Imigrantes de malas abertas
IMPRIMIR | FALE CONOSCO | | RECOMENDE ESTE SITE

O novo imigrante do século 21 está interessado em realizar o sonho sionista, mas não abre mão da prosperidade econômica. Ele vive em Israel – ao menos nos finais de semana – mas continua a trabalhar ou a dirigir seus negócios no exterior. É a chamada “imigração rotativa”

Fonte: Haaretz.co.il - O mais famoso dos novos imigrantes em Israel, em anos recentes, é, sem sombra de dúvida, o Governador do Banco de Israel, Prof. Stanley Fischer. A disposição de um bem-sucedido economista americano em assumir esta posição foi percebida não apenas como uma grande conquista para a economia local, mas como uma rara demonstração de sionismo. À primeira vista, a imigração de Fischer é isenta das dificuldades que caracterizam a experiência de outros novos imigrantes. Pouquíssimos recém-chegados podem esperar obter emprego tão prestigioso, no qual possam utilizar todo o seu vasto conhecimento e talento, acumulados em seu próprio país de origem. No entanto, de várias maneiras, Fischer representa o protótipo do potencial imigrante do século 21: alguém com uma profissão liberal e alta renda no exterior, que tem interesse em manter esse nível de renda e o padrão de vida e, ao mesmo tempo, realizar suas aspirações sionistas.

Tais imigrantes têm grande interesse em vincular seu futuro ao de Israel e construir seu lar e educar seus filhos no país. No entanto, se Israel não puder fornecer-lhes uma solução econômica adequada, eles a encontrarão a seu modo – como, por exemplo, continuar trabalhando na Wall Street, cinco dias por semana, e passar o final de semana em Israel; ou então mudar-se para um apartamento em Tel Aviv, mas permanecer com visto e status de turista durante anos. Ou, ainda, apenas um dos cônjuges e os filhos adotarem a cidadania israelense enquanto o outro cônjuge, em nome de quem o registro financeiro da família está inscrito, continua vivendo com passaporte estrangeiro.

Após a massa de imigrantes etíopes e as grandes ondas de imigração da antiga URSS, cerca de 90% dos judeus remanescentes na Diáspora vivem em países que se enquadram nos dois decis superiores. Em sua maioria, desfrutam de um padrão de vida mais elevado do que teriam em Israel; e mesmo em lugares como a Rússia e a Ucrânia, a maioria dos judeus remanescentes pertencem à elite urbana. No passado, as grandes levas imigratórias eram basicamente movidas por carência física ou econômica – escapar de perseguições, fome ou dificuldades econômicas – ao passo que o anseio pelo retorno a Sion e a ideologia vinham em segundo plano – se é que existiam. Apesar de o anti-siosnimo não ter desaparecido, hoje não há comunidade judaica alguma que se veja obrigada a fugir – nem mesmo os 25 mil membros da forte comunidade judaica do Irã, cujos integrantes têm permissão de deixar a república islâmica e emigrar para Israel, mediante um visto de turista emitido por um terceiro país. Poucos se beneficiam dessa vantagem em virtude do patrimônio que possuem no Irã. E mesmo as previsões de uma fuga em massa dos judeus franceses, decorrente da onda de anti-semitismo islâmico, caíram por terra.

Os judeus nunca deixaram de vagar pelos países; mas, ao que tudo indica, hoje eles têm opções mais atraentes do que Israel. Países ocidentais, como o Canadá e a Espanha, favorecem imigrantes ocidentais, em especial os que possuem profissões interessantes, e o governo alemão investe dezenas de milhões de Euros na absorção de imigrantes da Europa Oriental. E, de fato, metade dos judeus que deixaram a Rússia desde que os portões se abriram, tomaram o rumo da Alemanha, Estados Unidos e Canadá, optando por criar comunidades de língua russa nesses países. Ademais, apenas alguns judeus venezuelanos, temerosos dos planos do Presidente Hugo Chávez, estão emigrando para Israel, enquanto outros, aos milhares, estão-se mudando para Miami, de onde é muito mais fácil ficar de olho em seus negócios e manter uma vida social e cultural em idioma espanhol.

Número de telefone francês

“Antigamente, a maioria dos judeus emigravam de países menos desenvolvidos para outros mais desenvolvidos”, declara Israel Pupko, que escreve uma tese de Doutorado sobre os processos de imigração dos imigrantes de países prósperos. “Ademais, a globalização, os avançados meios de transporte e Comunicação, e a política de imigração multicultural, em vários países, ampliaram as opções imigratórias para pessoas que detêm profissões e aptidões em demanda, e isto se reflete em uma hipermobilidade. Mesmo após emigrar, as pessoas continuam econômica, social e politicamente envolvidas em seus países de origem”.

Pupko, pesquisador do Instituto de Planejamento de Políticas para o Povo Judeu (JPPPI) da Agência Judaica (JAFI), trabalha atualmente em seu Doutorado pelo Instituto de Judaísmo Contemporâneo da Universidade Hebraica, sob supervisão do Prof. Sergio Della Pergola, conceituado demógrafo. Segundo Pupko, o mundo acadêmico tem pesquisado a tendência “multi-nacional” de imigração, há vários anos. Contudo, apesar do número desproporcionalmente alto de judeus envolvidos nesse processo, é pouco provável que se tenha feito qualquer pesquisa sobre Israel. Pupko alega que a tendência é prevalente entre os imigrantes de anos recentes vindos de países ocidentais. “Segundo os estudos mais recentes, entre 20% - 25% dos chefes de família que, nos últimos anos, emigraram para Israel de países anglo-parlantes, continuam a trabalhar em seu país de origem. Os altos percentuais chegam a 50% entre os franceses imigrados desde o ano 2000. Alguns viajam à França a cada duas ou três semanas, enquanto outros dirigem seus negócios em Paris através de controle remoto, de seu lar em Jerusalém. Possuem um número de telefone francês e seus clientes sequer desconfiam que estejam falando com Jerusalém. Apesar de este modelo, em que o chefe de família – geralmente o pai – continua a trabalhar em seu país de origem, já ser bastante corriqueiro, recentemente se tornou ainda mais prevalente”.

Pupko está atualmente na França, onde realiza entrevistas com candidatos à emigração. Seu trabalho está basicamente calcado em entrevistas com imigrantes de países ocidentais e da Rússia, e com legisladores em Israel. A maioria dos legisladores ainda prega o conceito de ‘emigrar de vez e com tudo’, sem deixar patrimônio algum no país de origem. A abordagem ainda é de uma fusão total em Israel, isto é, tudo ou nada. Os parâmetros para uma imigração bem sucedida são os de adaptação instrumental, domínio do idioma e êxito em encontrar emprego e moradia. No entanto, há quem simplesmente não esteja interessado em ingressar no mercado de trabalho local, e isto não pode ser visto como negativo. Algumas pessoas que, no passado, jamais sonharam em emigrar para Israel são, hoje, capazes de fazê-lo graças aos novos modelos.


PLETZ.com - informando desde 1998