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fonte: JTA e Keren Hayesod
"Acredito que todo ser humano é criado à imagem de D’us e quando somos testemunha de muito sofrimento, degradação e discriminação, somos compelidos a fazer o impossível para ajudar. Como judeus, é esta a nossa herança moral, é o que nos ensinam nossos valores humanos e morais. Nossa própria experiência enquanto judeus, após séculos de perseguição que culminaram na Shoá, tornam-nos ainda mais sensíveis ao sofrimento alheio. Acreditamos ser nossa obrigação ajudar.
Os povos nativos da Austrália não foram, apenas, vítima de imensa desigualdade e preconceito; eles também sofreram políticas discriminatórias postas em prática por sucessivos governos e legislações discriminatórias aprovadas por sucessivos mandatos parlamentares. Sentimos ser nossa obrigação moral não poupar esforços para restaurar sua dignidade e seus direitos. Eles foram os primeiros povos a viver na Austrália, dezenas de milhares de anos antes de aqui chegarmos. Nosso objetivo é promover uma verdadeira reconciliação. Esta reconciliação deve ter objetivos práticos e concretos – em especial, empenhar-nos em encurtar a vergonhosa diferença de 17 anos na expectativa de vida dos povos nativos e da população branca.
Minha empresa, Arnold Bloch Leibler, começou, há vários anos, a realizar trabalho gratuito na área do Direito para os povos nativos de nosso país. Um de seus principais porta-vozes, Noel Pearson, trabalhou comigo nessa área, há alguns anos. Aprendi muito com ele. Em 2000, fui indicado para membro do conselho de uma entidade sem fins lucrativos, que visa promover a reconciliação entre os australianos nativos e os demais. Desde então, tenho participado do Conselho pró Reconciliação na Austrália e, nos últimos três anos, venho servindo como um dos dois presidentes desta ONG, sendo que o outro é o Professor Mick Dodson, ele próprio um australiano nativo”.
O pedido de desculpas feito pelo Primeiro Ministro da Austrália aos aborígines – um feito sem precedentes – e que adquiriu características de algo como um Yom Kipur nacional, foi a culminação de um empenho de reconciliação que se arrastava há uma década, liderado em grande parte por judeus. Num ato que poderia ser descrito como o Yom Kipur da Austrália, o Primeiro Ministro Kevin Rudd expressou, na última 4ª. feira 13 de fevereiro, a simples palavra que seus antecessores se recusaram a pronunciar aos australianos nativos: DESCULPA.
O Partido Trabalhista, de Rudd, arrebatou o poder do Partido Liberal, de John Howard, em novembro passado, com uma plataforma que incluía o pedido de desculpas às “Gerações Roubadas” – cerca de 100.000 crianças aborígines, na maioria de sangue misto, que tinham sido removidas à força do seio de sua família, durante seis décadas, isto é, de 1910 a 1970. O texto da moção sobre as Gerações Roubadas, que obteve apoio dos dois partidos, admitiu “a profunda dor, o sofrimento e a perda” infligidos aos aborígines.
Os judeus australianos, alguns dos quais já estavam, há décadas, na dianteira desse longo empenho pela reconciliação, aplaudiram o pedido formal de desculpas. “Às mães e aos pais, aos irmãos e às irmãs, pedimos desculpas por ter dilacerado famílias e comunidades”, declarou o Primeiro Ministro Rudd. “E pela indignidade e pela degradação assim infligidas a um povo orgulhoso de sua origem e orgulhoso de sua cultura, pedimos desculpas”. Em um pronunciamento histórico, que provocou salvas e lágrimas, Rudd afirmou que esperava que as desculpas pudessem remover “essa grande mancha do coração de nossa nação”.
Mark Leibler, co-presidente da “Reconciliation Australia”, uma organização nacional que promove a reconciliação, declarou que o pedido de desculpas do Primeiro Ministro marcava um “divisor de águas” na história australiana, mas que deveria ser apenas o começo de um verdadeiro processo de reconciliação. “A vergonha que recai sobre este país não será dissipada enquanto não encurtamos a distância de 17 anos no índice de expectativa de vida entre os australianos nativos e os não-nativos”, declarou Leibler, que assistiu a cerimônia de pedido de desculpas, em Canberra, na 4ª. feira passada.
