O caso do Rabino - por Armindo Trevisan

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Tenho acompanhado pelos jornais o chamado "Caso Sobel": um rabino, com uma história exemplar de dignidade e luta em favor dos direitos humanos, é surpreendido numa loja de Palm Beach, Flórida, afanando quatro gravatas de grife. Policiais americanos prendem o rabino, que efetivamente está com as tais quatro gravatas, cujo furto foi registrado pelas câmeras de televisão do circuito interno de segurança da loja. A polícia divulga a foto de um homem de olhos arregalados, com uma expressão de transtorno mental. A imprensa mundial apodera-se do escândalo. Os orkuts não perdem tempo: enxovalham a memória do infeliz rabino... que é internado num hospital para tratamento de descompensações... ou algo parecido. Afinal, todo mundo já percebeu que o rabino infringiu recomendações médicas, ingeriu em excesso medicamentos diazepínicos e mostrou claramente o que ele é (e nós com ele): um ser humano,demasiadamente humano. Pergunto, repetindo a interpelação de Alguém: quem de nós atirar-lhe-á a primeira pedra? A estas alturas, asseguro-lhes que já estou recolhendo do chão a milionésima pedra! Pobre humanidade: sem bom senso, vingativa, alheia a qualquer misericórdia.

Estamos na época da lei de talião. Como professor universitário, e escritor católico, não posso compactuar com o linchamento moral do rabino. O fato jornalístico, em si, pertence aos clínicos, às autoridades competentes. O que desaprovo é a precipitação, a sofreguidão com que se crucifica um homem que, ao que parece, já estava numa pior. Percebo até um cheiro de anti-semitismo no ar. Em outros tempos, Sobel defendeu vítimas da ditadura, personagens que foram objeto de manipulação da mídia, bancada pelos governantes. Onde ficou nossa memória? Não poderíamos aguardar um pouco mais, o suficiente, para nos apercebermos de que o rabino Sobel é - e não é - o rabino Sobel que, durante tantos anos, liderou a comunidade judaica de São Paulo? Senhor rabino Sobel, conte com minha solidariedade de católico.Estou atônito que nenhuma autoridade católica do país lhe tenha estendido a mão. Eu a estendo, em nome dos cristãos do Brasil. Como estendi esta mesma mão aos islâmicos, na hora em que engraçadinhos dinamarqueses e franceses ironizavam a pessoa respeitável do profeta Maomé.

ARMINDO TREVISAN é Escritor

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