Paz, amanhã? - por Marcos Wasserman

IMPRIMIR | FALE CONOSCO | RECOMENDE ESTE SITE

“Será que vale a pena ir viver num país que está sempre em guerra? Já pensou que um dia nossos filhos irão crescer e terão que servir ao Exército?” A resposta dada, com certo ar de superioridade, foi: “Fique tranqüila, até lá, com certeza haverá paz”. Esta foi parte de um diálogo que tive com a minha mulher, há mais de 40 anos, às vésperas de nossa aliá para Israel. Mal pisamos no porto de Haifa, em março de 1967, e estourou a Guerra dos Seis Dias. Daí para frente, os atos de terrorismo e as guerras se sucederam. E, hoje, olho para os meus netos e penso com os meus botões que, mais alguns anos, eles chegarão à maioridade civil e irão servir ao Exército. E será que as guerras continuarão? Até quando?

Fui e continuo sendo otimista. Afinal, ocorreram avanços positivos. A paz com o Egito e a Jordânia é uma realidade. Mas isto é apenas um começo. Foi um começo que parecia muito promissor, mas que não teve continuidade. Pior: todas as tentativas de ampliar o leque da paz fracassaram, seja com os países vizinhos ou com os palestinos. Em meados de novembro próximo está programado um Conclave de Paz em Washington. No momento em que escrevo essas linhas, sabe-se que haverá discursos, declarações e a palavra paz será o mote. Não está claro ainda quem participará do encontro. Quais países árabes serão convidados? E os palestinos, divididos que estão em dois territórios, dirigidos por dois ferrenhos adversários, em sangrentos conflitos, todos eles participarão?

Jerusalém parece uma diminuta e restrita filial da ONU, visitada todos os dias pelos principais líderes mundiais, e as pressões sobre o Primeiro-ministro Olmert e o Presidente da Autoridade Palestina, Machmoud Abaz, são enormes. Teoricamente, todos eles manifestam publicamente o desejo de uma solução. Como não poderia deixar de ser, há uma cortina de fumaça que certamente seguirá existindo até às vésperas do Conclave. Entrementes, a impressa divulga todos os tipos de especulações que soam otimistas. Fala-se, por exemplo, que a Cerca (e o Muro) passariam a ser uma fronteira internacional, com a anexação de 5% ou um pouco mais do território da Cisjordânia. Em troca, Israel cederia um território equivalente, que em parte serviria como um corredor terrestre de comunicação entre Gaza e Cisjordânia. Jerusalém seria dividida, como propôs uma vez o Presidente Clinton. A parte habitada pelos judeus caberia a Israel e aquela habitada pelos árabes à Palestina. E o retorno dos refugiados palestinos se faria unicamente para seu futuro Estado.

Apesar de todas as referidas especulações, na realidade não há nada de novo. Tão pouco se sabe, e ninguém pode prever se as declarações de boa vontade, por melhor que sejam as intenções, têm cunho de realidade. Por que a dúvida? Ouso pensar que o fator fundamental e mais importante é a falta de vontade política por parte da maioria dos países árabes em terminar, de uma vez por todas, com o conflito israelo-palestino. Atrevo-me a pensar que a solução deveria ser de natureza econômica. O poder econômico, resultado da riqueza do petróleo, está concentrado nas mãos de alguns países árabes. Eles têm a chave para resolver o problema, com a maior facilidade, desde que estivessem dispostos a aplicar uma pequeníssima parte de suas rendas em favor dos palestinos.

Um pouco de petróleo, traduzido em moeda corrente, poderia, num abrir e fechar de olhos, transformar totalmente o panorama do Oriente Médio. Um Estado Palestino poderia rapidamente florescer, o povo palestino sairia da miséria em que se encontra e passaria a viver com a merecida dignidade. Assegurar a existência de um futuro Estado Palestino, em saudáveis bases econômicas, esta sim seria a garantia da paz. Só assim Israel e Palestina poderão coexistir.

Oremos.

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il


PLETZ.com - informando desde 1998