Quem ganhou o conflito Hizbolah x Israel? - por Marx Golgher
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A comunicação israelense está assumindo contornos kafkianos, de forma semelhante à obra de Kafka, a evocar para os acontecimentos de Israel numa atmosfera de pesadelo, de absurdo, especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade, e que sistematicamente se volta contra o próprio Estado judeu. Um dos exemplos mais significativos desta atmosfera é o cerne do relatório israelense Vinograd no qual se consagra no conflito de julho de 06 o grupo xiita do Líbano, Hizbola, braço armado do Irã xiita e da Síria como o grande vencedor, por ter infligido a Israel uma desastrosa derrota.

Teria sido isso mesmo? Usando a razão, faculdade humana da linguagem e do pensamento, voltada para a apreensão da realidade, em contraste com a função desempenhada pelos sentidos na captação de percepções imediatas e não refletidas do mundo externo, usando a faculdade de raciocinar, de apreender, de compreender, de ponderar, de julgar; a inteligência, em um raciocínio que conduz à indução ou dedução de algo, dando-nos a capacidade de avaliar com correção, com discernimento; bom senso, aquilo que provoca, ocasiona ou determina um acontecimento, cabe distinguir quem ganhou o conflito Hizbola x Israel. É questão até de bom senso:- é vencedor o litigante que tiver alcançado o seu objetivo.. E quem alcançou exito no conflito? Teria sido o Hizbolá como aponta Vinogrrad e Hassan Nassarillah? Vejamos:

O Hizbola fez estourar o conflito dia 12 de julho, às 9:05 (hora local), com lançamentos de foguetes Katyusha sobre posições militares e vilas israelenses. Os foguetes acertaram as cidades de Shlomi e entrepostos na região das Fazendas de Sheeba.Logo depois, militantes do Hezbollah invadiram o território de Israel, atacaram dois HMMWV israelenses. Três soldados do Estado judeu foram mortos e dois capturados com diversos civis feridos. Quatro soldados que tentaram recuperar os dois soldados seqüestrados, foram mortos dentro de um tanque. Um outro soldado foi assassinado ao se aproximar do tanque para retirar os corpos para o enterro, como é comum no exército israelense. Todo este cenário concreto dava motivos letítimos, causus belli a Israel a responder militarmente o ataque. Aliás, tal direito iniciativa foi reconhecido internacionalmente, inclusive pela Arábia Saudita.

Qual o contexto, inter-relação de circunstâncias que acompanham o fato? Qual o fator determinante do ataque do Hizbolá? É perfeitamente sabido que o Irã xiita vem, há anos, declarando que sua principal meta de política externa é o de varrer “Israel do mapa”. O governo de Teerã promoveu, sustentou, e mobilizou o seu braço armado no Líbano o xiita Hizbola, e armou uma ativa aliança com a Síria, tratando logo de coloca-la em prática no Sul do Líbano, território ocupado pelo grupo xiita libanês em conflito aberto com o governo central e legitimo do Pais dos Cedros.

Assim, durante cinco anos foram construídos no Sul do Líbano, um moderno dispositivo militar subterrâneo com o objetivo evidente de criar um trampolim de ataque a Israel, no contexto da estratégia de liquidar o Estado judeu do mapa. Estima-se que o Irã xiita despendeu entre um a dois bilhões de dólares de modernos bunkers, (50 metros, com dispositivos de comunicação mais modernos, ar condicionado, etc) entrelaçado com arsenais capazes armazenar milhares de mísseis e outros armamentos sofisticados, interligados por meio de extensas redes de túneis.

De passagem, assinalamos o lapso primário do relatório Vinograd de não ter apontado a gritante falha do outrora excelente serviço de inteligência militar israelense, de não ter tido o devido conhecimento do poderio deste dispositivo subterrâneo construído a poucos quilômetros da fronteira de Israel. Ao desconhecer o inimigo, o terreno em que estava pisando, as armas, com destaque ao moderno armamento anti-tanque que tornou o tanque israelense Markava I, II. III inteiramente vulnerável, a FDI sofreu consideráveis baixas. Kafkianamente, descobriu-se o poderio do Hizbola em pleno campo de batalha. Claro, com desastrosos resultados.

