| Verão versus Religião - por Marcos Wasserman |
| 7/8/07 - Existe uma praia em Tel Aviv conhecida pelo pitoresco nome de “Praia dos Bisbilhoteiros”. Ela se situa próxima a um dos mais importantes hotéis internacionais da cidade. Entre os dois pontos referidos, existe uma praia reservadíssima para judeus religiosos. Consta que certos dias da semana são reservados somente para as mulheres e, outros, exclusivamente para os homens. A Prefeitura de Tel Aviv, atendendo a pressões de representantes de parte da população religiosa da cidade, decidiu reservar, ao sul do bairro de Tel Baruch, uma nova praia exclusiva para seu uso. Para tanto, será construído um muro de separação, além de outras edificações e um quebra-mar. Tudo isto a um custo orçado em aproximadamente US$3.400.000,00
Por quê os religiosos têm direito a praias privativas, perguntaria o leitor desavisado, que desconhece certas realidades israelenses. Segundo consta, seria para poupar os religiosos, homens e mulheres, de eventuais olhares impudicos recíprocos e, ademais, para protegê-los também de pecadores olhares profanos. Ninguém nesse país de Israel se atreveria protestar contra esse tipo de privilégio, que tem certos aspectos antidemocráticos. Afinal, as praias são públicas. Ademais, a orla marítima é constantemente ameaçada de invasão por empresas construtoras que tentam, às vezes com êxito, driblar leis municipais e construir edifícios além do limite permitido. Estamos em pleno verão. Todos reclamam que o calor desse ano supera o dos anos anteriores, e milhares de pessoas invadem as praias. É também a época de excursões pelo país. Muitos são os que preferem se aventurar a longas caminhadas por câniones secos, onde no inverno correm rios, ou melhor, riachos, e há os que se aventuram pelas áreas desérticas, que não faltam em Israel. Excursionistas mal-orientados e despreparados pagam caro por sua imprudência, e há casos de morte por desidratação. É época de férias – também para os jovens das ieshivot. Esses que vivem meses a fio congregados em salas de aula, estudando a Torá, sem ver a luz do dia, perdem-se no inebriante sol israelense, e, nos últimos dias, três infelizes destes jovens pagaram com sua própria vida o prazer do seu passeio. Não são poucos os socorridos e salvos pelo serviço especial de recuperação de excursionistas perdidos, e até por helicópteros. Os rabinos preocupados tentam, em vão, sustar o ímpeto excursionista dos jovens religiosos. A preocupação dos líderes espirituais não se limita ao aspecto físico, mas principalmente ao espiritual. O receio decorre do contato desses jovens com o mundo profano, com as atrações proporcionadas pelos moderníssimos centros comerciais e os espetáculos públicos musicais, que atraem multidões. As tentações do verão podem ter um conteúdo pecaminoso. Os muçulmanos-israelenses também vão à praia. É fácil distinguir suas mulheres no meio da multidão. Elas adentram ao mar vestidas, via de regra de preto, da cabeça aos pés. Ninguém acha estranho. Tudo muito natural. E com todo o respeito dos demais banhistas. No auge do verão, o ministro da Justiça de Israel, o Professor Daniel Fridman, de comum acordo com o Sr. Shlomo Amar, Grã-rabino do Estado de Israel, está formulando uma lei para permitir o casamento civil entre “judeus não-judeus”. Ou seja, judeus que, por não serem filhos de mãe judia, não são reconhecidos como tal pela Lei Rabínica, além de outros que têm impedimentos para se casar no país. O projeto de Lei é visto como uma afronta por uma parte da população, de beneficiados e ao mesmo tempo prejudicados. Não é nada fácil a coexistência da religião com o calor. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Marcos Wasserman é advogado em Tel Aviv, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il |
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