Domingo, 11 de março de 2001
Este Nobel da Paz não acredita mais
em acordos
Laureado com o prêmio em 1986 por seu
trabalho pelos Direitos Humanos, o escritor judeu Elie Wiesel esteve na cidade, semana
passada, para receber o prêmio Le Dor va Dor e a Ordem do Cruzeiro do Sul esta,
das mãos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista a Marc Tawil, afirmou ser
totalmente contrário a qualquer acordo de paz com os palestinos: Arafat é um
assassino de crianças, acusa
Elie Wiesel nasceu na Transilvânia, região da Romênia, 73 anos atrás. Em 1944, aos 15
anos, foi deportado junto com a família e os judeus de sua cidade para campos de
concentração nazistas fato que mudaria sua vida para sempre e se tornaria um dos
pilares da sua obra literária. O que Wiesel viu, ouviu e sentiu nos campos de extermínio
por onde passou (Auschwitz, Buna, Gleiwitz e Buchenwald), até ser libertado em abril de
1945, traduziu em palavras. E também em várias ações, que o levaram a ser premiado com
o Nobel da Paz.
Após a 2.ª Guerra Mundial, Wiesel foi para a França, onde mergulhou nos estudos de
filosofia, literatura e religião judaica nos campus da Sorbonne. Tornou-se um profícuo
escritor, sempre abordando temáticas judaicas e a sua experiência no Holocausto. Dos
seus 40 livros, quatro são autobiográficos. O primeiro deles, A Noite, de 1958, relata
sua experiência como prisioneiro dos soldados de Adolf Hitler. O escritor atribui sua
sobrevivência a uma sorte cega. Se fosse milagre, explica, Deus poderia ter
feito outros, como salvar seus pais e sua irmã caçula, mortos em Auschwitz.
Apesar de ser um judeu praticante, Wiesel é um universalista, acredita na paz acima de
tudo e se empenha pela causa que abraçou. Esteve no Camboja, em Biafra, Bangladesh,
Congo, Uganda e Iugoslávia, entre muitos outros lugares, sempre lutando a favor das
vítimas do totalitarismo. Quem é indiferente à dor dos outros é indiferente
também à própria dor, costuma dizer o escritor, insistindo que o sofrimento
não confere privilégios a ninguém.
Sua visão ampliou a compreensão dos acontecimentos de sua juventude, relacionando o
Shoah, a tragédia judaica, com a tragédia da humanidade. Por seu trabalho na promoção
dos Direitos Humanos em todo o mundo recebeu o Nobel da Paz em 1986. Com o dinheiro da
premiação, montou a Fundação Elie Wiesel que, entre outras atividades, organiza
conferências ao redor do globo, abordando temas como paz, esperança e futuro.
Atualmente, Wiesel (naturalizado norte-americano) vive em Nova York, mas continua sua
peregrinação a favor dos oprimidos.
Na semana passada, a convite da Congregação Israelita Paulista, Wiesel esteve em São
Paulo para receber o prêmio Le Dor va Dor (De Geração em Geração). Na quinta-feira
um dia antes de receber do presidente Fernando Henrique Cardoso a Ordem do Cruzeiro
do Sul , Wiesel recebeu a reportagem do JT na suíte do hotel onde estava hospedado.
Atencioso e bem-humorado, falou sobre Direitos Humanos, literatura, política israelense,
guerra e paz. E explicou por quê teria concedido o Nobel da Paz a Yasser Arafat, a quem
considera um assassino de crianças.
Em 1986, o senhor ganhou o prêmio Nobel por seu trabalho pelos Direitos Humanos. Hoje, 15
anos depois, as coisas melhoraram?
Em alguns lugares sim, em outros não. Por exemplo, nos Bálcãs, onde houve pequenas
guerras sangrentas nos últimos anos, não. Em outros lugares, digamos nos países da
ex-União Soviética, melhorou. Depois da queda do muro de Berlim principalmente. A
ditadura não é mais como antes, as prisões se esvaziaram. Naquela região, posso dizer
que houve uma grande mudança.
É possível ir mais longe?
Penso que sim. Primeiro, os grandes criminosos de guerra devem ser apresentados diante de
uma Corte internacional para serem punidos ou, pelo menos, interrogados, ouvidos. Para
mim, é uma questão de Justiça. Ver, por exemplo, nos processos contra nazistas, as
vítimas perante seus algozes, é muito forte. Desagrada-me saber que criminosos de
guerra, assassinos de gueto, passeiam livremente e felizes sob o sol.
Por que os EUA e a Otan podem intervir em países como a Iugoslávia e não em outros
lugares, como na China ou em Cuba?
A China é uma grande potência. Atualmente, estamos protestando pelo Tibete livre. O
Dalai Lama é um amigo e creio que a causa do Tibete é justa. Mas dizer que os grandes
dirigentes do mundo se preocupam em intervir em qualquer regime, eu não diria. É tudo
uma grande politicagem. É triste, mas é assim.
O senhor acompanha a questão dos Direitos Humanos no Brasil?
