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Abram Blajberg - Uma Lição de Vida
Autor: Israel Blajberg

Nota do Autor:

Este relato singelo recorda a trajetória de um imigrante: meu Pai, a que tudo devo: Avraham, ben Shlomo HaLevi, Blajberg, Z"L, 1910-1994.

Não fora a sensibilidade dos netos, e da dedicada Professora Helena Lewin, tomando horas e horas de depoimentos gravados, sem dúvida grande parte destas lembranças estaria hoje sepultada pela poeira do tempo.

Penso que histórias assim sejam úteis a nossos historiadores, que com zelo científico vem preservando o retrato dos anos em que predominaram os imigrantes na sociedade judaica brasileira, permitindo às futuras gerações manter suas raízes e tradições.

Fica contudo incompleta a estória da minha Yiddishe Mame, Perla Langier, Z" L; ela nunca pôde parar os afazeres domésticos para gravar as suas lembranças, até que foi tarde demais. Tentarei através de amigos e parentes suprir esta lacuna.

Quero agradecer penhoradamente a consideração dos organizadores do Encontro, permitindo que recordemos a memória de Abram no quinto ano do seu passamento, ele que se vivo fosse certamente haveria de querer prestar pessoalmente seu depoimento neste fórum.

Rio de Janeiro, novembro de 1999.


Israel, ben Avraham HaLevi, Blajberg

1. Ostrowiecz - 1910 - 1929

Abram nasceu na véspera de Pessach, 14 de abril de 1910, em Ostrowiecz, Polonia, cidade com 50 mil hab., dos quais 30 mil judeus. As origens da família remontam a expulsão dos judeus da Península Ibérica, quando se radicaram em Bleiberg, Alemanha, cujo nome deriva da mina de chumbo lá existente, a qual após totalmente exaurida originou a estância turística de Bad Bleiberg. Os judeus entraram na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz, passando o nome a se grafar Blajberg.

Aos 3 anos, sua avó Ethel (Etale), levou o pequeno Awrumtchik enrolado no Talith para o Heder. Lá chegando, distribuiu balas para as crianças e o deixou com o Rebbe, que lhe ensinou o alef-bet. Mais tarde, Abram teve de encarar a face perversa do anti-semitismo, ao estudar na escola pública obrigatória.

Após os estudos, Abram passou a ajudar o pai, que operava com câmbio e títulos através de um agenciador em Varsóvia, ficando horas a fio aguardando comunicação para saber as cotações, o que lhe desagradava.

A este tempo, desejou ir para a Palestina, mas os ingleses limitavam em muito os vistos. Vendo que não teria futuro, decidiu-se por sair da terra natal. Os pais eram contra. A princípio desejou ir para a Argentina, mas não tinha uma Carta de Chamada. Alguém comentou que o Brasil acolhia a todos, desde que não apresentasse doenças infecto-contagiosas, e pagasse 20 mil réis em ouro para o visto.

Finalmente conseguiu convencer o pai a assinar seu passaporte, e aos 29 de novembro de 1929, partiu. O pai não teve coragem de acompanhá-lo, Abram nunca o tinha visto chorar. Ele era mais alto que o filho, na estação do trem o abraçou, e disse:

"Meu filho, tenho um pressentimento que nunca mais vou ver você - a única herança que lhe deixo é um nome a zelar - só isso"

Parecia que estava adivinhando. Sua irmã o levou para Varsóvia e de lá foi para Cherbourg, onde tomou um navio inglês para o Brasil.

2. Do Shtetl para a Praça XI - 1929 - 1935

Abram chegou ao Rio em 23 dez 1929, calor insuportável, sabia por alto da America Latina, que não havia preconceitos. A entrada do porto de noite era uma maravilha, logo começou a gostar só por isso.

