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Aconteceu o inesperado e inexplicável. No dia em que Israel homenageava a memória do Primeiro-ministro Itzchak Rabin, assassinado há 12 anos, o público que lotava o estádio de futebol onde jogava o Beitar de Jerusalém foi solicitado a ficar de pé e fazer um minuto de silencio. Para surpresa de todos, o que acabou virando um escândalo nacional foi a resposta da torcida: uma vaia vergonhosa, com aplausos a Igal Amir, seu assassino!
O jornal Haaretz, em seu artigo de fundo, comenta que 38% do público israelense judeu-religioso considera o assassino como um herói. Não será demais ressaltar, e até conheço pessoalmente gente que continua acreditando que o assassinato não passou de um complô muito bem-estruturado. Acreditam que o pretenso verdadeiro assassino jamais foi descoberto, apesar da confissão do próprio Igal Amir, que se vangloria até hoje de ter, com o assassinato, interrompido o processo de paz, que, pela vontade de Itzchak Rabin, chegaria a uma solução.
Antecedeu o assassinato uma terrível campanha pessoal contra o Primeiro-ministro, que começou com grupos que vinham amaldiçoá-lo frente ao prédio onde residia, no bairro de Ramat Aviv, em Tel Aviv. Paralelamente, seguiu-se uma vasta distribuição de posters, especialmente na cidade de Jerusalém, mostrando Rabin vestido com uniforme nazista.
Cerca de 150 mil pessoas esteve na semana passada, dia 4 de novembro, sábado à noite, na Praça Rabin, a fim de prestar sua homenagem ao falecido Primeiro-ministro. Foi um aviso, um brado à democracia. O público presente sabia que o Tribunal já havia concedido a Igal Amir o direito de participar, no dia seguinte, da cerimônia de Brit Milá (circuncisão) de seu filho. O assassino conseguiu se casar e obteve do Tribunal permissão para ter relações conjugais com a sua esposa, na própria prisão, e ela acabou dando à luz aquela criança, batizada segundo as leis judaicas.
A imprensa comenta com detalhes os direitos do prisioneiro, devidamente regulamentados por lei, e pergunta onde estaria o direito da família do Rabin e o direito do povo, quando já existem vozes que proclamam que mais cedo ou mais tarde o assassino terá que ser solto, pois jamais cumpriria a integralidade de sua condenação, de prisão perpétua. Há também comentários muito humanos, perguntando qual será o futuro dessa criança que nasceu agora, como será ele recebido na escola primária, como filho do assassino? Qual será o seu futuro, ainda que os filhos não sejam responsáveis pelos atos de seus pais? Terá ele que carregar a pecha do crime ou quiçá também venha a ser considerado filho do "herói"?
A campanha contra Rabin não terminou. Ela segue agora contra outros líderes israelenses. Recentemente apareceu em Jerusalém um pôster com a figura do Presidente de Israel, Shimon Peres, transvestido com uma kafia, como se fora ele presidente dos palestinos. O Tribunal da Confederação Esportiva decidiu castigar o time de futebol do Beitar, "face aos berros satânicos do público, que, assim sendo, rompeu todos os limites", condenando aquele time de futebol a dois jogos sem a presença de platéia, pela atitude pouco esportiva de seus simpatizantes.
Houve quem comentasse, com certo cinismo, que foi um erro dos organizadores do jogo de futebol querer obrigar o público, que veio simplesmente assistir ao jogo, a participar do que se passou a chamar um "ato político". Mas marcar o aniversário do assassinato de um primeiro-ministro é mais do que um simples ato de protesto, pois se trata do assassinato da Primeira Figura, a que representa a totalidade dos habitantes do Estado de Israel. Difícil acreditar no que aconteceu. Há algo de podre no Reino da Dinamarca.
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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il |