Painel do Leitor - A morte do professor em Virginia (EUA)

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Ninguém poderá afirmar exatamente o que o sr. Liviu Librescu pensou e o que o fez agir como agiu no caso da matança na universidade nos EUA. Sabe-se que ele foi para a porta impedir o atirador enquanto estudantes fugiam pelas janelas. Talvez a Shoá não tenha nada a ver com isso. Eu duvido! Também não significa que o fato de ser um sobrevivente da Shoá implique que se seja facilmente um herói, como o sr Librescu vem sendo chamado. Mas o que significa então um gesto de mártir, um compromisso com a vida alheia que faz arricar e perder a própria? Poderia ser um outro. Poderia ser um brasileiro. Quem saberá? Mas foi um sobrevivente da Shoá. Além de o ato me tocar emocionalmente, me impressionou bastante. Quando nos relacionamos com sobreviventes do extermínio promovido pelos nazistas parece inevitável que em dado momento o testemunho, o diálogo, acabe em dor. Os velhinhos estancam às vezes diante a pergunta: Por quais motivos EU? Eu sobrevivi e o fulano não. Essa questão parece caminhar com eles desde a década de 30. E nunca conseguem uma resposta racional definitiva. Uns dizem sorte. Outros enxergam razões místicas. A gente até reconstruiu alguns perfis, normas, regras que ajudavam a viver mais. Mas nenhuma é 100% segura. Aliás nada era seguro em se tratando de judeus naquela época.

Assim, eles convivem com a sobrevivência de certa maneira estupefatos e às vezes certas coisas voltam e eles, os sobreviventes, sofrem e a gente não tem muito o que reponder quando nos indagam. A questão é: Muitos alunos neste caso sobreviveram por causa da ação, coragem e solidariedade do sr. Librescu. Numa fração de segundo o sr de 76 anos fez um movimento que assegurou a sobrevivência de muitos jovens. Como se decidisse que ele, uma exceção numa era de extermínio, teria de fazer o que fez, ao preço que pagou, sem vacilar. Se garantisse a vida de um estudante valeria, mas diabos, acho que ele agiu e ponto. não ficou pensandomuito em heorísmo e bondade humana. Ambas já haviam dentro dele. Afloraram num movimento, que lhe custou a vida, mas ainda assim, maravilhoso. Quiçá agiu no reflexo, dada sua história. Mesmo indagados, a gente nunca sabe responder exatamente porque um sobreviveu e outro ao lado não na Shoá. Mas essa molecada que pulou da janela da sala de aula para a vida, seus familiares, talvez eles desconfiem de algo. Dirão: Graças a Deus que o sr. Librescu sobreviu à sanha assassina dos nazistas decadas antes. Não conheço a história pessoal do sr. Librescu. Não sei por que ele sobreviveu. Muitas vezes não faz sentido racional, uma sorte danada, uma casualidade, às vezes dinheiro. Quando tudo leva à morte, viver parece mesmo não fazer sentido. Não sei o que levou o jovem assassino a cometer a loucura.

Sei que a ação do sobrevivente da Shoá garantiu a vida de estudantes. Porque sobreviveu quando tudo indicava que seria assassinado décadas antes? Viveu por que? Por que Ele e não o vizinho, ou qualquer outro dos milhões que pereceram? O episódio demonstra a máxima judaica: A vida é a maior Mitzvá. Por isso ele morreu. Agora todos sabem. O professor Ringelblum, e toda a Oneg Shabat, e toda a juventude estudante (budista e sionista e até alguns grupos juvenis cristãos de estudantes como escoteiros polacos e Rosa Branca alemão, todos juntos, incluso os jovens ateus), o professor Korczak, A ZOB, a ZZW, os partisans de Bielski, a FPO, e toda a judiaria do Bem que resistiu aos nazistas estão agora mesmo lá no Céu recebendo o companheiro. Não sei ao certo, mas aqui no Brasil parece há família que pesquisa a Shoá, inclusive publicando, oriunda da mesma região do professor Librescu. Acho vale a pena ressaltar o sacrifício do professor. Seja o que for que tenha ocorrido no passado, no caso específico dos Librescu, a ação do professor no presente, um gesto isolado em toda a história da matança na universidade, diz muito e significa muito. Mas muito mesmo. Basta perdermos um pouco do nosso tempo para refletir sobre a notícia: Ex-sobrevivente da Shoá dá a vida para salvar seus alunos. Meu Deus! Minha Nossa Senhora! Buda! Alá... Isso não é pouco! Não pode passar por nós como pouco. É quase tudo. Porque possibilitar a vida assim não é coisa apenas de Deus. Quando os homens são humanos.

Josue Canda
josue.canda@ig.com.br
Quarta, 18 de Abril de 2007

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