No dia seguinte foi para o Relief na Rua São Cristóvão 139, hoje Joaquim Palhares, associação que prestava o primeiro apoio aos recém-chegados. Só um dia lá ficou. Perguntou qual o numero do bonde, estava acostumado com o bonde na Polônia. Disseram-no para seguir as palmeiras, andou, andou, entrou num botequim, fazia muito calor em dezembro, pediu uma cerveja. Sentou-se à mesa, deram-lhe um cafezinho quente. Pensou com seus botões, já começaram a debochar, como na Polônia, se chegava um provinciano, todos se reuniam para olhar. Apareceu um cidadão negro, uma simpatia, Abram reclamou estar com calor e que estavam debochando dele – pediu cerveja, pão, mortadela, e não o deixou pagar, levando-o até o Relief e sumindo, nunca mais Abram o viu.

Os conterrâneos souberam da sua chegada, no dia seguinte o primeiro a aparecer foi Hendl, amigo do seu irmão, que o buscou: Shalom Aleichem, Avrumtchik, nem se lembrava dele. Vamos que minha esposa Chaiale quer te ver, pega as malas – de nada adiantou, Abram teve que ir - moravam na Praça XI, num verdadeiro cortiço na Júlio do Carmo 70. Dank Got, zetzer anide.

A miséria era grande entre os judeus na Praça XI. Hendl morava numa avenida, uma casa de vila de sala e quarto com a família e mais 4 solteiros, muito calor, percevejos, muita miséria, falta de higiene, portanto estes de pouco podiam ajudar. Havia mais de 200 famílias ali. Dizia-se que as camas andavam sozinhas de tantos percevejos. Cada família tinha 3, 4 pessoas, e ainda alugava para 3, 4 solteiros.

Os correligionários auxiliavam a se iniciar para trabalhar clientele; com o conterrâneo Moishe Fish alugou um quarto no Méier. Vendia shmates (tecidos), batendo palmas à porta das casas, daí o têrmo "Klapn klientele". No primeiro dia quase chorou. Chegando em Cachambi, havia uma grande mangueira, debaixo da qual vários judeus da Bessarabia reunidos o chamaram: Ó Griner (verde – recém-chegado), vem descansar! Abram saia de madrugada para batalhar. O amigo Moishe Fish o ensinara a fazer economia. 90 mil reis por mês para tudo, 30 para o quarto e 60 para viver. Levantar bem cedo, leiteria na Rua Arquias Cordeiro, 2 pães, uma média, 300 reis; os que já tinham algumas posses comiam o pão com manteiga... Hora do almoço, botequim na Rua José Bonifácio, mais de 50 clienteles, champanhada para 2 pessoas, 600 reis, soda 200 reis, e sanduíche de pão com queijo. Para voltar de tarde, comprava a passagem de trem, ida/volta a 300 reis, até a Central, indo a pé até a Praça Tiradentes jantar no China. Tendo chegado com 68 kilos, em pouco tempo já estava com 60.

Decididamente, Abram não tinha o menor gosto pelo ramo. Vinha de uma família de certas posses, um ambiente cultural, achava humilhante ter que bater nas portas para oferecer mercadorias, entretanto, a falta de alternativa não lhe permitia escolha. Na chegada de volta a Praça XI, o cheiro de suor das legiões de klienteltchiks se sentia de longe. A concorrência era grande. Pela manhã, saia da Yiddishe Avenide na Praça XI uma fila indiana de klienteltchiks. Até as crianças já faziam sinal com as mãos de que não se queria comprar nada. Quem não conseguia ser clientele era chamado de Farloirene Shif (navio perdido).

