Outra vez: Israel é a vítima e não a raiz de todos os males... - por Rabino Warren Goldstein

IMPRIMIR | FALE CONOSCO | RECOMENDE ESTE SITE

O Rabino Warren Goldstein é Rabino-Chefe da África do Sul
Publicado no Sunday Times, Johannesburg em 17 de junho de 2007
Fonte: Boletim do Keren Hayesod


Atribuir a culpa pelo conflito no Oriente Médio ao Estado Judeu é um erro que pode arrastar muitas pessoas como cúmplices inconscientes de uma das maiores injustiças da História, escreveu o Rabino-Chefe da África do Sul, Warren Goldstein

Às vezes, cometemos erros muito fundamentais. E, quando um contingente muito grande de pessoas, monumental, mesmo, comete erros, é quase impossível ir contra as opiniões prevalecentes daí decorrentes. Houve uma época em que era líquido e certo que a Terra era achatada. Na Antigüidade, se alguém ousasse alegar que a Terra era redonda, esse alguém teria sido banido por viver fora da realidade. Quando, no século 16, Nicolau Copérnico ousou sugerir que o sol era o centro do sistema solar – e não a Terra, como se julgava – foi tratado como herege.

No mundo de hoje, qualquer tentativa de explicação do conflito israelo-árabe em outros termos que não o da “ocupação ilegal de Israel da terra palestina” e a “negação das aspirações nacionalistas palestinas” é geralmente interpretada como uma declaração de que a Terra é achatada e o centro do universo. Mas, e se essa opinião estiver errada? E se em termos da compreensão do conflito israelo-árabe, estivermos de fato vivendo em época pré-Copérnico? E se o Estado Judeu, considerado a raiz de todos os males do Oriente Médio, for de fato a vítima, bem ao contrário do que se diz?

E se a apartheid do Oriente Médio for realmente direcionada contra os judeus? E se Israel for o CNA (Congresso Nacional Africano) do Oriente Médio?

Na África do Sul, o conflito foi causado por um regime racista branco de apartheid. O CNA sempre esteve disposto a discutir a paz, mas o regime se recusava a isso, terminantemente, e, portanto, o conflito não podia ser resolvido. Isto forçou o CNA à luta armada. Como o CNA, o governo israelense sempre esteve pronto para negociar a paz, mas tem sido forçado, desde o nascimento do Estado Judeu, a uma luta armada defensiva, uma vez que o mundo árabe anti-semita não foi preparado para tratar da paz.

Durante muitos anos o CNA teve que viver armado para a luta, até que os brancos sul-africanos estivessem prontos para as tratativas e, de forma relativamente rápida, o prolongado conflito foi resolvido. Diferentemente do CNA, Israel não se deparou ainda com parceiros genuinamente dispostos a negociar; por isso a luta continua e a paz continua sendo aquele sonho distante.

E se o sionismo não for colonialismo, mas sim uma arraigada conexão de um povo ancestral à sua terra nativa, histórica e pactuada? E se o verdadeiro colonialismo for o expansionismo árabe, que contesta a existência de um Estado Judeu ainda que seja em 1/ 520 avo do território de todas as terras árabes? Há cerca de 4.000 anos, os patriarcas do Povo Judeu, Abrahão, Isaac e Jacob, viviam na Terra de Israel, que D’us lhes prometera e a seus descendentes, para todo o sempre. Tal promessa foi confirmada no Monte Sinai, sendo reiterada por D’us por intermédio de Josué, após a morte de Moisés, há mais de 3.300 anos, quando o Povo Judeu pisou na Terra após ser libertado da escravidão e opressão egípcias.

Há cerca de 3.000 anos, o Rei David fez de Jerusalém a Capital da Terra Prometida. O povo judeu viveu na Terra de Israel durante 850 anos, até sua expulsão pelos babilônios, invasores. Mas voltaram, em grandes multidões, 70 anos mais tarde, lá permanecendo durante séculos, até sua expulsão pelo Império Romano. Apesar do incessante anti-semitismo e da interminável perseguição, algumas comunidades judaicas conseguiram permanecer em Israel durante o longo intervalo entre a dispersão romana e o re-estabelecimento do Estado Judeu, em 1948.

E se o conflito nunca tivesse girado em torno da soberania estatal palestina, mas, de fato, em torno da destruição dos judeus e do único Estado Judeu na face da Terra? Em 1917, a Declaração Balfour, posteriormente confirmada pela Lei Internacional através da Liga das Nações, declarou o Mandato Britânico na Palestina como a Pátria Nacional do povo judeu, reconhecendo os 4.000 anos de conexão judaica à Terra, bem como a injustiça da destruição do Antigo Israel pelo romanos e a remoção forçada do povo judeu daquele território.

Em 1922, os ingleses tomaram 76% do território designado para ser um Estado Judeu, destinando-o, ao invés, aos árabes, criando um novo país chamado Transjordânia, a leste do Rio Jordão, que mais tarde seria conhecido como Jordânia, país que até hoje conta com maioria palestina.