Não conheço a situação do Brasil suficientemente para opinar. Não acho que existam
grandes tragédias aqui, senão isso ecoaria lá fora. Se eu pudesse estar no Brasil por
duas semanas, poderia traçar um panorama e estudar melhor a questão. Todas as vezes que
estive aqui (três em São Paulo e duas no Rio de Janeiro), minhas visitas duraram dois ou
três dias. O que posso afirmar é que no Brasil há uma igualdade racial e étnica. Mas
não econômica. Não há uma discriminação entre as raças como conhecemos em outros
lugares. As comunidades que vivem aqui não estão umas contra as outras. Noto, porém,
que a injustiça social é grande: de um lado estão as favelas e de outro as grandes
fortunas.
O senhor costuma afirmar que existe diferença entre tolerância e respeito. O
que é mais importante?
O respeito, sem dúvida. A tolerância é condescendente. O que significa eu o
tolero? É condescendente. Prefiro, portanto, a palavra respeito. O ser
humano merece que eu o respeite como ele é. Quem eu sou para humilhar alguém? É um
crime humilhar outra pessoa. Humilhar um ser humano é algo extremamente chocante. Isso
significaria que entre dois seres haveria uma superioridade ou inferioridade. E eu não
acho que há. Ninguém é inferior ou superior. Somos todos, aos olhos de Deus se
você crê em Deus e aos olhos da humanidade se você crê na humanidade
, iguais.
Falemos um pouco do Oriente Médio. No seu entendimento, por que Ariel Sharon foi eleito
primeiro-ministro de Israel?
Sharon foi eleito porque o campo da paz o deixou. O campo da esquerda o deixou. Não foi a
direita que o fez ganhar. Foi quase uma deserção, um desespero do campo da paz
que compreendeu que Ehud Barak não funcionou. Barak, em todas as negociações com os
palestinos, fracassou. Ele fez concessões que ninguém jamais fez e que ninguém mais
fará. O povo israelense votou em Sharon porque queria um governo de unidade nacional.
Para conseguir a paz, é imperativo que haja união. Acho que Sharon está certo quando
estabelece o fim da violência como condição para a retomada das negociações de paz.
Essas concessões não foram válidas?
Sim, foram muito importantes para a paz. Mas o líder da Autoridade Palestina, Yasser
Arafat, recusou-as todas e, no entanto, aceitou a violência. O discurso que vi de
Arafat no fórum mundial de Davos, na Suíça, foi baseado no ódio. Naquele dia, eu disse
a mim mesmo: Isso não funciona. É preciso uma vontade nacional de paz em
Israel. E essa vontade existe.
Uma pesquisa divulgada na semana passada mostrou que 71% dos israelenses encaram Arafat
mais como terrorista do que como estadista. O senhor se incluiria nesse percentual?
Eu sempre fui favorável a esse acordo com os palestinos e a outros que pregam a
paz. Hoje, não mais. Não penso que Arafat queira a paz com Israel. O fato de ele ter
recusado as concessões oferecidas por Barak mostra que ele não quer a paz. Ele não quer
Israel. Barak ofereceu-lhe 95% dos territórios, o reconhecimento imediato de um Estado
Palestino, o retorno de 150 mil refugiados e, indo mais longe, uma presença verdadeira em
Jerusalém. Por que Arafat disse não?
Em 1994, quando Yasser Arafat juntamente com Ytzhak Rabin e Shimon Peres foi
laureado com o Nobel da Paz pela assinatura do acordo de Oslo (até hoje não cumprido), o
senhor não compareceu à cerimônia...
Existe uma tradição pela qual os vencedores do Prêmio Nobel dos anos anteriores não
assistem às cerimônias posteriores. É algo que compreendo... Este dia pertence somente
ao laureado.
Então foi só por tradição?
O que eu faria lá? A troco de quê eu compareceria? É verdade que eu era muito próximo
à Ytzhak Rabin, porém só me faço presente em locais onde posso ajudar. Naquele dia, eu
não precisava estar lá. Tudo foi feito. E muito bem-feito, aliás.
Imaginemos que fosse o senhor que concedesse o Nobel...
Eu não o daria a Arafat. A Shimon Peres, sim. E a Ytzhak Rabin, certamente.
Arafat não merece?
Não, por seu passado... Não posso esquecer que ele era um homem que dava ordens para
matar crianças. Em Israel, há uma cidade chamada Maalot. Lembro que, em uma
oportunidade, os palestinos montaram uma operação militar contra uma escola e dezenas de
crianças foram assassinadas sob as ordens de Arafat. Eu sou a favor da paz, mas
não posso me esquecer desse episódio.
Rabin também foi um general.
Um general na guerra. Ele nunca foi um assassino de crianças ou de civis. Um general que
lutou por seu povo. Guerra é guerra.
Ariel Sharon é acusado de cometer crimes contra os Direitos Humanos. Como é possível
acreditar agora que ele quer a paz?
