Dona Zina e o Rebe - por David Milstein
IMPRIMIR | FALE CONOSCO | | RECOMENDE ESTE SITE



Minha falecida mãe “Z.L.” sempre falou com D’us. Pra mim, ainda menino, pairava a imagem do Todo Poderoso, Senhor dos Exércitos, Todo Misericordioso. A figura poderosa que tudo podia e que manipulava os destinos de toda a Sua criação. Inacreditável, que da velha Barra Funda, minha mãe, do alto de seu metro e meio – e da inabalável cultura do shtetl na Bessarabia – pudesse tratar o Altíssimo daquela forma. Sim, Dona Zina, minha mãe, falava com D’us no diminutivo. Diminutivo de carinho, é óbvio.

Gotinhu... assim começavam seus apelos. Para que fôssemos bem na escola. Para que nossa febre cedesse. Para que o orçamento cobrisse do aluguel aos varenikes dos longos almoços de domingo. E Gotinhu sempre atendeu à minha velha mãe. Hoje, de olho cravado no retrovisor de minha história percebo que o Criador tratou minha mãe com o mesmo carinho. Zelou por nossa família, nos permitiu estudar, deu a ela e a meu pai uma velhice digna e um túmulo perto da diretoria: eles repousam num campo santo em Kiriat Bialik, Israel. Hoje, depois de mais de sessenta anos de estrada, tento entender porque ela batia tanto na tecla da “idishe neshumale”.

Eu fazia um esforço descomunal (e criança não é um bicho muito piedoso) para ser igual aos Chicos, Manés e Tiões do bairro. Vai explicar pra galera porque fui dispensado da aula de catecismo. Ir ao Grupo Escolar em Pessach, Kipur??? Nem pensar. Para os poucos judeus que eu conhecia, era um charme ser o Davizinho da Barra Funda. Eu “aparecia” exatamente porque fazia samba, jogava futebol, descia de bonde andando e aos 14 anos já desfilava faceiro com alguma moreninha do bairro.

Hoje eu percebo as intenções da velha. O que ela queria exatamente era que eu fosse feliz, jogasse bola, fizesse meu pagode, jogasse minha sinuca, mas tudo, e sempre: “mit a idishe neshumale”. Minha velha mãe nunca soube da existência do Rebe, da força do movimento Chabad ou de que havia um universo maior entre Yedenitz na Bessarabia e a Rua Barra Funda. Ela havia trazido de sua humilde casa no Shtetl o conceito da “alma judaica” que carregamos desde a nossa concepção.

Um dos pilares do trabalho do Rebe foi exatamente ordenar a seus schlichim que procurassem em cada canto deste tresloucado mundo O Judeu, seja ele homem, mulher, velho ou criança, e que trouxesse e resgatasse esta alma de volta para o seio de seu povo, não importando o grau de religiosidade, nível social ou fortuna. Essa forma inusitada instituida pelo Rebe, de trazer o judeu de volta à suas origens atraves do cumprimento das mitzvot, da colocação de tefilin ou do acender das velas de Shabat, e criando centros de apoio onde houvesse uma comunidade, foi única em seu tempo.

Pouco importava se a referencia era um judeu motorneiro de bonde na Lituânia, ou um famoso PhD em Harvard. O trabalho quase visionário do Rebe tinha tudo a ver com a necessidade quase genética de minha mãe empurrando goela abaixo todas as manhãs, alem da intragável gema de ovo, a minha herança judaica. A Dona Zina na Barra Funda e o Rebe em Crown Heights devem ter recebido o mesmo manual de instruções. Desceram a este mundo com o mesmo propósito, e hoje estão ao lado do Criador com o largo sorriso e a satisfação da missão cumprida. O Davizinho, aquele do estribo do bonde 13 – Praça do Correio/B.Funda, hoje engrossa o coral dos chassidim do Rabino Yossi. O mundo, sim, aquele universo assumido em 1951 com a assimilação judaica a pleno vapor, cortinas de ferro, guerra fria e com Eretz Israel recém-estabelecida, hoje se curva à visão política e ao trabalho conduzido pelo Rebe.

Gotinhu foi generoso com minha mãe. Hashem foi exigente, justo e piedoso com o Rabi Menachem Mendel Schneerson. Descansem em paz. Com toda a falta que vocês fazem, tentamos seguir aqui embaixo com o que foi o seu propósito maior em vida.

“Am Israel Chai, mit a yidishe neshumale”.


PLETZ.com - informando desde 1998