|
No tempo dos bondes, tantos dos nossos viviam ali em volta, autentico shtetl. Próximo ao este Palácio onde se tramaram circulares secretas, tentando lançar nas trevas esta terra generosa banhada pelo sol tropical, pulsou bem forte o coração judaico de pujante comunidade. Agora, um Presidente da República de origens humildes como as nossas visita a exposição HOLOCAUSTO NUNCA MAIS, emocionando filhos e netos daqueles imigrantes e refugiados. Ouvindo Lula e o Brigadeiro Moreira Lima, nosso pensamento se volta para Souza Dantas, Aracy e João Guimarães Rosa, Oswaldo Aranha, Cel Aristarcho Pessoa, o bombeiro brasileiro que salvou vidas na Europa em chamas, e tantos outros que tendo sido Justos, hoje habitam os Jardins do Éden.
A pobreza era grande entre os judeus na Praça XI, o Estado Novo restringindo a imigração de judeus. Vistos recusados, trágicas negativas de salvação de refugiados. Moravam em casas de vila, cortiços, em meio ao calor, precariedade. Quase nada, muito pouco restou de tijolos e cimento da Praça XI judaica, mas dali saiu uma valiosa contribuição daquele punhado de imigrantes para o desenvolvimento do Brasil. A movimentação incomum açula os fantasmas do Itamaraty ... incrédulos, eles emergem das profundezas dos arquivos, descolando-se dos quadros e pinturas, páginas amarelecidas pelo tempo exalando miasmas dos que negavam vistos de salvação ... como é possível ??? tantos judeus .... logo aqui ??? guardiães dos inconfessáveis despachos secretos encerrados no Arquivo Histórico, as almas penadas se desesperam ...
No discreto palácio de estilo neoclássico, elegantes alas de palmeiras imperiais emolduram o jardim interno do lago dos cisnes e vitórias régias, evocando glórias do passado na época da Capital, sede da Chancelaria, esplendor de antigas recepções do Presidente da República ao Corpo Diplomático. Percorrendo o vetusto corredor de acesso com o Barão do Rio Branco ao fundo, recuamos ao passado distante e penoso, como se fossemos deparar a qualquer momento com o digno Embaixador Souza Dantas, saindo apressado do Gabinete do Ministro. Acabara de receber a censura pelo descumprimento das ordens secretas. Que lhe importa? Valiam mais as suas convicções, tardiamente reconhecidas graças a jovem e brilhante historiador, descerrando o véu do tempo e o eternizando no Jardim dos Justos entre as Nações, no Yad Vashem de Jerusalém, junto com Aracy Rosa.
Paredes mudas que viram passar tantos Presidentes, Ministros. Quantos passos se perderam naqueles corredores, quantas filhos, quantas mães, quantos, levando nas mãos nervosas e suadas a carta de chamada toda amarrotada de múltiplas idas e vindas, o fiapo de esperança que poderia significar o visto salvador, arrrancando do inferno europeu um ente querido colhido na diabólica armadilha nazista... Quantas negativas, trazidas por servidores em alvos uniformes brancos, boné, botões dourados. APATRIDAS ! SEMITAS ! INDESEJÁVEIS ! Palavras torpes gravadas ao fogo dos infernos nas circulares secretas, ressoando pelos corredores no triste retorno para o lar ali pertinho... quantas lágrimas vertidas ... quantas famílias separadas ... Mas o sofrimento teria fim ... o ovo da serpente não resistiu ao poder de ardentes orações, promessas feitas diante do Aron haKodesh cercado de belas pinturas ainda refulgindo de novas no Grande Templo da Tenente Possolo, tão próximo do Palácio, quem sabe ?? mudaram o curso da história.
Enviando submarinos para torpedear nossos navios mercantes, Hitler cavou mais um pouco a sua própria sepultura, para onde arrastou o Reich maldito pretensamente milenar engendrado pela sua mente doentia, apodrecendo a Alemanha por 13 terríveis anos até desintegrar-se em escombros e pó. O grito de revolta do milhar de preciosas vidas brasileiras inocentes cujo túmulo foi o mar empurrou o Brasil para alinhar-se com as democracias. Diante da platéia atenta, as palavras do Brigadeiro Moreira Lima recordam o heroísmo do Senta a Pua, FEB, Marinhas Mercante e de Guerra. Era um país pacífico e ainda rural que se levantava para defender os ideais de liberdade, muitos dos nossos se alistando naquelas fileiras, em Tiros de Guerra, no CPOR, na Escola Militar, voltando cobertos de glórias com seus irmãos de armas.
A cerimônia vai terminando sob forte emoção. O canto dos cisnes inquietos testemunha que há mais alguém por ali. Os fantasmas do Itamaraty flutuam de volta aos desvãos do Museu Diplomático, de onde só sairão nas noites sem luar, assustando bichos e vigilantes. Jamais encontrarão descanso na Eternidade, condenados a pairar sobre as fugazes circulares secretas reduzidas a pó. Retornamos a rua pelos mesmos corredores do palácio. Já não há mais bondes, nem fileiras de antigos sobrados, em meio a prédios daquela época - Light, Ministério da Guerra, Central do Brasil, Bombeiros. Testemunhas do passado em que alegrias e tristezas se misturaram, quando nossos irmãos palmilharam aquelas mesmas ruas, apesar de tudo respirando a liberdade.
Lembrança de tempos duros, quando enfrentaram a face horrenda do anti-semitismo. Derrotar as mentes deformadas significou para o Brasil uma sociedade melhor, democrática e pluralista. A fraternidade entre as religiões, a tolerância que nossos pais e avós aqui encontraram continua a pavimentar o caminho da Pátria para o futuro. Em nossas sinagogas, oramos para que não tarde o dia em que desapareçam as desigualdades, com oportunidades para todos. Mas urge permanecer alerta. Terrorismo e totalitarismo avançam novamente sem contestação, como aconteceu com o nazismo diante da apatia mundial. Se as nações que prezam a liberdade, igualdade, democracia não se unirem contra as novas ameaças, tudo pode acontecer outra vez.
Entretanto, confiamos na profecia que está na nossa Bíblia, sagrada para todos: Em cada geração um inimigo se levantará... mas EU sempre os salvarei... |