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60 anos da resolução das Nações Unidas sobre a partilha da Palestina em 2 Estados (29.11.1947) - Documento Histórico: uma carta de Elias (Eliyahu) Sasson, diplomata israelense sênior, a Azzam Pasha, Secretário Geral da Liga Árabe, em 5 de dezembro de 1947.
Fonte: Estado de Israel e Organização Sionista Mundial, Documento Político-diplomático, Dezembro 1947 – Maio 1948
Editor: Gedalia Yogev, Jerusalém, 1979
3 de dezembro de 1947
Caro Azzam Pasha,
Venho, há algum tempo, querendo escrever-lhe, mas hesitei em fazê-lo antes que as Nações Unidas tivessem tomado sua decisão sobre a Palestina. Agora que tal passo foi dado e um novo capítulo está prestes a se iniciar, não desejo retardar mais esta iniciativa, especialmente à luz do que tem sido veiculado nos últimos dias, na imprensa, acerca dos pronunciamentos mais recentes de V.S. sobre a Palestina e a decisão da Assembléia Geral. Não estamos inebriados pela vitória, caro Assam Pasha, apesar do fato de que após a batalha política mais extenuante que jamais tivemos que suportar, após a investigação mais exaustiva de nossos problemas que jamais tivemos que enfrentar, a maior parte da humanidade civilizada reconheceu a justiça de nossa causa. Temos consciência de que uma tarefa gigantesca espera por nós. Nosso empenho para erguer uma nação não teve precedentes na história da humanidade.
Temos que vencer obstáculos jamais interpostos diante de nenhum outro povo, na face da Terra. Mas, se não somos triunfantes, tampouco somos covardes. Nossa fé no triunfo final de nossa causa não se baseia nas forças materiais a que V.S. se referiu ao discursar, esta semana, em sua sede. Não foi por força material que nosso povo conseguiu resistir à opressão, durante séculos, ao poder de Roma, à Inquisição Espanhola, ao despotismo da Rússia czarista e ao uso da força armada de Hitler. A força material sempre esteve contra nós. Sobrevivemos exclusivamente pela força do espírito. Um povo que, após dezoito séculos de exílio e perseguições sem fim, ainda possui a força espiritual e a virilidade de construir uma nova civilização, não é uma entidade para ser tratada com desprezo. Certamente não é uma entidade que pode ser aniquilada pela força bruta, como alguns de seus amigos parecem inclinados a acreditar.
Com isto não queremos dizer que subestimamos o perigo e o sofrimento que a força bruta podem infligir sobre nós. Não há outro povo, no mundo, que tenha pago preço tão terrível por sua sobrevivência, como nós. Fizemos a avaliação e sabemos o que teremos que enfrentar. Não estamos pensando meramente em termos de semanas e meses. Estamos pensando em termos de anos, décadas. Mas sabemos que, por mais amargo e demorado que este esforço possa ser, havemos de vencer, pois a nossa causa é espiritual. Nunca na história da humanidade uma causa desta índole conseguiu ser eliminada pela força. Não nos resta escolha a respeito. A necessidade, pura e simples, nos força a trilhar por este caminho, o único que nos garante sobreviver enquanto povo.
A escolha está nas mãos de V.S.. Depende de V.S. se irão atrapalhar ou viabilizar a nossa reintegração no Oriente Médio. Estou ciente de que a disposição da maioria de vocês, a esta altura, ainda é optar pela primeira possibilidade. Nesta geração, vocês alcançaram liberdade e independência, mas muitos em seu meio não estão prontos para, em condições de igualdade, conceder aos outros o direito de viver e de ser livre. Contudo, as mesmas forças e as mesmas necessidades que deram a vocês a sua liberdade estão também por trás de nosso esforço para assegurar a nossa liberdade. E, ao se prepararem para derrotar nosso empenho pela liberdade nacional mediante a força bruta, vocês estão-se colocando na exata e idêntica posição em que estiveram aqueles que se opunham ao esforço de vocês em prol da liberdade. Tenho alto respeito pelo inteligência política do povo árabe, em cujo meio cresci e vivi toda a minha vida, para pretender aqui lhes oferecer conselhos políticos.