Muitos, desencantados voltaram; já outros fizeram tamanha economia que não suportaram o sacrifício; morriam tuberculosos, devido a má alimentação, às vezes um pão com uma banana, agravada pelo clima a que não estavam acostumados e pelas roupas inadequadas, como o terno caqui com gravata para poder entrar na 1ª. classe do bonde. No começo, o klienteltchik vendia tecidos de qualidade inferior (shmates), em volume proporcional ao credito obtido. Posteriormente, já tendo formado freguesia, começava a diversificar a oferta de produtos, até que ele mesmo já não levava mais nada, a freguesia é que encomendava. Cartões enrolados em jornal debaixo do braço, vendiam roupas, ternos e jóias. Os que tinham aptidão se desenvolviam, montavam negócios, iam longe. Assim que podia o klienteltchik abandonava o ramo para fazer outra coisa. Discriminação não havia. Chamados popularmente gringos, geralmente não se declaravam judeus, mas sim alemães, russos, turcos - nos cartões constava Casa Alemã, Polonesa, e assim por diante. Foram os precursores do cartão de crédito, da desconcentração das grandes lojas, com filiais nos bairros. Alguns iam para Santa Cruz de Maria Fumaça viajando 3 horas, trabalhando sábados e domingos. Havia muitas mudanças entre a freguesia, gerando calotes devidamente registrados nos muros das respectivas casas em letras hebraicas: tzvok – (prego - caloteiro). Foi talvez o primeiro SPC de que se teve notícia.

3. Aventurando-se pelo Brasil Central - 1935 - 1943

No Rio, Abram não pudera se adaptar a uma miséria tão grande; Em 35 chega um amigo que tinha um irmão em Uberlândia, e oferece-lhe sociedade, a pequena cidade era muito boa para se viver, o ambiente era outro, tranqüilo, mais se assemelhava ao shtetl distante. A viagem levou 3 dias por São Paulo.

Saia pelas fazendas vendendo. Se nascia uma menina, os fazendeiros costumavam logo começar a comprar o enxoval, guardando-o no baú. Um amigo que ia se estabelecer em São Paulo sugeriu que para lá viajasse a fim de adquirir lotes de linho, lençóis, fronhas. Abram viajava 32 horas de trem para São Paulo, se a maria-fumaça não atrasasse. Depois começou a viajar pelo Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso. Até em aldeias de índios esteve.

No interior a vida era muito mais sossegada, clima melhor sem ondas de calor nem muito frio no inverno, como no Rio. Abram arranjara muitas amizades, gostava muito daquela vida. Lá entrou na Maçonaria - não aceitavam ateus, era mandatório acreditar em D’us; embora muito apegado ao sionismo e as tradições judaicas, Abram não era nem um pouco ortodoxo – simplesmente não seguia a religião, foi um homem livre até o fim de seus dias. Naquela região, a maior cidade era Anápolis, até onde chegava o trem - apenas começava-se a construir Goiânia. Abram chegou até Goiás Velho, antiga capital, onde os Bandeirantes começaram a Marcha para o Oeste. Esteve no Rio Vermelho, em Goiás Velho, onde tirava-se ouro, foi até Leopoldina, na margem do Araguaia, descendo até Marabá, no Tocantins; ia até Belém, mas por causa da maleita, voltou em 42.

Entretanto, o dinheiro não parava na sua mão. Estava no meio dos intelectuais, sempre se conservando na linha, ganhando e perdendo. Ia e voltava, a base era Uberlândia. Na época com 25 mil habitantes, era uma miniatura do Rio. Frequentava o club e de noite jogava poquer com os fazendeiros. Tratavam-no de "Barão", gostava de andar bem vestido. Levava boa vida, comia bem, dormia em bons hotéis.

Havia poucos judeus, em Yom Kippur se reuniam para fazer um minian. Havia bar-mitzvah, brit-milah, a maioria era gente livre. Contava Abram que no interior, quando se dizia judeu, "...eles procuravam o meu chifre"... era muito amigo do Pe. Castilho, Diretor do Colégio Salesiano, com quem costumava almoçar - quando atrasava o Padre esperava. Um dia Abram chegou e já o encontrou comendo: Bom, hoje é o seu dia de jejum, não? – o próprio Abram esquecera do Yom Kippur...

