Resposta a Emir Sader e C. Bourdokan (Elias Abraham]
Charles Bourdokan e Emir Sader são exemplos ilustrativos da atitude árabe contra o povo
judeu.
Sobre os artigos de Bourdokan e Sader na "Caros Amigos" de fevereiro de 2001.
Como judeu convertido, convencido de ter ingressado numa religião essencialmente
humanista, li com espanto os textos "Hitler chega ao poder em Israel" e
"Israelianos promovem limpeza étnica". Talvez Emir Sader, cujos textos como
pensador e crítico social leio a muito tempo, não tenha refletido sobre o significado de
algumas de suas palavras. Os comentários de Bourdokan, todavia, não deixam dúvida
quanto ao seu ódio indisfarçado.
Charles Bourdokan e Emir Sader são exemplos ilustrativos de uma certa atitude de setores
da esquerda contra o povo judeu. Digo setores porque é impossível separar a história da
esquerda de sua contribuição judaica, aqui mesmo no Brasil. Quem conhece a força e a
vitalidade da esquerda em Israel, do minúsculo partido comunista, ecologistas,
sindicalistas como da Central Sindical Histradut ( que reúne trabalhadores palestinos e
israelenses ), e defensores dos direitos humanos ( inclusive dos palestinos ), até os
trabalhistas mais moderados, saberá do que falo.
Em Israel existem roqueiros que fazem campanha contra o alistamento militar,
ultra-ortodoxos que não aceitam a existência do Estado de Israel ( pois só poderia ser
reconstruído pelo Messias... ) e não mandam seus filhos ao exército nem pagam impostos,
feministas que lutam contra a opressão das mulheres no mundo ortodoxo e tudo o mais que
se puder imaginar. O espectro político é formado por um sem número de partidos. Um
movimento forte em favor de um Estado que abrangesse tanto palestinos quanto judeus
somente morreu politicamente quando a delegação de Israel foi morta por militantes da
OLP nas olimpíadas de Munique.
Alguns livros poderiam ser lidos para entender que o drama palestino nunca deixou a
intelectualidade judia indiferente: The Yellow Wind, de David Grossman que mostra a
paixão e o sofrimento dos palestinos; From Beirut to Jerusalem, de Thomas Friedman, uma
análise do problema cheia de histórias pessoais; My enemy my self, de Yoram Binur,
relato de um jornalista israelense disfarçado como trabalhador palestino dentro de
Israel; Zealots for Zion, de Robert Friedman, sobre os assentamentos na Cisjordânia. E
outros tantos na tentativa, ao contrário dos senhores Sader e Boudorkan, de humanizar o
"inimigo" como única forma de reconciliação.
A religião judaica possui um forte componente ético e nunca foi uma religião
beligerante ou preocupada em "converter" os infiéis.
Para Israel a sua condição dentro do Oriente Médio, odiado e indesejado, e sua
posição perante os palestinos, nunca foi feliz. A guerra impede o progresso do país (
basta lembrar que após a guerra do Yom Kipur a economia de Israel ficou em frangalhos,
com disparada da inflação etc. ), militariza as relações cotidianas, fragmenta e
divide o próprio povo judeu.
Mas para Bourdokan os israelenses são a representação da "desumanidade
total". Seria apenas uma bobagem se não fosse tão ofensivo. Para Emir Sader o povo
judeu não merece "liberdade, democracia, paz e reconhecimento". Sobrou alguma
coisa? As pessoas são deliberadamente confundidas com o Estado, com as ações das
forças armadas. Então o que deveriam ser dos turcos, sírios e iraquianos, cujos
governos oprimem brutalmente os curdos ( mil vezes mais oprimidos que os palestinos e sem
nenhuma culpa pela própria desgraça )? E os russos em relação aos Chechenos e outras
minorias? Também não são seres humanos? Na lógica destes senhores, com certeza não o
são.
São 06 milhões de israelenses. Mais da metade nasceu lá, não conhece outro país.
Outros vieram fugindo da Europa, de uma máquina organizada e cronometrada de extermínio
físico que não se compara a nada que tenha acontecido no Oriente Médio. Nunca foram
"alemães", nem "russos", nem "franceses", porque isso
simplesmente não lhes foi permitido, assim como os imigrantes turcos que vivem na
Alemanha de hoje, e que não podem se "germanizar".
