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O jornal "Haaretz", numa de suas edições do mês de Janeiro último, publicou uma pesquisa de opinião pública feita pela agência "Galup", após entrevistarem mais de 1.000 pessoas em vários países muçulmanos e no Ocidente, concluiu existir uma maioria que acredita haver uma lacuna com tendência a aumentar cada vez mais, entre as culturas do Islã e do Ocidente. A publicação da caricatura do Profeta Maomé foi vista pelos muçulmanos como um ataque à sua religião, enquanto no Ocidente ela é vista como liberdade de expressão. Para a mentalidade ocidental, onde não há censura para a publicação de ideias, é muito difícil entender a sensibilidade do mundo muçulmano.
Por outro lado, é preciso analisar o problema com muita cautela e não referir-se ao mundo muçulmano como um todo, nele havendo as mais diferentes seitas. Há uma tendência de ver em cada muçulmano um terrorista latente, quando na realidade existe uma minoria extremamente ativa, que segue a sua religião de uma forma extrema e combativa. A pauta é dada pelos "kamikases", que são os muçulmanos fanáticos suicidas.
Para o Ocidente surpreende, e são incompreensíveis, aspectos de certas seitas muçulmanas. É o que acontece, por exemplo, nas comemorações em memória do Iman Hussein Ben Ali, que era neto do profeta Maomé (Muhamad), o qual foi assassinado no ano 680. Centenas de milhares de xiitas participaram em várias cidades do Iraque das cerimônias da "Ashura", expressando a sua dor numa terrível (para os ocidentais) autoflagelação, castigando os seus corpos, a ponto de provocar sangramento na cabeça, peito e nas costas. A cerimônia mais importante teve lugar na cidade santa de Karbala, com a participação de cerca de 2 milhões de xiitas.
Em vários países europeus, onde já ocorreram violentos atos de terrorismo suicida, alguns grupos extremistas islâmicos conseguiram provocar um enorme antagonismo nas populações dos respectivos países. É o que tem acontecido na França, onde nos subúrbios de Paris, por exemplo, vive uma enorme população muçulmana proletária, grande parte já nascidos no mesmo país, provocando violentos tumultos e causando altíssimos prejuízos econômicos naquelas regiões. Na Holanda, líderes religiosos estão preocupados com o futuro de suas igrejas e templos, em contraposição às novas mesquitas que vão sendo construídas. Consta também, apenas para dar outro exemplo, que no sul da Espanha teriam havido reivindicações de grupos muçulmanos pleiteando devolução de terras, que teriam pertencido aos seus antepassados, antes da expulsão dos mouros da Península Ibérica.
E em Israel? Diferenças culturais se fazem sentir pelo modus vivende em certas camadas do mundo israelense-árabe vis a vis à comunidade israelense judaica. Trata-se aqui dos crimes cometidos em defesa da "honra da família". Numa certa cidade de Israel oito mulheres da mesma família, composta por mais de duas mil pessoas, foram assassinadas por familiares do sexo masculino, por terem se comportado de forma considerada incorreta pelos homens, pelo simples fato de vestirem roupas impróprias, por saírem ao trabalho ou ter tido algum contato com homens.
Tudo era mantido em segredo, até que a mãe da última moça assassinada resolveu quebrar o tabu e surpreendeu a polícia narrando o que vinha acontecendo, chegando a exigir que seu próprio filho fosse julgado e condenado pelo assassinato da irmã. A reação daquela infeliz mulher causou grande comoção. É preciso tomar muito cuidado para não generalizar a referida ocorrência em Israel. Mas, os crimes cometidos, que acontecem em reduzidas proporções, dão uma pauta das divergências culturais existentes. Poderá ocorrer uma guerra de civilizações? Segundo certos analistas, o conflito já existe.
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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il |