Mas nenhum ser pensante pode deixar de ver que esses líderes os estão arrastando para o abismo e os colocando em posição contrária a todo o ideário de onde seu movimento de libertação tirou sua força e ao qual deve seu sucesso. Não estamos – como o disse acima – subestimando sua força, mas humildemente conclamando-o a não subestimar a nossa, tampouco. Nossa força, como disse acima, tem suas raízes na força do espírito e na força da necessidade; mas estas forças podem, também, mobilizar a força física. Nossos números podem ser pequenos, mas nossa coragem é grande e, agora, temos a força adicional – nada desprezível – advinda da decisão da maioria avassaladora dos membros das Nações Unidas. Podemos sofrer reveses, mas nosso povo, seja aqui seja em outras partes, não desistirá da luta, e se essa luta for prolongada, inevitavelmente introduzirá no cenário forças que poderão ameaçar não apenas a nossa independência, mas a sua, também. Paz e liberdade são indivisíveis. Que homem algum jamais acredite que nossa liberdade poderá ser suprimida e a de nossos vizinhos, sobreviver. Que homem algum jamais pense que a Palestina poderá ser encharcada em sangue enquanto nossos vizinhos vivam em segurança.
Felizmente, há um caminho bem diferente diante de vocês e de nós. Alguns de seus líderes disserem aos povos árabes que somos uma ameaça a sua segurança, que a Palestina nada mais é para nós do que uma ponta-de-lança de onde conquistaremos o Oriente Médio inteiro. Eles têm repetido tais afirmativas tantas vezes que, tenho certeza, muitos já até acreditam sinceramente no que dizem. No entanto, apesar de toda a sinceridade dessa crença, a mesma continua sendo uma dedução extremamente absurda. Os judeus retornam à Palestina não para conquistar ou aniquilar a quem quer se seja, mas sim para encontrar seu Lar na única terra que lhes pode dar tal Lar, na única terra com a qual possuem uma ligação história intacta e impossível de ser quebrada. Eles desejam seu Lar na Palestina e em nenhum outro lugar.
A Síria, o Iraque e demais países – todos são para nós terras tão estranhas quanto a África Oriental ou a América do Sul. Analisando-se, de novo, a situação sob um ponto de vista prático, que justificativa há para tais medos? Vocês acreditam que a reconstrução do Estado Judeu em uma parte da Palestina será uma tarefa fácil? Vocês acreditam que a transferência e o assentamento dos judeus da Europa e de outras partes em lotes de terra, que hoje, na sua grande totalidade, nada mais são do que desertos, requerirão pouco esforço? O número de judeus que virão se reassentar na Palestina não será tal que constitua a mais leve ameaça possível para os 40 milhões de árabes que povoam o Oriente Médio, cujos números crescem ano após ano, cujos territórios são imensos e cujas potencialidades, ilimitadas. É necessário alguém próximo à loucura para criar essa “imagem-fantasma” de uma conquista judaica do Oriente Médio. Pode ser um bom slogan para incitar as multidões fanáticas. Esta idéia deveria ser banida às gargalhadas dos foros de discussão dos estadistas responsáveis.
Vocês e nós estamos, hoje, na encruzilhada da História. Depende de vocês se irão impedir o nosso caminho ou aceitar-nos como pedimos para ser aceitos, como filhos do Oriente que retornam, após séculos de exílio forçado, à Terra de nossos Patriarcas. Não me atreverei a fazer profecias, mas gostaria de dizer a vocês, vocês – que acredito têm familiaridade com as perspectivas históricas – que esses Filhos de Israel que retornam poderão tornar-se fonte de grandes bênçãos no Oriente Médio todo. Daqui eles foram expulsos, contra sua vontade, mas fizeram enormes contribuições às terras que os adotaram. Retornam, agora, carregados com os tesouros da experiência única de um povo oriental em terras ocidentais, para aqui encontrar o que nenhuma outra terra lhes pode dar: profundas raízes no solo, paz, segurança, um Lar.
Seus esforços se concentrarão apenas nesta tarefa e apenas nesta terra, mas é inevitável que o que conquistem aqui tenha um efeito benéfico sobre seus vizinhos, ajudando no renascimento geral de um Oriente Médio no qual a paz, a segurança e a prosperidade de todos os que nele residem dependa, essencialmente. Esta é, de fato, a esperança que mantemos a despeito do que estão infligindo contra nós, estes dias. Durante a semana passada, enquanto se fazia um esforço desmesurado para nos envolver em um imbróglio e nos incitar a represálias, nosso povo manteve sua auto-contenção e nossos líderes continuaram a estender a mão da paz e da cooperação a nossos vizinhos árabes. Nosso trabalho de reconstrução prossegue e continuará a prosseguir, quer queiram quer não nossos vizinhos, mas depende deles qual das partes de nossa nova Comunidade de Nações optará pelo renascimento do Oriente Médio. A escolha é deles. Permita-me terminar com uma passagem de nossa Bíblia Sagrada: “Diante de ti coloquei a vida e a morte, a bênção e a maldição: portanto, escolhe a vida para que tu e a tua semente possam viver”.
Atenciosamente,
Elias Sasson
A carta nunca obteve resposta
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fonte: Keren Hayesod - Boletim Informativo - N.396 - 29.11.07 |