E no Brasil, os massacres que nossa própria polícia promove contra nosso próprio povo,
não nos habilitam também a sermos "desumanizados", a não
"merecermos" paz, democracia, vida. Após o massacre de Eldorado dos Carajás,
ou do Carandiru, de Vigário Geral, da Candelária, o que merecemos como povo? Eu,
entretanto, não estava lá, não acionei o gatilho, não matei meu semelhante, protestei
contra estes crimes, e espero por justiça. Lembro-me de uma camisa difundida a algum
tempo na Inglaterra: "save the rain forest, kill a brazilian". A lógica é a
mesma. Se tem brasileiro que faz de tudo para salvar a Amazônia, se a imensa e esmagadora
maioria é contra, não interessa, para a mesquinha mente sectária do fundamentalismo
ecológico, somos um povo de devastadores.
Com um passe de mágica somem da história os movimentos pela paz em Israel, a esquerda
israelense, o trabalho nas universidades, o rabinato moderado e pacifista, as iniciativas
pela paz e pelo diálogo promovidas por israelenses. Somem também a parcela de culpa
árabe no conflito. Ou é assim mesmo, os demônios contra os anjinhos? Assim como não
podemos confundir os palestinos com a corrupção do governo Arafat, com o fanatismo do
Hamas e agora um amontoado de microguerrilhas sedentas de sangue, o povo de Israel não é
o rapaz que assassinou Issac Rabin.
Que contribuição o Hamas dá para a paz? Nenhuma. Sua lógica é a lógica da força e
só alimenta os que, do outro lado, só acreditam na força. São fundamentalistas
islâmicos, trucidariam quem possui vínculos com o marxismo, como eu e o sr. Emir Sader.
Quanto a dizer que os isralenses são arianos é quase uma piada. Boa parte dos
israelenses é constituída de sefaraditas, judeus de origem árabe, expulsos do Cairo, de
Damasco, de Teerã, do Iemem, e de todo o mundo árabe. Expulsos logo que se iniciou o
conflito, que nunca foi o sonho dos pioneiros de Israel, quando a região ainda estava sob
domínio turco. Gente que fisicamente não possui nenhuma diferença de seus primos
semitas. É comum em Israel judeus negros, de origem Etíope. Bourdokan não sabe do que
escreve.
O fracasso da paz no Oriente Médio é culpa dos povos envolvidos no conflito. Quando os
árabes atacaram em 1948 o Estado criado por uma resolução da ONU, com o objetivo de
esmagá-lo, criaram a sandice que assistimos até hoje. E num espiral de violência a
dialética da guerra se mantêm em sua escala ascendente.
Cabe perguntar o que seriam dos judeus caso tivessem perdido qualquer uma das guerras que
lutou com o desespero de quem sabe que não terá qualquer escolha? O mundo árabe nunca
tolerou a existência de Israel. A promessa contida na própria constituição palestina
era a de "empurrar os judeus para o mar."
Como escreveu uma leitora, ciente de como funcionam as engrenagens da história,
palestinos e judeus são protagonistas de um drama comum. Não que exista um sinal de
igualdade, mas as responsabilidades precisam ser pesadas e discutidas. Quando finalmente
uma solução vinha a curso e o processo avançava a passos largos, com a possível
eleição de Shimon Peres ( de longe o líder israelense mais comprometido com a paz ) em
1996, os atentados do Hamas ( que mataram 60 pessoas ) e os mísseis do Hezbolah contra a
população civil do norte de Israel, voltaram a opinião pública contra os trabalhistas
e encheram as urnas do Likud.
Mesmo Israel tendo se retirado do sul do Líbano o Hezbollah continua fustigando a
população civil do Galil, o norte de Israel. Solidariedade com a causa palestina? Mas o
que fazer com um movimento com milhares de homens armados e que precisam se legitimar e
justificar a sua existência? A lógica da guerra também paga o almoço. Contribuem para
a paz?