Havia a Farmácia Catedral de homeopatia, cujo dono pelo nome Tarnopolski poderia ser judeu ou polaco. Abram foi conferir e descobriu que se tratava de um judeu da Galitzia, que dizia ser protestante a fim de que não ensinassem a religião católica ao seu filho na escola.

Quando rebentou a guerra, Abram estava em Anápolis; começou-se a falar na véspera que ia haver guerra. De manhã, quando se levantou, em frente morava um nortista, de dia não se pegava rádio, só de noite: "...sabe Abrão, rebentou a guerra...", "...quando ele me disse tomei um susto que você nem calcula...", Com a guerra Abram quis voltar para o Rio, achando que lá teria mais noticias. Seriam 12 horas até Araguarina, 32 horas até São Paulo, 8 horas até o Rio. Optou pela alternativa mais rápida, a jardineira (ônibus) até Uberaba, de lá para Ribeirão Preto, de onde sai o trem da Paulista, mas no meio do caminho desceu num lugarejo, onde um caboclo pegou a sua mala sem querer, parecida com a dele, ficando Abram com a mala alheia, onde mais tarde achou roupas de serviço, cigarros baratos. Assim, perdeu todas as cartas e fotos da família. Desgostoso, interrompeu a viagem, esperando no povoado, anunciando, mas ninguém apareceu. Voltou então outra vez para Uberlândia.

A última notícia que Abram teve dos familiares foi num sonho em out / 43: estava andando pelos esgotos em Ostrowiecz, - ainda que lá não existissem esgotos - de repente chegou perto da abertura, ia sair, quando sua mãe apareceu e disse: "...o que veio fazer aqui, volta para onde você veio... ". – mais tarde soube pela irmã que naquela data os judeus de Ostrowiecz foram deportados para o campo de concentração. A irmã mais nova, Lola, foi salva por um amigo polaco católico do pai de Abram, escondida durante a guerra.

Abram acreditava que o Grande Arquiteto do Universo marca o destino das pessoas. Estava ele hospedado em um dos bons hotéis da cidade, quando um dia chega um judeu do Rio. O dono veio avisar Abram: chegou um correligionário seu, era Harshale Krusniker, de barbicha, uma pessoa muito simples, inteligente, vivido: era um alfaiate, viajara a negócios. Apresentaram-no, "...que que você está fazendo aí, vai se perder, estou vendo um homem de cultura, vai se perder nesse meio, casar com qualquer uma..., estou admirado, você vai se perder, vai se misturar"... ,"tantos anos aqui, ninguém vai saber de você, escuta meu conselho, você volta para o Rio...", Era 1942, Abram tinha 32 anos - retrucou que nunca iria se casar, muito menos com qualquer uma. "Escuta o meu conselho, o Rio não é mais como antes, o seu Ziwug lhe espera". Assim ele o convenceu, pediu para dar a mão e prometer que iria voltar.

Não tendo nenhuma noticia dos familiares, e com a cabeça feita por Krushniker, Abram, que nunca ia ao Rio, só viajando a São Paulo, voltou e começou a perguntar pelos amigos, ...aquele já casou, aquele já morreu..., aquele assim..., Com saudades, voltou para Uberlândia, despediu-se dos amigos e retornou definitivamente ao Rio. Chegando na casa de Haiale: Der ziwug daine is noch du - seu destino ainda está aqui a sua espera. Depois de 8 anos, se o dissessem um dia antes, nunca iria acreditar que um dia se casaria. Conseguiu acumular algum dinheiro, deixou de jogar, reuniu 18 contos, que era e não era dinheiro, e com isso começou a vida de novo no Rio. Não chegou a ficar rico, mas sempre teve a consciência limpa.

