Banalizar ou glorificar a morte - por Marcos Wasserman
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Há muitos anos assisti a uma curtíssima película educativa, projetada em vários cinemas, sobre a prevenção de acidentes de trânsito. O filme mostrava um cavalheiro muito simpático, bem trajado, que saía de seu palacete, abria sua garagem e entrava no seu carro. No momento em que ele dava a partida ao veículo, ocorria o horror. Ele mudava de aspecto, se transformava em uma figura diabólica, com cara de assassino e, sorridente, saía pelas ruas soltando palavrões a torto e a direito, antecipando seu prazer satânico de atropelar algum incauto pedestre.

O filme aflorou à minha memória ao ler um artigo sobre os acidentes de tráfico em Israel. Quase que diariamente se ouve pelo rádio, se lê nos jornais, se assiste pela televisão os desastres com veículos, ceifando vidas inocentes nas estradas ou nas ruas das cidades, e o espectador vê, horrorizado, os restos dos veículos carbonizados. Das vítimas nem é bom falar.

A lei penal israelense tem sido benigna com os motoristas assassinos. A pena máxima é de três anos de prisão para o motorista julgado culpado. Há quem proponha mudar a lei e impor tal pena por cada pessoa morta num desastre provocado pelo imprudente e irresponsável motorista. Assim, por exemplo, se ele tiver matado três pessoas, deveria ser condenado a nove anos de prisão. Na realidade, as penas máximas são raras e, via de regra, as condenações não passam de alguns meses.

Por que não são poucos os motoristas israelenses que manejam seu veículo como se estivessem em uma competição, para ver quem vai chegar primeiro, ou, quiçá, como se estivessem dirigindo um tanque de guerra? Não tenho a resposta; melhor caberia aos psicólogos tentar explicar esse tipo de comportamento. Em vez de lutar contra esse pavoroso fenômeno, o israelense, em média, aceita o que está ocorrendo como se fosse a "coisa mais natural do mundo". A ponto de se tentar comparar o número de mortes por atentados terroristas árabes, insignificante (como se isso fosse um consolo), com o número de mortes por acidentes de trânsito!

O mesmo ocorre com os foguetes que há anos vêm sendo disparados, da Faixa de Gaza, contra alvos civis no Sul de Israel. No ano de 2006 foram disparados 1.488 foguetes; em 2007, 1.150 e, nos dois últimos meses do corrente ano, "apenas" 360. Em apenas dois meses, a média é de mais de seis foguetes por dia. Isto vem acontecendo no Sul, repetindo o que aconteceu antes no Norte do país, antecedendo a Guerra no Líbano.

O turista que desembarca em Israel pela primeira vez sente que vai realizar uma grande aventura e enfrentar o perigo do terrorismo sem medo, como se fosse um herói. O visitante chega a se sentir frustrado depois, quando se dá conta de que a vida em Israel segue na mais absoluta normalidade, que ele pode passear de noite nas ruas, sem medo de ser assaltado, como se nada estivesse acontecendo. E assim é.

Claro está que, quando há uma vítima do terror, o país inteiro chora. Também chora com as vítimas dos acidentes. Mas, neste caso, tudo ocorre como se fosse algo inevitável, uma espécie de enfermidade contra a qual não há o que fazer. Chega a ser uma banalização absurda da morte. Em contraposição, os terroristas suicidas são endeusados nos seus pagos. Morrer para matar inocentes civis judeus, numa pizzaria, é alcançar a maior plenitude que um fanático pode almejar. Ad majorem Dei gloriam.

Quanto à vida, ela é o maior tesouro outorgado ao ser humano.

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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il


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