Nunca é demais lembrar que foram mãos libanesas - milicianos cristãos - que promoveram
o massacre de Sabra e Chatila - sem nos esquecer da cumplicidade de Sharon. Não vamos nos
esquecer da responsabilidade de cada um. As balas foram disparadas por libaneses. O que
sobra para os libaneses, incluindo seus descendentes no Brasil, em especial os
descendentes de maronistas? Não merecem viver, não são seres humanos, não merecem a
paz, liberdade, democracia? É isso Emir Sader? A culpa é então coletiva e não
individual, atinge a todo um povo e não aos responsáveis de carne e osso?
Esta parece ser a lógica dos srs. Sua indignação irracional leva a pensar assim.
Mas Arafat não ordenou ataques contra objetivos civis israelenses? A Fatah não matou de
emboscada agricultores em kibutz? E no entanto, engolindo suas convicções pessoais,
Issac Rabin o reconheceu como interlocutor legítimo. Aceitou a criação do Estado
palestino, o que sempre foi negado aos judeus e que estes tiveram que conquistar com uma
violência que compromete o futuro e a sobrevivência da sua democracia.
Novamente o filme se repetiu. O eleitor israelense se colocou a favor das concessões e
elegeu Ehud Barak, que retirou unilateralmente as tropas de Israel do sul do Líbano (
porque os sírios agora não fazem o mesmo? - com a palavra os articulistas, se é que
sabem das violências que os sírios praticam na sua tentativa de anexar o Líbano ),
avançou significativamente no processo de paz, discutindo concretamente até mesmo a
divisão de Jerusalém, qual foi a resposta? Cada passo de Israel em favor da paz é
interpretado como sinal de fraqueza. A violência desencadeada e alimentada pelos
extremistas fez com que os israelenses optassem pela discurso da segurança e da força.
Os maiores eleitores de Ariel Sharon? Hamas, Hezbollah e os jovens palestinos que se
"auto-imolam"(!!!) para "chamar a atenção do mundo" ( nas palavras
do sr. Boudorkan!!! ): leia-se explodindo com dezenas de inocentes, matando pessoas a
esmo, jogando um povo contra o outro. Eles não se "auto imolam", eles matam
outras pessoas. Uma vida judia ( mesmo que de uma criança, de um civil, de um transeunte,
de uma senhora fazendo compras em um mercado ) não vale nada, pois afinal a
"atenção do mundo" estará sendo chamada.
Há também outra atitude, a que ao invés de "chamar a atenção" do mundo,
afasta de si as atenções, como a do ditador iraquiano Sadam Russein ( que prometeu
inclusive "incendiar metade de Israel" com armas químicas ), quando mandou
Skuds contra a população civil de Israel. Queria afastar de si a violência que cometeu
contra os kuwaitianos, cujas mulheres foram estupradas e suas casas saqueadas pela
soldadesca invasora, tentando posar de paladino da causa árabe. Sadam é o eleitor
número 01 da direita israelense.
Como acham que a população de Israel reage ao anúncio iraquiano da formação de um
exército de "um milhão de voluntários" para "esmagar" Israel, feita
recentemente? Imagine-se um eleitor mediano da esquerda israelense, que votou em Rabin, em
Peres, em Barak, que saiu na rua para repudiar Bibi Netaniahu e outros oportunistas da
direita, lendo o jornal. Um frio não lhe correu pela espinha? Acham que este cidadão
não pensa que o anúncio é sério? No dia seguinte as filas de voluntários em Bagdá e
a lembrança da sandice que foi a Guerra Irã-Iraque certamente o faz pensar que sim.
No Brasil o anúncio da formação de um exército de agressores (proporcionalmente a
população brasileira seria algo como uns 30 milhões) faria a população votar no Eneas
e em sua promessa de bomba atômica brasileira. Não sabem como funcionam eleições?
Nunca acompanharam nenhuma aqui no Brasil? FHC se elegeu e reelegeu apenas pela noção de
"segurança" monetária, diante do fantasma da inflação. A maioria dos
eleitores sabiam das incongruências, da desigualdade social, dos aliados corruptos, mas
preferiram a "segurança" da "moeda forte". É tão difícil entender
tais coisas sem partir para a "demonização" dos que não possuem mais
"nenhuma humanidade"?
O que fazem os srs. Sader e Bourdokan? Seus artigos em nada ajudam para compreender o
conflito. É uma indignação falsa. Apenas na aparência estão preocupados com o drama
que se desenvolve no Oriente Médio. No fundo há apenas o ódio contra os judeus.
