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Quando o exército de Israel consegue finalmente despachar para o Além um dos piores matadores palestinos, sabe o que a Agência EFE divulga? Que o militante foi vítima de um assassinato seletivo.
Mubarak el-Hassanat, "a vítima", era uma das mais ativas lideranças dos Comitês Populares da Resistência, um dos grupos que se digladiam pelo poder, em Gaza. A "militância" dessas quadrilhas, quando não empenhadas em chacinas recíprocas, consiste em atirar contra casas, escolas e hospitais israelenses, a partir de Gaza, centenas de milhares de foguetes que a mídia chama de "artesanais". Esses artesãos da morte desenvolvem também um belo trabalho educacional, ensinando as crianças palestinas a se explodirem, estraçalhando o maior número possível de adultos e crianças "inimigas", isto é, israelenses.
O exército israelense, que não segue os sadios princípios educacionais do Mubarak, gasta um dinheirão para acertá-lo, a ele, somente, numa operação que envolve uma aeronave de caça, um míssil de precisão e a paciente espera até que o pobre "militante" da arte de matar se ache longe de seus escudos humanos, sozinho no carro. Mubarak el-Hassanat viveu como um assassino e como um assassino foi morto. Ei-lo, contudo, transformado em vítima pela nobre arte de mentir manejando meias verdades. Nisto também consiste o mau jornalismo: em mentir sem mentir, jogando-se com a semântica, com a ética e com a decência.
No bendito momento da sua violenta desencarnação, Mubarak poderia ser tecnicamente nomeado "vítima". Mas é imoral qualificá-lo assim, já que, para o senso comum — o único aceitável, jornalisticamente —, o termo vítima comporta significados dificilmente atribuíveis ao que Mubarak sempre foi: um assassino orgulhoso da sua profissão. Igualmente, apenas com uma boa dose de cinismo e condescendência, a atividade profissional de Mubarak, — planejamento e execução do homicídio deliberado de civis inocentes —, pode ser qualificada como militância.
Quando um militante do extermínio merece o qualificativo de vítima, a memória das incontáveis vítimas dessa "militância" é reduzida a lixo, a nada, a uma irrelevância que possa ser cinicamente igualada à condição desse homicida no instante de receber o único castigo praticável, diante da virtual impossibilidade de detê-lo e julgá-lo. Deter e julgar Mubarak el-Hassanat seria possível, sim, mas somente ao altíssimo custo de vidas palestinas e israelenses; Israel teria de enviar a Gaza homens armados, com os inevitáveis tiroteios e mortes. Igualmente inaceitável deixá-lo prosseguir na militância. Que resta ao exército israelense senão alvejá-lo? Foi o que se fez, com o cuidado civilizado de poupar os palestinos inocentes, ainda que a espera pelo momento propício tenha significado expor por mais tempo os israelenses inocentes à militância homicida de Mubarak.
O que fez o exército israelense foi o que deixou de fazer o povo palestino: deter os seus assassinos. Israel é um pequenino país onde o povo está habituado a viver na iminência da destruição causada pelos grandes e pequenos Mubaraks árabes, palestinos ou não; há sirenes e abrigos subterrâneos espalhados por toda parte e cada israelense sabe que um mísero segundo pode significar a diferença entre um dia normal e a morte. Mas quando alguém resolve dar uma de Mubarak e sair militando, digo, matando mulheres e crianças palestinas, o maníaco é preso, julgado, encarcerado. Se possível. Se não, é abatido a bala.
Quando os palestinos se cansarem das retóricas das EFEs, que lhes glorificam os maníacos, e resolverem levar a sério o dicionário que os israelenses aprenderam a respeitar, o dicionário onde vida humana, militância, homicídio e vítima não são brinquedos retóricos para desculpar os tortos, mas responsabilidades diante da existência, talvez a paz se mostre menos impossível. A Agência EFE, contudo, resume todo esse drama histórico a duas palavrinhas calhordas: assassinato seletivo. E contempla o assassino com a aura da vítima, fazendo dele o mártir que sempre sonhou ser. Parabéns à Agência EFE, por abandonar o jornalismo e cair na militância retórica do crime. Ainda que os leitores do Rio de Janeiro, São Paulo e capitais brasileiras assoladas pela militância do narcoterror conheçam de sobra a artimanha.
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Miguel Fernandes é militante velho do jornalismo e também da luta contra o anti-semitismo e o racismo, do tempo em que militância significava basicamente o devotamento ativo a uma causa, salvo a do extermínio, que recebia o correto substantivo crime.
fonte: De Olho na Mídia |