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Foi lançada a campanha pela construção do memorial em homenagem ao eminente brasileiro Oswaldo Aranha. Ficará no Rio Grande do Sul, sua terra natal, com projeto de Oscar Niemayer. No próximo mês de novembro, o mundo relembrará os 60 anos da histórica seção da ONU, presidida por Aranha, em que foi votada a "Partilha da Palestina". Passaram-se quase seis décadas e o sonho de um Estado de Israel coexistindo pacificamente ao lado de um Estado Palestino parece mais sonho do que realidade.
Hoje temos na região referida três entidades com espaços físicos delimitados: Israel, a Faixa de Gaza apelidada de Hamastão e a Cisjordânia batizada pelos analistas do conflito como a Fatalandia. O Estado judeu, declarado independente em 1948, é hoje uma importante nação dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologia, com destaque na agricultura, energia solar, medicina e computação. Por outro lado, o que seria o Estado Palestino foi fracionado pelo antagonismo fratricida entre as facções seguidoras do movimento fundamentalista Hamas e o nacionalista Fatah.
Em junho passado, os adeptos do Hamas tomaram as instalações da ANP-Autoridade Nacional Palestina - situadas em Gaza, e expulsaram violentamente os membros de um governo legalmente eleito e presidido por Mahmoud Abbas. Um clima de insurgência estimulado pelo então primeiro-ministro Ismail Hanyeh precedeu estes acontecimentos. Em represália, Hanyeh foi destituído pelo presidente Abbas, e instaurou-se o caos na região.
Uma recente pesquisa em que foram ouvidos 1200 palestinos em Gaza e na Cisjordânia mostra que 47% preferem o governo liderado pelo Fatah, enquanto 24% preferem o Hamas. Se considerados apenas os entrevistados em Gaza, ainda assim o Fatah lidera as preferências com os mesmos 47% contra 31% do Hamas. Divididos física e filosoficamente, as duas facções recebem o apoio de seus aliados tradicionais. O Hamas é financiado pelo Irã e tem suporte operacional e logístico da Síria e do movimento terrorista Hezbollah, agente do Irã na região.
O Fatah, por sua vez, tem o apoio de Israel, dos países árabes moderados e das potencias ocidentais. Uma guerra de propaganda sem limites éticos ou morais vem sendo alimentada pelos dois lados. Até a memória de Yasser Arafat, o maior líder da historia palestina, foi maculada por sombras de suspeição e boatos. Seu médico particular durante os 18 últimos anos de vida, Dr. Ashraf al-Kurdi, veio a publico denunciar que seu paciente teria morrido por envenenamento, acrescentando que Arafat era portador do vírus HIV da Aids, mas que esta não seria a sua "causa mortis".
Para alimentar as ilusões e tentar controlar o desespero dos sofridos moradores de Gaza, o Sheik Nasrallah, líder do Hezbollah, declarou que numa próxima guerra contra Israel, o seu arsenal teria armas que surpreenderão o mundo. Especula-se que desejava referir-se a ogivas de foguetes que podem carregar produtos químicos ou biológicos. Em apoio a esta declaração, o governo do Irã acenou com a posse de foguetes capazes de atingir qualquer alvo em Israel ou no Golfo Pérsico.
Difícil entender a atitude hipócrita da entidade maior ONU que ao invés de moderar os lados em conflito, acaba de incluir o Irã no seleto grupo de 20 nações que integram o comitê organizador da Conferencia Mundial 2009 da ONU Contra o Racismo. Logo o Irã, cujo presidente tornou-se a vedete maior do revisionismo anti-judaico, referindo-se ao Holocausto como uma farsa sionista.
Os mais recentes relatórios dos serviços secretos em ação no Oriente Médio dão conta de uma inevitável ação militar israelense para conter o lançamento infindável de foguetes Qassam sobre suas cidades limítrofes à Faixa de Gaza. A situação vai tornando-se insustentável com as crianças da cidade de Sderot, a mais atingida pelos foguetes palestinos, tendo que estudar diariamente em abrigos subterrâneos.
Caso Israel volte a promover uma grande operação militar para invadir o reduto do Hamas, situado ao sul do país, visando extirpar em definitivo a fabricação e o lançamento de foguetes, especula-se que, imediatamente, o Hezbollah, estacionado na fronteira norte de Israel, dentro de território libanês, iniciaria uma outra ofensiva contra território israelense, partindo de suas novas bases lançadoras que, segundo declarações da liderança fundamentalista, já são em numero maior do que no conflito anterior. O cenário, a seguir, pode ser extremamente doloroso e sanguinário, com o envolvimento direto de terceiras nações, num indesejável embate generalizado.
O nosso Oswaldo Aranha empenhou-se pela paz ao lutar e aprovar na ONU a "Partilha da Palestina", mas a miopia de muitos só realizou a metade de seu sonho, restando uma Palestina partilhada, após quase 60 anos passados.
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Osias Wurman- é jornalista
E-mail:owurman@globo.com
ARTIGO PUBLICADO EM O GLOBO - 4/09/07 - PÁG.OPINIÃO |