Considerando o contexto, se o objetivo do ataque Hizbola foi o de testar as defesas de Israel para aperfeiçoar o seu trampolim da “frente libanesa”, claro que o objetivo de Israel vis-a-vis com o Hizbolah, seria o o de destruir tal dispositivo militar, tratar de afasta’-lo mais rapidamente possível das bordas de Israel, de onde lançava katiuskas em contra cidades do norte israelense.

Diante a essa realidade concreta, se observarmos o desenrolar da guerra, evidencia-se claramente que depois de 34 dias de combates, o Hisbolá foi expulso do Sul do Líbano, retirado além do rio Litani, bem distante das cidades do norte de Israel, todo o seu dispositivo militar foi destruído, estando toda a região agora ocupada por tropas da ONU, segundo resolução da entidade, ao lado do exército libanês, cuja disposição de luta contra o terror islamita foi provado nos combates em maio de 2007, no campo de refugiados Nahr al-Bared, dominado pelo grupo Atah-al-Islã, ligado a Al queda, ainda que sofrendo muitas baixas. Sob o ponto de vista político, tal ação libanesa coincidiu com declarações do primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, reiterando que seu Governo."No sétimo aniversário da libertação, não nos renderemos aos terroristas, seja qual for seu nome. Não nos deixaremos aterrorizar pelas explosões ou pelos assassinatos. Estamos decididos a acabar com o grupo armado o mais rápido possível e sem contemplações", disse, referindo-se aos radicais islâmicos sunitas do Fatah al-Islam.

Com esse cenário objetivo, concreto, da destruição do trompolim da “frente libanesa” para “varrer Israel do mapa”, com apoio inicial da comunidade internacional, seguido do fortalecimento da “Frente anti-Síria” no Líbano contra o terrorismo islamita, por que o resultado político foi tão desastroso, a ponto de se argüir contra toda a evidencia de que Israel perdeu a guerra com o Hizbolá?. Como o Estado judeu pôde fazer a proeza de “perder” politicamente o que de fato ganhara militarmente, a tão duras penas e pesadas perdas humanas? Por que ao invés do fortalecimento de Israel na luta contra o terrorismo, se deu precisamente o reverso, o sentimento de derrota e enfraquecimento, e isolamento diante à “Frente anti-Síria” do Líbano?

Houve uma série de graves- até grotescos- erros- do governo e sociedade israelense, que necessitam ser pensados, repensados e corrigidos.

A rápida perda de apoio internacional se deu com à inicial canhestra declaração do governo Ometh de que considerava ataque do Hizbola um mero caso de “seqüestro”, e que se houvesse a devolução dos dois soldados seqüestrados, o Estado judeu não reagiria, ficando tudo “em paz”. Isso, quando o mundo civilizado testemunhava a ameaça e agressão xiita à soberania de Israel. A partir da daí, a reação israelense foi considerada “desproporcional ao sequestro”. Claro, em todos os casos anteriores de seqüestros de israelenses pelo terror foram resolvidos na base de troca de prisioneiros, não de bombardeios massivos...e inúteis à infra-estrutura do Líbano, país também vitima do terror, como estava ocorrendo....Em janeiro de 2005, havia ocorrido até troca de cadáveres de soldados israelenses e um seqüestrado por 400 terroristas (!) (o principio da troca é bem discutível em se tratado de questão envolvendo Estado, ainda mais com tamanho desequilíbrio, a colocar em risco a própria segurança da população israelense, estimulando novos seqüestros) .

O declínio da credibilidade israelense se acentuou rapidamente, quando Israel se afastou da postura inicial de apoio à luta contra o terror no Líbano da “Frente anti-Síria”, julgando-o também vítima do Islã radical (discurso do representante de Israel na ONU, 16 de julho de 06), passando a considerar a identificar o Líbano com o Hizbola, transformando o conflito de julho de 06, em II Guerra do Líbano, embora fosse evidente que o Estado libanês não se bateu contra o Estado judeu, mas contra o terrorismo islamita xiita.

A kafkiana derrota de Israel é uma conjugação absurda e obtusa de ação política e diplomática do Estado judeu, a ponto de ter transformado uma dura vitória militar numa calamitosa derrota, como arvoram Hassan Nassaralla, xeque supremo do Hizbola, e juiz israelense Vinograd e grande parte da sociedade israelense.

As conseqüências desses erros certamente não serão benevolentes, bastando atentar a chuva de Kassam que está caindo sobre Sderot, num desafio aberto a um Estado desmoralizado pela “derrota” frente ao Hizbolá...


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