardecer belíssimo ao som dos cânticos dos ortodoxos se equilibrando embaixo de seus altos chapéus em direção ao Kotel Hamaravi – Muro das Lamentações , apressados, descendo as escadarias do mercado árabe em momentos de tranqüila convivência. Laicos, jovens militares recebendo a sua primeira arma e Sidur (livro de rezas) e religiosos, todos numa coreografia diante dos milhares de anos de História impregnados nas paredes dos Templos… E atravessando a História, de forma dolorosa: a Shoah.

Bebemos nas águas turbulentas do Holocausto através das margens acolhedoras do Seminário Internacional Brasileiro “Memória da Shoah e os Dilemas de sua Transmissão”, realizado entre 10-20 de janeiro de 2010, no Museu Yad Vashem – Jerusalém. Direcionado para professores brasileiros foi organizado por Mario Sinay e Raquel Orenshtein que, com sensibilidade e inteligência, conduziram o projeto sob a coordenação da Dra Perla Hazan, diretora do Instituto Yad Vashem para a America Latina.

Sob a coordenação de Celso Zilbovivius, representante da Sociedade de Amigos do Yad Vashem e seu Presidente Jayme Melsohn, voluntário há décadas, um grupo de 30 professores e pesquisadores brasileiros envolveram-se com compromisso e interesse compartilhando o mergulho intenso nas vivências, visitas e palestras. O vínculo que estabelecemos com profissionais irá nos acompanhar afetiva e profissionalmente. Presentes estiveram os representantes da da Unibes, Colégio Byalik e, Peretz e Renascença, professores da Rede Pública de vários Estados patrocinados pelo Instituto Unibanco, do LEI/USP, e nós – Leslie Marko, Lia Bergman e Lílian Souza — representando a Bnai Brith do Brasil e o LEER/USP.

Entre conversas, depoimentos, palestras e workshops de pesquisadores e intelectuais também convivemos com o resgate cuidadoso, tão fiel quanto subjetivo, de alguns sobreviventes corajosos. Segundo estatísticas morrem em número de 150 no mundo por dia devido à idade avançada e claro, devido também ao peso do corpo da memória. As atividades do workshop marcaram dez dias intensos onde a História entrelaçou-ser com estórias de pequenas crianças atormentadas, de pais desgarrados, de seres desumanizados. A tentativa de compreender cada fase atroz do período continua sendo o nosso foco enquanto pesquisadres do Arqshoah

Desmistificamos a Shoah como sendo produto de um doente ou psicopata para tentar compreender de forma insistente o complexo percurso do antissemitismo na Alemanha desde a Idade Média; o abraço cruel e cúmplice de governos fascistas ao Nazismo e o silêncio indiferente de parte da população européia no período de 1933 a 1945. Desmistificamos o mito da inércia dos judeus diante das câmeras de gás para entender profundamente o efeito paralisante da fome, frio, doenças e humilhação.

O seminário mostrou-se riquíssimo e de alto nível ncluíndo um seminário excelente na Universidade Hebraica de Jerusalem sobre antissemitismo na América Latina nos dias de hoje, sob a coordenação do Professor Leonardo Senkman e uma visita ao Yad Vayeled, museu especialmente montado para receber crianças no Kibutz Beit Lohamei Haguetaot, fundada por sobreviventes da Shoah em busca de um lugar seguro, coletivo e judaico ao norte do país, após a guerra.

Pudemos ter a certeza de instalarmos as indagações necessárias para continuar pesquisando, refletindo e denunciando.Assim, mobilizados, cada um vem pensando em como dar continuidade e aplicação a esta vivência significativa, cada um na instituição, entidade, comunidade em que trabalha.

De nossa parte Lilian Souza do Núcleo de História Oral e eu do Núcleo de Expressão Interativa, pretendemos desenvolver e inovar projetos no LEER sob coordenação da Profa Maria Luiza Tucci Carneiro, entre os quais a próxima Jornada Interdisciplinar do Ensino do Holocausto para professores da Rede Pública em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro em parceria com a Bnai Brith do Brasil com patrocínio da Cyrela e outros projetos utilizando a linguagem teatral.

Também pretendo continuar a tarefa de aprofundar um Teatro Judaico alem do LEER quanto na Hebraica onde participo de um projeto teatral-pedagógico há alguns anos. O compromisso cresce e a vontade-necessidade de contribuirmos com a denúncia e o cuidado permanente da Memória se mantém na urgência.

“Depende de nós se as palavras se tornam lanças ou orações, se trazem compaixão ou maldição, se elas despertam respeito ou desprezo, se elas nos movem ao desespero ou a esperança” (Elie Wisel, sobrevivente e Prêmio Nobel de Literatura)

Leslie Marko é Pesquisadora LEER/USP
fonte: Bnai Brith

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