Newton em Jerusalém - por William Kolbrener
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Ladeando as apresentações de Os Segredos de Newton, exposição da Biblioteca Nacional Judaica e Universitária, em Jerusalém, estão pendurados dois grandes pôsteres: um é o retrato, uma aquarela de William Blake, de Sir Isaac Newton, e a outra a imagem do pensador medieval judeu, Maimônides. As imagens representam uma parataxe senão um paradoxo. Blake chamava Newton de um dos “três professores satânicos”. Juntamente com Francis Bacon e John Locke, o Newton de Blake desprovia o mundo de vitalidade e mistério, reduzindo a natureza a frios cálculos de equações matemáticas. De acordo com um dos seus biógrafos, Gale E. Cristianson, Newton nos legou um mundo de “corpos materiais se movendo livremente pelo abismo sem fundo e sem limites, uma máquina colossal feita de componentes cujos únicos atributos são a posição, comprimento e massa”. Newton, assim, conseguiu racionalizar um universo totalmente material.

Todavia, a imagem de Maimônides e a fotocópia do manuscrito de Newton Notas sobre o Templo Judaico, revelam outra estória. Deve ser dito que Newton não mostrou, contudo, nenhum interesse no racionalismo filosófico de Maimônides. Ele não tinha o Guia dos Perplexos (obra de Maimônides). Entretanto, Newton possuía uma tradução latina de várias seções da compilação de Maimônides da lei judaica (a Bíblia – Velho Testamento, em hebraico Torá – Lei N.T.), intitulada Mishneh Torá – incluindo os textos sobre idolatria, sacrifícios e serviços no Templo de Jerusalém. Em suas notas sobre este último, Newton sublinhou um texto hebraico “Baruch Shem Kavod Malchuto Leolam Vaed” (Abençoado é o nome de Seu glorioso reino, para todo o sempre”). Para Newton, o glorioso reino de Deus foi o universo criado e tudo que se encontra dentro dele, e Newton se empenhava, como seus questionamentos em Maimônides indicam, em encontrar ressonância do nome divino.

Ainda é o Newton, autor dos Principia (1687) e Opticks (1704), ambos associados com a objetividade de Blake, que desperta a imaginação contemporânea. A exposição Os Segredos de Newton, contudo, revelam uma outra figura: um Newton fascinado pela alquimia, profecia e os serviços no Templo em Jerusalém. Como Os Segredos de Newton revelam, o interesse de Newton pela teologia, por toda a sua vida, e quatro décadas de preocupação com a alquimia (escreveu cerca de um milhão de palavras sobre o assunto) não constituíam uma aberração para o Newton racionalista conhecido publicamente. Pelo contrário, nos oferecem um lampejo no seu complicado pensamento, de legado ainda não unificado, que se situa no início da modernidade, mas se nutre dos antigos e de Jerusalém.

O legado dos arquivos de Newton reflete isso sobre sua reputação. Enquanto dos Opticks e dos Principia eram feitas novas publicações da primeira edição, os trabalhos não-científicos de Newton permaneceram na obscuridade – primeiro sob a custódia de seu assistente no Royal Mint, John Conduitt (marido de sua sobrinha), e depois sob a custódia da família em Portsmouth. Os Papéis de Portsmouth foram doados à Universidade de Cambridge, em 1872 e, em 1888, foram classificados por quatro professores – um físico, um químico, um medievalista e um astrônomo, sob vários títulos. Os papéis sob os títulos, por exemplo, de “química”, “história” e “miscelânea” ficaram para a biblioteca; mas cinco partes, contudo, foram devolvidos à representação da família de Portsmouth, Hurstbourne, como de “pouco interesse”. Mas, sob uma oferta da casa de leilões Sotheby’s, o conteúdo dessa coleção, juntamente com obras de arte impressionista, foram levados a leilão em 1936, e vendidos por nove mil libras. John Maynard Keynes ficou com a maioria dos manuscritos referentes à alquimia (doando-os à Universidade de Cambridge); Abraham Yahuda comprou todo o volume de escritos teológicos, doando-os ao Estado de Israel, em 1961. A coleção, depois de uma seqüência de disputas, finalmente chegou à Biblioteca Nacional Judaica e Universitária de Jerusalém, em 1969. A exposição Os Segredos de Newton apresenta essa coleção pela primeira vez.

Ao triunvirato de Iluministas vilãos de Blake, pode ser acrescentado, com facilidade, o nome de Descartes. Pois foi o dualismo de Descartes, rompendo os laços da ligação do espírito e da matéria, que criou o grande obstáculo aos primeiros pensadores do início da era moderna na busca pela presença divina. O contemporâneo de Newton, o platonista Henry More, de Cambridge, primeiro saudou a filosofia cartesiana com entusiasmo, mas logo depois entendeu que ela introduzia uma concepção do mundo desprovida de espírito, e por isso constituía uma ameaça materialista contrária à própria visão cristã do mundo de More. No pensamento de Descartes, como um contemporâneo seu descreveu como a “conjunção do corpo e alma” se situava na glândula pineal ou epífise do cérebro. Se o cartesiano “refinado sopro corpóreo” se situava na epífise, como uma concessão (ou uma piada), indica, no entanto, de que maneira a filosofia cartesiana esvaziou o mundo físico de qualquer resíduo de espírito.