Não penso que ele seja acusado de cometer tais crimes. Ele apenas é acusado de ter tido
participação indireta no massacre de Sabra e Shatila. Ele sabia, mas não
fez nada para impedir. É grave. Quando vemos tragédias como essa, em que centenas de
pessoas morrem... O que sei é que um tribunal em Israel concluiu que ele poderia ter
feito mais para impedir. Isso foi há muito tempo, a história se encarrega de nos
lembrar. O francês Charles De Gaulle também fez coisas terríveis na Argélia
houve torturas, mortes. Com o tempo, De Gaulle mudou. Foi ele quem parou com a guerra na
Argélia. Em Israel, hoje, o povo está unido e quer um governo de união nacional
sob o comando de Sharon. É preciso lhe dar essa chance.
Com Sharon no poder, o processo de paz com os palestinos será retomado ou enterrado?
O processo, como tentativa ilustrada por Ehud Barak, continuará. Será de outro modo, uma
outra forma. Não sei bem qual, mas eu ouvi muitas opiniões e declarações de uns e de
outros. Baseado nelas, digo que agora ele não pode voltar atrás, como antes. As
negociações continuarão, certamente.
É possível fazer um acordo de paz com os palestinos sem incluir o delicado status de
Jerusalém?
Jerusalém não é uma questão territorial. É uma questão histórica. Ela diz respeito
a todos os judeus. É a capital do povo judeu. Não entendo a posição palestina de
querer fazer de Jerusalém sua capital. De 1948 a 1967, quando a Cisjordânia e o leste da
cidade estavam sob ocupação da Jordânia, ninguém falava nisso. Eu trabalhava como
repórter e cobri o Oriente Médio. Acho que a defesa de Jerusalém como capital palestina
foi lançada para torpedear o processo de paz. É possível fazê-lo. Basta dizer que essa
questão ficará em aberto por 20 anos.
O conflito palestino-israelense influi em suas obras?
Sim, e o que se passa em Israel também. É muito simples. Quando eu compro um jornal, a
primeira coisa que leio é sobre Israel. Quando estou em Paris, e compro o The New York
Times por exemplo, procuro saber da situação no Estado judeu. Pelo meu passado e meus
engajamentos, tenho em Israel uma grande referência.
Voltando um pouco no tempo, qual sua maior lembrança dos campos de concentração?
Eu não falo disso. Escrevi cinco livros sobre o assunto. Não gosto de falar de mim
mesmo. O que deveria dizer sobre o Holocausto, disse na minha obra. Dos meus 40 livros,
três ou quatro são autobiográficos. Para mim, é mais fácil me expressar no papel.
Por que o senhor se recusou a presidir o comitê de ressarcimento às vítimas do
Holocausto?
Não é um trabalho para mim. É algo importante e digno. É justo que as pessoas
recuperem o que lhes foi confiscado. As pessoas sempre falam em quadros e tapeçarias, mas
muitos se esquecem que o inimigo também roubou a pobreza dos pobres.
O que o salvou da morte?
Não sei. A sorte... uma sorte cega. Não um milagre. Se Deus fizesse um milagre para mim,
ele poderia ter feito alguns milagres a mais pelos outros que eram melhores do que
eu, mais puros do que eu, mais sãos do que eu, mais sábios do que eu e mais eruditos do
que eu. Foi realmente a sorte. Muitas vezes estive perto da morte e, por razões que
desconheço, de repente estava a salvo.
Na condição de sobrevivente da 2.ª Guerra Mundial, qual a sua opinião sobre autores
como Norman Filkenstein, que pregam a existência de uma indústria do
Holocausto?
Eu nunca respondo ao ódio. Filkenstein carrega o ódio consigo... o ódio por Israel, o
ódio selvagem. Ele é contra Israel e a memória dos sobreviventes e seu sofrimento. É
um sujeito repugnante. Prefiro não responder a suas críticas.
Como escritor, o senhor acompanha a literatura brasileira?
Conheço muito bem a obra de Jorge Amado, que é membro da Academia Universal de Cultura,
da qual sou presidente. É um grande escritor. Mais recentemente, tenho livros de Paulo
Coelho.
Quando o senhor foi premiado com o Nobel da Paz, o senhor criou a Fundação Elie Wiesel.
Do que ela trata?
O que fazemos é simples: organizamos conferências para discutir temas de interesse
mundial. Quando meu amigo (o presidente francês) François Miterrand era vivo, em 1988,
fizemos um encontro unicamente com prêmios Nobel de todas as disciplinas. Foi um grande
acontecimento. Foram 79 prêmios Nobel reunidos por três dias no Palácio do Eliseu, em
Paris. Foi muito forte. O tema era As Ameaças e a Esperança no Limiar do Século
21. Depois, fizemos outra conferência, sobre A Anatomia do Ódio, no
mundo todo. Em Hiroshima, no Japão, realizamos um encontro chamado O Futuro da
Esperança. Encontros sempre ligados a temas dos gênero... em Moscou, Oslo, Haifa,
Boston, e ainda fazemos em todos os lugares. Nossa fundação também cuida de dois
centros que abrigam quase mil crianças etíopes em Israel. Você pode conferir nosso
trabalho no www.eliewieselfoundation.com.
O senhor ainda mantém a esperança de paz?
Sim, eu me invento esta esperança.
Todos os dias?
Todas as horas. |