Futebol e Bebedeira - por Marcos Wasserman

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O time de futebol do Hapoel Tel Aviv foi jogar na Bósnia. Ao ser marcado o primeiro gol, alguns aficionados israelenses teriam lançado granadas de fumaça, cadeiras de plásticos foram queimadas, e a polícia local teve que intervir, expulsando os torcedores israelenses que, segundo os jornais, estavam totalmente embriagados. Em Israel não faltam torcedores fanáticos, que viajam às centenas, com os seus times, para os quatro cantos do mundo. Eles não são diferentes de outros torcedores de outros países no seu entusiasmo, na sua bebedeira e, às vezes, até na sua violência.

O nome Hapoel fez-me evocar certos pensamentos. A palavra em hebraico significa “o trabalhador”. Qual é a origem do nome? É que em Israel, em seus primórdios, tudo era política. O Hapoel era o time de futebol dos trabalhadores, que, por sua vez, se identificava com a Histradut, que é a federação dos trabalhadores, e com o velho partido Mapai, claro, também dos trabalhadores.

Naquele contexto, como não poderia deixar de ser, havia um Banco dos Trabalhadores e também foi criado o Kupat Holim, uma organização que proporciona serviços de saúde, de inicio, para exclusivo atendimento a essa classe. Claro, também surgiu o time de futebol - o Beitar -, cujo nome indicava então uma identidade com a burguesia da direita, que, por sua vez, também acabaram criando seu próprio Kupat Holim e, assim, sucessivamente. Para não falar do time de futebol do Macabi, que já é outra história.

Várias instituições bancárias tinham naquela época algum tipo de identidade partidária, e também foi criado um banco, por assim dizer, de tendência religiosa. Evidentemente, não darei os nomes aos bois, pois não estou para fazer propaganda de ninguém!

Hoje em dia, tudo mudou. Em Israel, os bancos são instituições financeiras, quase todos privados, e nenhum deles tem qualquer função social, a não ser aumentar seus lucros, que é a meta bancária universal. Os times de futebol não têm mais nada a ver com os partidos políticos, a não ser nas cores de suas camisas. A Histadrut deixou de ser a potência econômica dos trabalhadores, e até os kibutzim em Israel se privatizaram.

E os partidos políticos em nada se parecem com os que existiam ao tempo da Proclamação do Estado de Israel. Na esquerda, cantar a Internacional será hoje patético e anacrônico. A velha ala ideológica de direita sumiu e é até difícil distinguir as diferenças entre os principais blocos políticos. Só os partidos religiosos é que não perderam a sua ideologia. Ao contrário, tornaram-se mais ativistas e combativos. Embora sendo minoria, são uma grande força política. Querem um exemplo?

Segundo a Bíblia, a terra deve descansar um ano depois de seis anos, sendo proibido plantar ou colher produtos agrícolas. Nos primórdios do Estado, o problema se resolvia por meio de uma ficção, que era a venda das terras de Israel a um gentio, depois recompradas. Agora, certos rabinos pressionam, não querem mais saber de brincadeira, e movem uma campanha para impor um ano sabático às terras e propõem importar frutas e verduras, o que seria um desastre para a agricultura local, sem falar dos enormes prejuízos financeiros.

Este é um simples exemplo, entre muitos outros, do conflito existente na Israel moderna e laica com os que pretendem dar ao país um cunho cada vez mais religioso, contra a vontade da maioria da população. Para os religiosos, o sábado é um dia de descanso, de preces e de introspecção. Para a população laica, especialmente no verão, é dia de praia e de futebol, sem bebedeira. Enquanto uns não quiserem impor seu modus vivendi a outros, Israel seguirá sendo sempre uma bela democracia.

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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il


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