Descartes, contudo, não pode ser ignorado. Newton aceitou as categorias cartesianas, e nos primeiros manuscritos de Sobre as Leis Naturais, cria uma “química vulgar”, compreendendo somente movimento de matéria inativa. Essa noção – os corpos se movem somente quando se atua sobre eles – é repetida no General Scholium dos Principia “os corpos se mantêm em repouso até serem movidos, ou mantêm seu movimento dependendo da grandeza da força inicialmente aplicada.” Esse foi o Newton que viria a ser canonizado. O Newton do mecanismo harmônico, solenemente reverenciado por Richard Bentley e depois por Samuel Clarke (numa cadeira em nome do fundador da Royal Society, Robert Boyle), por desenvolver uma cosmologia que servia aos interesses da emergente política liberal. Republicanos como John Toland (que, publicamente, atacou a cosmologia dos Principia) elaborou uma concepção animada da matéria para justificar seus ideais políticos radicais. As ricas oligarquias, no entanto, das quais Bentley e Clarke eram porta-vozes, tornou possível, por meio de um universo ordenado, racional e inerte, o que Margaret Jacob chamou, “o Deus de Newton confortavelmente sob controle”.

Eis que, em Sobre as Leis Naturais, com todas as ressonâncias cartesianas, Newton descreve um tipo diferente de química, qualificando de vulgar a do tipo “mecânico” – era uma química vegetável “mais adequada” e “secreta”. O mecanismo cartesiano pode ser o ponto de partida, mas o “espírito vegetável” desses primeiros trabalhos transforma essa química em éteres variados, espíritos, sopros e eflúvios que ficam sendo como partes dos escritos científicos de Newton de acordo com os alquimistas. Essas forças vitais são, para Newton, os meios divinos de animação dos materiais passivos do universo. Os alquimistas destilaram a essência espiritual, o “espírito vivo universal inato” com formas materiais. A exposição Os Segredos de Newton mostra a arte alquimista de Newton, destilando a quintessência espiritual dos materiais à sua disposição – não somente a matéria em si, mas história e trabalhos dos antigos e do Templo de Jerusalém.

Newton não via com bons olhos seus contemporâneos que acreditavam poder prever o futuro – estabelecendo o tempo da vinda do apocalipse, descrito no livro das Revelações dos séculos dezessete e dezoito. Nas especulações de Newton, baseadas nas leituras das Revelações e no Livro de Daniel (com pequenas anotações em letra miúda), Newton chegou ao cálculo do ano 2060 e criticou a “enxurrada de profecias de pessoas imaginativas” que conduzem “as profecias sagradas ao descrédito”. Para Newton, as profecias foram apresentadas não para satisfazer a curiosidade dos homens, mas, pelo contrário, uma vez tendo ocorrido, oferecerem “um argumento convincente de que o mundo é governado pela providência” – para ilustrar a presença divina na história. Assim como a história era vista como o lugar da atividade divina, assim Newton se voltou para a sabedoria dos antigos, os priscia sapiens, demonstrando como aquelas filosofias estavam impregnadas de noções do divino. Num dos seus cadernos de notas, Newton escreveu a seguinte frase: “O primeiro inventor da filosofia atômica foi Moschus (Moisés).” Para Newton, Moisés foi um legislador conhecedor não somente de teologia mas também das leis científicas. Apesar de algumas vezes deturpadas pelas crenças pagãs, a sabedoria dos antigos que compartilhavam da herança mosaica (quando adequadamente decifrada) continham tanto da doutrina da criação ex nihilo como do conhecimento do universo heliocêntrico de Copérnico. A “teologia” dos antigos era “filosófica”; seus conhecimentos da “astronomia e física” conduziram à concepção de uma adoração que antecipou o cristianismo.

Os antigos desenvolveram um tipo de adoração nos seus pyrataneum – ou altares do fogo – estruturados para “representar todo o sistema dos céus.” Tais altares não somente representavam a imagem do cosmos heliocêntrico, mas anteciparam a forma perfeita do Templo de Jerusalém. As duas folhas de ilustrações do Templo, feitas por Newton, postumamente publicadas na A Cronologia dos Antigos Reinos, é apresentada no centro da exposição Os Segredos de Newton, e também no centro da concepção de seu pensamento. Newton escreveu um tratado dobre “o comprimento do cúbito sagrado dos judeus”, porque essa medida foi de crucial importância para determinar as precisas medidas do Templo, que por si revelavam a hierarquia e harmonia do universo. O fogo que assando as oferendas no altar do Templo, era uma representação não só do sol de Copérnico mas também do Filho do Homem. De acordo com a interpretação idiossincrática de Newton, as profecias apocalípticas de João sobre o Filho foram todas apresentadas nas vizinhanças do Templo. Para Newton, num fraseado que parece mais poético do que um temperamento científico (certamente mais como John Donne do que qualquer outro físico seu contemporâneo), a chama eterna do Templo representa o “legítimo filho do sol e o verdadeiro filho da natureza” – o princípio vital e iluminante infundindo toda a matéria. Todo o espaço e tempo convergem no Templo. O passado dos antigos e o futuro apocalipse se acham presentes na arquitetura do Templo, a quintessência da alquimia presente no fogo do altar representa o que viria a se tornar, nos Opticks, um princípio universal, e o “éter cósmico”, a causa da gravidade.

Na exposição Os Segredos de Newton, o Templo de Deus é o lugar onde a teologia e a ciência se reúnem, onde o físico ressoa com o espiritual – afirmando que os segredos do grande matemático e físico, tal como os segredos que lançaram a modernidade pela qual freqüentemente foi responsabilizado ou criticado, tem suas origens em Jerusalém.

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William Kolbrener é professor de inglês na Universidade Bar-Ilan
Publicado na revista AZURE nº 30 de 2007.
Traduzido por Herman Glanz


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