4. Retorno para o Rio - 1944 - 1994

Em janeiro de 44 Abram havia voltado. Finalmente Haiale cumpre sua missão como shatchn - em plena II Guerra Mundial, sem nenhuma notícia da família na Europa, tendo ficado noivos em abril, casaram-se em julho,

Em junho de 1945, o irmão Mayer, internado na possessão inglesa da ilha de Trinidad y Tobago, manda a triste noticia: todos haviam desaparecido. Os pais, irmão e irmã mais velhos, cunhado, nora, 4 sobrinhos, vários tios, primos, todos. Não havia mais sinal de que um dia existira uma família Blajberg em Ostrowiecz. Da Cruz Vermelha Abram recebeu uma carta informando que não foram encontrados seus familiares.

Nos primeiros anos de casado, Abram mora em Quintino e trabalha na zona rural: Campinho, Praça Seca, Porta d’Água, lugares remotos e pacatos. Na pracinha alugava o taxi de um velho motorista português e as vezes me levava, encantado com a elegância daquele enorme automóvel preto americano de bancos largos e grandes portas. Fazia as vendas a prestações, e com isso sustentava a família.

Em 1955 com o passamento do sogro Boruch Langier, reune suas economias as da sogra Sura Rajzla Langier que sucedera o marido na clientele, conseguindo alugar pequena loja no recém-construido Edifício Campinho, Estrada Intendente Magalhães 71-A (antiga Rio-São Paulo), mudando-se para um apartamento em cima. Estava fundada a sociedade Blajberg & Langier, Mobiliária Campinho Ltda.

Naqueles poucos metros quadrados entretanto, o ambiente ainda era o de Ostrowiecz. Abram nunca adotou as modernas técnicas de varejo nem queria saber da globalização, muito menos de reengenharia. As mobílias eram descarregadas e lá ficavam, sem muita preocupação com o lay-out. As operações eram realizadas mais com base na palavra do que em outra coisa. Com o tempo, pais que haviam comprado o bercinho do bebê retornavam desta vez para escolher a mobília do casamento.

Abram nunca se deixou seduzir pela voracidade do lucro fácil ou pela exploração do mais fraco. Tratava fregueses e empregados com um misto de maneiras do shtetl e de Uberlândia, de onde sempre guardou o sotaque mineiro e o jeito manso do caipira. Com a sua voz macia e comportamento sereno, grangeou amizades por toda a região.

De maneira geral, a conduta de Abram advinha do que observara e aprendera com os pais na Polônia, como revela o depoimento de Da. Schaindla Rubinsztajn Herszenhaut (tia da minha esposa), dado em yiddish com todo seu encanto:

".... seus Avós moravam na rua mais bonita - meu Pai estava no Brasil, mandava dinheiro para a Mame; eu ia trocar. Casa muito bonita, limpa, boa Senhora, bom e bonito Avô, muito honesto, assim que chegava me dizia: zits, meidale (senta, menina), eu tinha 9 anos, a casa era de assoalho de madeira clara, limpíssima, tudo lavado, panelas brilhavam na parede, sua Avó, sempre bem vestida, ajudava muito os pobres e não dizia nada, no Shabat levava hales para distribuir aos pobres - não dava só um, mas vários. Só se tinha confiança nele, Shloime era o maior, não dava vontade de sair daquela casa...."

Em 1980 e 1992 Abram se permitiu um luxo, viajar a Israel para visitar os 4 irmãos. Quase nunca havia tirado férias, uma ou duas vezes estivera em São Lourenço com amigos. O maior jornal de Israel, Maariv, estampou a foto do reencontro com os irmãos, após exatos 51 anos, somando ao todo 35 parentes, entre cunhados, noras, sobrinhos e agregados.

Outra alegria de Abram foi meu casamento com Marlene, ela também descendente pelo lado paterno de outra tradicional família de Ostrowiecz, os Rubinsztajn.

