O desafio da Escola de Samba Viradouro - por Sander Fridman
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O desfile de escolas de samba ascendeu à categoria de um universo de práticas artísticas em si, tal como o são o teatro, a música, a literatura, a poesia, e neste sentido, é legítimo que contribua, através dos ricos recursos de sua arte, com variadas elaborações sobre os mais diversos temas que constituem e interessam ao ser humano - e dentre estes o Holocausto é um dos mais nobres, um dos principais e mais legítimos debates ainda em curso (não em relação às ilegítimas dúvidas sobre a realidade fatíca de seu acontecimento, mas em relação ao ser humano que foi capaz de produzi-lo e de sobreviver a ele).

Como a literatura, cuja seriedade e relevância política e moral poucos atacarão, também o desfile de escolas de samba, nas palavras de Massoud Moisés, referindo-se àquela, "guarda elementos lúdicos, visa a entreter a assistência, distraí-la do cotidiano amargo e hostil." Agora, a arte de um bloco carnavalesco tem um compromisso tão fundamental com a alegria e a sensualidade, que o coloca, aparentemente, em um divórcio radical e essencial, com o que a moral (no bom sentido) espera de um tratamento condigno do tema do Holocausto, de seus sobreviventes e descendentes, e do povo que através deles sentiu-se (e ainda se sente), legitimamente, com eles atacado e ameaçado.

Como autorizar e promover que a alegria e a sensualidade interpenetrem-se mutuamente com o tema do Holocausto sem violar a um e a outro? Este é o desafío assumido pela escola de samba Viradouros: pois desta adequada articulação tememos, legitimamente, por nossos valores de honra, de dignidade, do bom prestígio público enquanto cidadãos judeus. Estes valores legítimos e protegidos por nossa constituição e pelo código civil estarão ameaçados pela eventual inabilidade ou má intenção de quem conduz as construções dramáticas, líricas e evolutivas representadas pela escola.

Eventuais lesões abrem espaço para legítimas reparações morais, as quais não têm, infelizmente, o condão de devolver os fatos ao seu estado anterior, anulando seus terríveis efeitos. Além disso, passaram a existir, em relação a isso, verdadeiras razões para alarme, depois que Hugo Chavez, num ato anti-ético e imperialista, "patrocinou", em passado recente, o desfile de uma escola de samba, "encomendando" o tema e o enfoque específicos: a pregação da revolução bolivariana.

Sabedores da existência de uma quadrilha antijudaica mundial que se ocupa especificamente do revisionismo histórico contra o reconhecimento do holocausto, e que justamente aquele senhor é membro e um dos líderes desta corja repulsiva, e acompanhada de uma pequena horda de pseudo-intelectuais brasileiros adeptos das "verdades-relativas" e das "verdades-convenientes" - bem, aqui temos realmente um grande problema. Como as reparações morais no Brasil têm sido muito mais simbólicas do que de fato proporcionais às efetivas lesões e prejuízos morais causados, por doutrina muito particular do próprio direito brasileiro, que estabele como limite indenizatório a possbilidade de alguém "enriquecer mediante a indenização" - esquecendo que, para quem só lhe resta a honra, esta é sua grande riqueza! - então, neste contexto, deve a comunidade judaica lançar mão de todos os instrumentos legais disponíveis para se precaver.

Sugere-se que as diferentes lideranças formais da comunidade judaica da cidade, do estado e do país (já que a imagem do desfile é distribuída por televisão para todo o Brasil), num primeiro momento, entrem em contato amigável com a liderança da Viradouros e solicitem sigilosamente detalhes sobre o desfile, que solicitem assistir sigilosamente ao desfile em tempo hábil para oferecer sugestões apropriadas que resguardem o bom gosto e protejam os valores morais e a honra da comunidade judaica e dos cidadãos judeus. Caso haja excesso de ruído nesta comunicação ou caso a negociação não tenha o mínimo sucesso necessário, assiste a cada uma destas entidades, em cada Estado,

o direito de ação para pedir a tutela legal a cada um dos direitos constitucionais e civis ameaçados - e o quanto antes. Duas devem ser as lembranças a termos em mente, contudo:

1) fazermos bem feito, pois ano que vem tem carnaval de novo, e um deslize de palavras ou de estratégias pode ser o suficiente para que se perca a ação e não se possa requerê-la novamente;
2) outros temas, não menos nobres, já foram conduzidos por diversas escolas de samba, inclusive o da escravidão - aquele que posso bem chamar o holocausto negro;
3) a avaliação da propriedade e da adequação de uma mensagem sobre o holocausto veiculada por tal inusitado meio é por demais complexa: para não cairmos num subjetivismo estéril e ineficaz (o presidente da Fierj gostou ou não), devemos nos instrumentalizar com uma comissão de alto nível com nossos melhores semiólogos, analistas de propaganda e marketing, filósofos, diretores de artes dramáticas - no sentido de anteciparmos o impacto de determinada expressão artística carnavalesca na maneira como a mensagem sobre o holocausto será de fato assimilada, e até podermos contribuir com boas sugestões. Esperemos o melhor, e acompanhemos muito de perto para que ele, de fato, aconteça.

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Sander Fridman é psicanalista, neuropsiquiatra e psiquiatra forense, atendendo no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.
E-mail: sanderfridman@yahoo.com


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