Leibler preside, também, o Conselho Mundial de Fiduciários do Keren Hayesod/ United Israel Appeal, bem como o Conselho Austrália/ Israel e Assuntos Judaicos, na qualidade de presidente nacional. “Sofremos 2.000 anos de perseguição e entendemos o que representa ser “o oprimido”, o “saco de pancadas”, sempre vítima das diferenças”, concluiu. Os judeus sempre estiveram na dianteira da defesa pelos direitos civis, na Austrália.
Em 1965, Jim Spigelman, primo do cartunista Art Spiegelman, ganhador do Prêmio Pulitzer, e hoje Presidente do Supremo Tribunal de Nova Gales do Sul, conduziu 30 universitários na primeira Marcha Australiana pela Liberdade – uma jornada pelas regiões áridas e remotas do país, conhecidas como Outback Australia, para protestar contra a discriminação racial contra os aborígines, que não tinham direito de voto e não podiam freqüentar as piscinas públicas, bares e outros locais públicos.
Na aldeia de Moree, um grupo racista atacou os universitários e, segundo notícia de jornal, à época, o juiz Spigelman foi atacado e derrubado no chão. A pessoa a quem a maioria dos judeus e aborígines louvam como quem mais contribuiu à causa pelos direitos dos aborígines é Ron Castan, judeu australiano, carinhosamente chamado pelos líderes aborígines de o “grande guerreiro branco”.
Castan, que morreu em 1999, foi o advogado-chefe no famoso “Julgamento Mabo”, que tramitou em 1992 na Corte Suprema australiana – em razão do nome do queixoso, Eddie Mabo – e que derrubou por terra a ficção jurídica de que a Austrália era “terra nullius,” ou “terra de ninguém”, quando os colonizadores brancos chegaram ao território, pela primeira vez, em 1788. Em decorrência desse processo, os aborígines hoje detêm mais de 10% da massa territorial da Austrália.
Em um pronunciamento, em 1998, Ron Castan implorou ao governo que pedisse desculpas, de público, citando a negação do Holocausto em seu argumento. “A recusa em se desculpar pela expropriação, pelos massacres e pelo roubo de crianças é o equivalente australiano aos que negam o Holocausto e dizem que este nunca ocorreu, de fato”, acusou Castan. Em 1999, Howard propôs uma moção expressando “profundo e sincero arrependimento” pelas injustiças causadas aos aborígines, mas o então Primeiro Ministro declarou que os australianos “não deveriam aceitar a culpa e a acusação” pelas políticas de governos anteriores.
Os aborígines totalizam cerca de 450.000 em meio à população de 21 milhões de habitantes, da Austrália. São o grupo menos privilegiado do país, com altíssimas taxas de mortalidade infantil, desemprego, alcoolismo e violência doméstica. Mais de 100 membros das Gerações Roubadas estiveram presentes na cerimônia da última 4a. feira, que foi transmitida ao vivo em cadeia nacional de televisão e em telões gigantes, pelo país inteiro.
“Nossa fé ensina e enfatiza os princípios universais da coexistência e do respeito pela dignidade e os direitos humanos”, declarou o Rabi Mordechai Gutnick, presidente da Organização de Rabinos da Austrália. “Ensina a necessidade de reconhecer e retificar quaisquer falhas que possamos ter ao interagir com nossos irmãos, seres humanos. Pedir desculpas de modo significativo e sincero ajuda muito a assegurar que tais erros e discriminações não se repitam”.
Além de seu envolvimento nas questões dos aborígines, os judeus foram instrumentais na liderança da cruzada contra a Política Austrália Branca, uma série de leis promulgadas entre 1901 e 1973, que restringiam a imigração não-branca para a Austrália. O presidente do Conselho Executivo do Judaísmo Australiano, Robert Goot, afirmou que se orgulha do incessante comprometimento da comunidade judaica com a reconciliação. |