Depoimento de Naum Weinberg
TANTAS HISTÓRIAS, QUANTAS PERGUNTAS...
Em homenagem ao chaver Izo (Israel Blay) morto em combate em Suez.
Corria o mês de fevereiro de 1999,quando tive a surpresa de receber uma ligação do
Samuel, de S.Paulo,que há muito tempo não via:
- Naum, sabia que agora em maio vão fazer uma Peguishá (Encontro) de toda a nossa turma
do Machon em Israel ?- Pôxa, mas que legal!
- Pois é, vai ser pra comemorar 40 anos de nossa estada por lá ! . . .
Putz, 40 anos, será que é mesmo verdade? Será possivel que o tempo tenha voado tão
rápido, ligeiro e sem aviso? Gente, 40 anos é uma vida!
Na época,eu era um fanático pelo
movimento,pelas suas idéias e minha identificação adolescente por um ideal não tão
adolescente, acontecia de maneira completa na totalidade da minha existência e maneira de
ser. E o fato de eu já não estar há muito tempo no" SHOMER", não quer dizer
que o SHOMER não esteja em mim: Vivo, presente, contraditório, discutível,
questionador, realizador.
Optei mais tarde por uma realização pessoal
e profissional fora da tnuá e durante anos carreguei o peso de sentir-me um pouco
"traidor" pois viviamos uma mentira essencial na época,admitindo que a aliá
era a verdade única e absoluta. Nossa escala de valores era muito rígida,
"quadrada" mesmo, mas pelo menos tinhamos uma escala de valores, algo quase
impensável para a mutante juventude da pós-modernidade. Será que nos dias de hoje ela
não nos pareceria meio "fascista-medieval", ao adotarmos uma espécie de seita,
que não admitia contestações e exigia sacrifícios inquestionáveis? (renúncia à
família, renúncia a uma profissão de nível superior, renúncia à vida burguesa, ao
fumo, ao sexo, aos bailes - tão comuns na época -, à vida pessoal...)
Éramos puros e idealistas, com uma certeza
inabalável de que iriamos
resolver o problema judeu e - quem sabe?- até mesmo da humanidade, num kibutz com bases
coletivas e socialistas. Numa época em que o Xá governava a Pérsia,será que nós já
conseguiamos ser "xiitas" e sectários conosco mesmo e com nossos melhores
chaverim ?
As moshavot, machanot, tiulim, hachshará,
madrichim, veidot, vaadot, mazkiruiot, as messibot, nosso ken, nossa kvutzá, nossa
shichvá, nossa plugá, nossa chultzá kchulá vestida com a anivá, a shmirá, o chodesh
hatnuá, a Hanagá Elioná, os mifkadim, os kishutim, a Hanagá Rashit, os seminários, o
sionismo, o borochovismo, as escaladas, o inconformismo, aos poucos foram forjando o nosso
caráter shomrico. Irretocável. Justo. Correto. Honesto e realizador.
Como grupo, porque não reconhecíamos que
nosso ideal tinha limites e que a flexibilidade e pluralismo poderiam ter feito parte de
um projeto realista para a maioria?
Hoje, consigo ver isso com mais clareza e à
luz de 2 aspectos bem
interessantes:
1. Em que eu pude me tornar nesse tempo?
2. Em que o kibutz pôde se tornar nesse meio tempo?
Cada aspecto desses mereceria por sí um ensaio inteiro,mas em se tomando as coisas pela
média,creio que as constatações de todos que de coração pertenceram ao SHOMER não
são muito diferentes. São pontos para se pensar, com conclusões bastante interessantes
para todos.
Permeando todas as nossas discussões
teóricas e o propugnado
"coletivismo ideológico",meus amigos, a gente realmente se realizava. Éramos
bonitos,jovens, fortes,corajosos e entre um chazak veematz e outro viajávamos de trem por
24 horas para chegar a São Paulo e comer um bom Bauru"no Bom Retiro, acampávamos
nas florestas, perto dos rios e no topo das montanhas,pegávamos carona até Jacareí e de
lá para o Rio de Janeiro, eramos recebidos por chaverim de outros estados em suas casas e
não valia a fome nem a falta de dinheiro, desde que nos encontrassemos com nossos bons e
malucos chaverim, numa atividade qualquer,em qualquer canto do Brasil.
As messibot complementavam a cultura
artística e musical que corria em nossas veias e eram um acontecimento único para um
ishuv identificado e sedento pelo emergente renascimento do ivrit e de Israel. E foi noite
e alvorada nos acampamentos... Da primeira vez, meu pai não deixou eu ir para o Machon em
Jerusalém, mas no ano seguinte não se importou mais que eu interrompesse os estudos. E
aí
omundo todinho se abriu pra mim,numa travessia de novos rumos e
horizontes mais belos que o de Belo Horizonte . . .
"TEMPO BOM NÃO VOLTA MAIS
SAUDADE TODO TEMPO TRAZ"
(música de Martinho da Vila)
O MIFGASH em Israel serviu para matar
saudades.Mas chevre,foi duro. Era uma aula de surrealismo sentar-se em circulo ao
anoitecer de tantos anos depois,olhar para todas aquelas cabeças brancas e cantar nossas
velhas canções,contar nossas velhas histórias,rever nossas velhas fotografias e nossos
ainda mais velhos morim do Machon. Juntar os brasileiros para uma foto, depois pra contar
piadas e falar mal dos argentinos...
Mas também dar-se conta de que todos
evoluiram nas mais diversas
direções e de que principalmente O MUNDO evoluiu. Exigindo de nós posturas
"PÓS-POKEMON" e um compromisso inquestionável com os novos meios de
comunicação virtualmente globalizados. Quando me lembro de que nenhum de nós telefonou
para os pais durante um
ano em Israel- simplesmente por se constituir numa quase impossibilidade me vem à mente
uma carruagem ao lado de um foguete espacial...
Fui professor universitário durante mais de
20 anos e ministrei,entre
muitos outros, cursos de "CRIATIVIDADE"para estudantes, empresários,
organizações,grupos de liderança,etc. Desconfio hoje que enveredei por esse caminho
ainda na tnuá,enxergando o diferente e o original como GERADOR da liberdade de ser, ao
invés de se constituir num obstáculo que nos impede de ser e de se realizar.
Chazak Veematz!
Naum Weinberg

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