Em 1947, as Nações Unidas votaram a criação de dois estados – um árabe e um judeu – a oeste do Rio Jordão, nos 24% remanescentes da porção original de território atribuído a um Estado Judeu pela comunidade internacional. A despeito desta redução em sua porção original, os judeus aceitaram a oferta, logo a seguir rejeitada pelos árabes. Era o início de uma longa história de rejeição árabe.

E assim, em 1948, o recém-nascido Estado de Israel foi invadido pelos exércitos árabes do Egito, Líbano, Iraque, Síria e da Legião Árabe, deixando bem claro que pretendiam destruir o minúsculo Estado Judeu e seu renascimento, e massacrar seus cidadãos, muitos dos quais, sobreviventes do Holocausto.

Israel sobreviveu a Guerra e, de1948 a 1967, a Margem Ocidental (Cisjordânia) e a Faixa de Gaza ficaram em mãos árabes e não houve “ocupação” desses territórios. Se a causa do conflito israelo-árabe é a “ocupação” da Margem Ocidental e de Gaza, por que motivo o conflito continua em sua fúria incontida, ao longo de todos estes anos, com a recusa continuada dos árabes de reconhecer Israel e de fazer a paz com seus vizinhos judeus?

Por que, em meados de 1967, pouco antes da Guerra dos Seis Dias, e antes que a Margem Ocidental e Gaza caíssem em mãos judaicas, os árabes líderes conclamaram à destruição de Israel? “Que “ocupação” estava em jogo? Por que o Presidente sírio, Hafez al-Assad, ordenou a seus soldados que atacassem alvos israelenses civis, para “pavimentar as estradas com crânios judeus”?

Durante os 19 anos em que a Jordânia deteve o controle sobre a Margem Ocidental, e o Egito sobre a Faixa de Gaza, o mundo árabe teve a oportunidade de fundar outro estado palestino naqueles territórios – mas optou por não o fazer. Por que não??? Se o conflito se deve à soberania estatal palestina, então por que não houve qualquer menção a um estado palestino durante todos aqueles 19 anos??? Após a Guerra de Seis Dias, Israel imediatamente tentou entabular negociações com o mundo árabe acerca do futuro político da Margem Ocidental e da Faixa de Gaza.

A resposta veio da Conferência de Cartum de todos os países árabes, em 1º de setembro de 1967, sob a forma dos infames “três nãos”: não à paz, não às negociações, não ao reconhecimento”. E então, quando em 2000, em Camp David, Yassar Arafat rejeitou – sem sequer fazer uma contraproposta – a proposição de Israel de 95% do território da Margem Ocidental e de Gaza, bem como compensações de território para os 5% remanescentes, sua rejeição foi plenamente consistente com o rejeicionismo árabe sobre qualquer presença judia que fosse.

Se o conflito israelo-árabe trata de um estado palestino, então sempre houve a solução óbvia de haver dois estados vivendo em paz, lado a lado. O conflito é mais fundamental, e, portanto, completamente mais intratável, e se trata, de fato, da rejeição árabe à simples presença e existência de um Estado Judeu – e provavelmente de judeu algum – no coração do Oriente Médio.

E, assim sendo, a Carta Magna do Hamás conclama à morte de todos os judeus, no mundo todo. E os mísseis de Gaza continuam a mirar os civis israelenses mesmo depois da evacuação por parte de Israel. E as ameaças de genocídio e de um Segundo Holocausto, juntamente com a negação do primeiro, emanam sonoras do Irã. E o mundo árabe está encharcado no mais fanático e pernicioso anti-semitismo.

E se a guerra direcionada contra Israel realmente for uma guerra global da tirania fundamentalista contra a liberdade e a democracia? Nesse caso, então, de fato todos os que crêem, com a melhor das intenções, estar defendendo uma vítima vulnerável, estão, de fato, sendo cúmplices de uma das maiores injustiças na história da civilização humana.

Eles se terão colocado ao lado das forças da morte e da destruição, do medo e do preconceito. E se o mundo estiver do lado contrário do único farol de liberdade e democracia no Oriente Médio, e dessa forma colocando a todos nós, em perigo, pelo fato de a sorte dos judeus sempre ter sido um sinal, um presságio a anunciar o futuro? Hitler veio primeiro atrás dos judeus, para depois atacar o mundo. As bombas suicidas começaram em Jerusalém para depois migrar para Nova York, Bali, Madri, Londres e Nairobi.

Precisamos de clareza para entender estes tempos tumultuados. Precisamos também de uma visão definitiva de paz e reconciliação entre árabes e judeus. O conflito no Oriente Médio é um conflito entre irmãos – e esta é a verdadeira tragédia. Somos todos filhos de Abrahão; os judeus são filhos de seu filho Isaac, e os árabes são filhos de seu filho Ishmael. O Talmud nos conta que, apesar de terem os filhos de Abrahão brigado durante muitos anos, quando Abrahão foi enterrado, em Hebron, Isaac e Ishmael se reconciliaram ao pé de seu túmulo. Oremos a D’us para merecermos ver o dia em que irmão se reconciliará com irmão, no Oriente Médio.


PLETZ.com - informando desde 1998