"Demonizam" todo um povo, toda uma experiência histórica, toda uma sociedade.
Alimentam o rancor e não a compreensão. Plantando o que plantam, o que irão colher?
Quando Eder Sader diz que os israelenses não merecem a paz, estimula mais mortes e mais
lágrimas. O mundo islâmico possui tiranos ( Sadam Russein ), fundamentalistas
retrógados e obscurantistas ( Aiatolás e Talibans ), monarquias feudais ( Emirados
Árabes ), ditaduras militares ( Argélia ),
corruptos da pior espécie ( Indonésia ), mas a ninguém ocorre dizer que estes povos
não merecem paz, liberdade, democracia, reconhecimento, ou seja, traduzindo, que não
merecem viver.
Lendo o texto de Emir Sader "os mais renitentes" ficarão apenas "mais
renitentes".
Na verdade a existência de Israel é ótima para os Sadams, monarcas e fundamentalistas
de plantão. As iníquidades locais podem sempre ser esquecidas em nome da "guerra
santa", como os militares argentinos fizeram no caso das Malvinas.
Quanto à insinuação do sr. Boudorkan de que os palestinos não estão querendo
indenizações, ao contrário dos judeus em relação ao Holocausto ( judeus são seres
essencialmente materialistas, usurários e fazem qualquer coisa por dinheiro, esta a
mensagem - e pergunto quem é amigo de Hitler, afinal? ), é o cúmulo da falta de
informação. Nos tratados de paz assinados em Oslo estão previstas indenizações.
Impostos são recolhidos em Israel e repassados para a Autoridade Palestina. O movimento
negro no Brasil também reivindica indenizações. Assim como as mulheres coreanas que
foram escravizadas como prostitutas pelo exército japonês na segunda guerra, etc. E
daí? Ao sr. Boudorkan não ocorre raciocínio melhor.
Quando um judeu americano, filho de vítimas do holocausto, denunciou recentemente a
"indústria das indenizações" não o fez atacando todo o povo judeu, mas sim
grupos e interesses específicos. O fato da denúncia partir de um judeu mostra,
independentemente da validade de suas afirmações, que existe massa crítica entre os
judeus. O que sustenta, inclusive, a democracia em Israel.
Ao contrário do que pensam os senhores, os judeus são de carne e osso, sonham com o
futuro de seus filhos, seus jovens detestam servir o exército e a disciplina militar
tanto quanto os jovens de qualquer país, lutam contra o desemprego, contra as doenças e
tentam se divertir em discotecas e bares. A vida em Tel Aviv não é muito diferente da
vida em Goiânia, ou no Rio de Janeiro. Esquerda e direita trocam insultos nos jornais. Um
assalto a banco é noticiado. Alguém se suicida cheio de dívidas. Um marido é traído.
Piadas são contadas. Ao contrário do que possam imaginar os srs., não é um povo de
banqueiros, de capitalistas endinheirados. Existem operários, agricultores, professores,
crianças que merecem tanto a liberdade e a paz, quanto qualquer criança árabe.
Os artigos dos senhores jogam os judeus nos braços da direita, pois ao sentir a força do
ódio que emana de suas palavras, só podem sonhar com governantes "fortes", que
os façam se sentir "seguros". É humano ter medo, se sentir traído, achar que
o outro não corresponde às nossas expectativas, que fizemos muito e o outro nos
respondeu com uma bofetada. Foi assim, movidos
pela frustração, que votaram os israelenses.
Em breve teremos atentados árabes contra judeus no Brasil, como já ocorreu na Argentina,
na França, na Inglaterra, etc, para "chamar a atenção do mundo".
Em Goiânia um pastor evangélico visitou Israel ( para ver onde Cristo andou etc. estas
coisas... ) e voltou com uma camiseta em hebraico do movimento cristão de Jerusalém. O
infeliz foi atacado em pleno centro por lojistas árabes ou descendentes que o julgaram
como "um sionista".
Talvez um atentado contra Oded Grajew ( somente para citar um notável israelense que
participa de nossa vida e organizador do Fórum Social Mundial em Porto Alegre ), para que
o mundo "saiba" do problema palestino, satisfaça o sr. Bourdokan. Poderá
dormir com o ódio saciado.
Deve ser este o objetivo dos articulistas.
Elias Abraham |