Abram se deliciava em contar como fomos ao Grande Templo próximo a Praça Cruz Vermelha, onde nasci no hospital do mesmo nome, para marcar a cerimônia com o Eminente Rabino Yacov Blumenfeld, Z"l. ..."este, zeloso, começou a perguntar quem somos nós, e tudo, aí perguntou a mim, eu trouxe a ketubah, (contrato de casamento escrito em aramaico), ele queria saber se a gente casou pela Lei de Moisés. Ai perguntou, quem é o senhor? ...quem o conhece? aí fiquei mais irritado, e falei, Rav. Blumenfeld, o Sr. quer saber quem sou eu, aí tirei a ketubah e mostrei quem eram as testemunhas, o Pai dele, o Pai e o Tio, eram muito amigos meus, ai ele ficou meio assim, e na cerimonia ele disse na preleção: são duas famílias conceituadas que estão se ajuntando em baixo da chupah, eu fiquei emocionado embaixo da chupah, olha o que D’us me deu, consegui levar meu filho para debaixo da chupah, são coisas não é, temos quatro netos assim, se D’us quiser também quero ver a chupah de vocês..."(depoimento aos netos, 93).

Abram não se impressionava com grandes festas em hotéis de luxo. Preferia o ambiente tradicional das sinagogas e clubes judaicos para os casamentos e bar-mitzvot, quando dizia brincando, "...vou tirar a barriga da miséria..."

Aos 26 de maio de 1994, voltou pela derradeira vez da loja. Exatamente uma semana antes, Marlene tivera um sonho com um leão que espalhava diamantes faiscantes, até a final lançar-se numa cova, interpretado como sendo Abram, e os diamantes a herança que nos deixou, bem entendido, não a herança material, esta modesta.

No Cemitério Velho de Vila Rosali, em São João de Meriti, a matzeiva de Abram é testemunha de que nunca se desviou da recomendação paterna:

Viveu com dignidade
Honrou seus antepassados
A lembrança da sua serenidade
nos guiará para sempre.


ISRAEL BLAJBERG

Brasileiro, nascido no Rio em 31-maio-45, Engº. do BNDES desde 1975. Ingressou no Magistério Público Federal em 1968, sendo Professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, Niteroi - RJ

Fez estudos primarios na Escola Cruzeiro do Sul (Quintino), Escola Israelita Brasileira I. L. Peretz (Madureira), C. H. Bialik (Meier), Ginasio Hebreu Brasileiro (Tijuca), ginásio e científico no Colégio Arte e Instrução (Cascadura), e vestibular no C.O.S. (Castelo).

Desde os 10 anos frequentou o Betar, na Rua Sete de Setembro, tendo participado das machanot em Campo Grande-RJ, Varzea das Moças-RJ, Pati do Alferes-RJ, Taquari-RS, Uruguai, Congressos Juvenis na Fazenda Suiza (Uruguai), Buenos Aires. Foi madrich, tendo participado de acontecimentos históricos, como a guarda das Sinagogas (1959), visitas de Menahem Beguin, Haim Landau, Josef Klarman, Ben-Gurion, e outros.

Integrou o primeiro Tapuz em 1968, no Kibbutz Lehavot HaBashan, alguns meses após a Guerra dos Seis Dias, com visitas ao Golan, Sinai, Gaza, Hebron, etc, reunião com Itzhak Navon na Knesset, e muitas outras atividades.

Participou do Congresso IEEE em 1971, Tel-Aviv,

Em 1999 colaborou no Patrocinio ao Projeto Samuel Malamud, que visa preservar a memória do Ilustre Lider Comunitário, no Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro.

Em 1959, ganhou do Advogado Fernando Leviski o livro Historias do Tempo Mau, e na mesma época, pelo Advogado Henrique Leitman foi iniciado na leitura e busca de livros sobre temas judaicos. Recentemente, resolveu colocar no papel algumas recordações, o que pôde fazer graças ao exemplo passado por aqueles dois Eminentes Correligionários.

Textos em preparo sobre a temática familiar e judaica:

A Menina que Dançava - As 4 Jóias do Milionário - O Cálice Sagrado - O Beijo da Eternidade - An Alte Soldat - Medusa - O Condutor - Yiddishe Mames - A Tia distante - Lola, a Católica - As 40 famílias - O filho da polaca.

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