O lamentável carnaval carioca - por Roberto Musatti
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É de se lamentar que o carnaval carioca de 2008, considerado ainda cartão postal brasileiro, mesmo antes de começar tenha se envolvido em controvérsia, notícia na BBC, CNN, FOX e demais redes mundiais de informação, não pelo seu esperado esplendor ou riqueza artística, mas sim por inusitado fato de mau gosto e desrespeito. Confirma-se assim que o Brasil é um país onde a realidade cotidiana convive com um mundo paralelo que beira o surrealismo, pelo seu alto grau de alienação. Desde a muito que o desfile das escolas de samba na Avenida (agora sambódromo!) deixou de ser uma festa espontânea de alegria e descontração popular, para se tornar um evento milionário (de origem dúbia) – espetáculo das vaidades nacionais, réplica tropical ao ‘tapete vermelho’ da festa do Oscar da Academia Americana.

Os diferentes temas abordados pelas Escolas de Samba - que sempre se caracterizaram pela homenagem ao folclore, aos aspectos históricos e religiosos da cultura popular nacional - têm ultimamente se afastado de suas origens com temas que cada vez menos se identificam com o cotidiano brasileiro, fruto da competição em que o evento se tornou, onde o fundamental é a vitória – e, ao que parece – a qualquer custo. O surrealismo é justamente o convívio deste mundo carnavalesco com a realidade do país e suas prioridades – de fome, péssimo atendimento na saúde pública, falta de emprego, baixa renda, infra-estrutura deteriorada e deficiências crônicas na educação (do básico ao superior). São seus detalhes que impressionam, a começar pelas novas profissões como - ‘Carnavalesco’ - artista encarregado de todas as nuances do tema, desde a escolha e criação ao atual desfile e que tem seu valor medido pelo sucesso na competição, o que exige atualmente alem da criatividade, boa dose de ousadia - e agora mau gosto - como demonstrado pelo Sr. Paulo Barros, neste ano na Unidos do Viradouro.

Embalado por sucessos em anos anteriores com temas inusitados como Teorias da Criação e DNA, alem de coreografias arrojadas em carros alegóricos, resolveu ‘ousar’ criando carro alegórico sobre o Shoá (Holocausto) com direito a cadáveres e Adolf Hitler. Bem se diz que a mercadoria mais em falta na atualidade é o bom senso – a arte de levar em consideração os diversos aspectos de cada atitude. Carnaval é antes de mais nada festa popular e não devaneio artístico. É festa, alegria, homenagem e não lembrança de fatos negros da historia universal. Picasso fez seu Guernica, retrato do terror executado por Hitler e patrocinado por Franco (que nunca quis vê-lo em solo espanhol enquanto vivo), hoje apenso no lugar correto: no Museu do Prado, onde as visitas culturais acontecem para jovens de todas as idades, todos os dias.

O Sr. Paulo Barros pode visitar e tentar adicionar sua criação artística do Shoá ao Museu do Holocausto, Yad Vashem, em Jerusalém - local onde ninguém, de simples visitantes a presidentes, consegue sair sem verter lagrimas, mesmo que disfarçadas. Dor pelas vidas humanas sacrificadas - pela primeira e única vez na historia humana - de forma metódica, programada, planejada e a sangue frio - e não como as que o este senhor verteu quando sua ‘obra’ carnavalesca teve que ser substituída por ordem judicial.

A comunidade judaica não pretende ser única no sofrimento. Carros alegóricos sobre a Inquisição, Biafra, Ruanda, 11 de Setembro e até o atual genocídio em Darfur, certamente não cambem no Carnaval – não é o local apropriado para qualquer tipo de expressão – artística, de revolta, de solidariedade ou lembrança.
A nota de protesto do Sr. Barros, sem se dar conta, enalteceu o fundamental que se propõe com a lembrança do Shoá: “ que nem algozes ou vítimas tem o direito de ocultar os fatos”. Em 2003 o Brasil deu sua contribuição ao combate universal ao racismo e anti-semitismo, tornando jurisprudência a decisão histórica dos juizes do STF no caso Ellwanger, que estipulou limites ao direito de expressão. Como soa ridícula a continuação da nota de protesto do Sr. Barros quando considera uma arbitrariedade o ato jurídico que proibiu sua manifestação artística desrespeitosa e de mau gosto, fruto segundo o mesmo, “de mediocridade e da impossibilidade de vencer as idéias”. Certamente o Sr. Paulo Barros tem pouca familiaridade com Auschwitz-Birkenau, Bergen-Belsen, Dachau, Treblinka, Sobibor, Chelmo, Maidanek, Buchenwald ou sequer pode imaginar os fatos que ali ocorreram, certamente nada medíocres ou idéias que possam sequer merecer consideração futura.

O surrealismo mencionado acima, se estende à criação do ‘Instituto do Carnaval’ na Universidade Estácio de Sá (famosa pela aprovação de um analfabeto num seu vestibular de Direito, com redação e tudo mais) do qual o médico, Dr. Hiram Araújo é diretor e ‘pesquisador’ do tema. Em respeito aos seus quase 80 anos de certamente valorosa carreira profissional e artística como escritor do tema, pode-se considerar como um deslize sua declaração á imprensa de que “a liminar que impede a alegoria de desfilar caracteriza censura à arte”. Incompreensível para alguém de seu conhecimento é sua revolta “por que no cinema e teatro se aborda o tema e no Carnaval é proibido”. Não me lembro de alguém ter ‘dançado ou sambado’ durante a exibição da ‘Lista de Schindler’ nos cinemas ou na encenação do ‘Diário de Ane Frank’ nos teatros: Tudo em seu lugar e sua hora.
Pena que no ‘frigir dos ovos’ não se de mais destaque às prioridades nacionais, inclusive de cultura e conhecimento, que parece ser este o caso, onde a desinformação e ignorância, causam embaraços e ofendem a memória, como também seria no caso especifico do Brasil, o tema Vladimir Herzog em pleno domingo de carnaval.

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Roberto Musatti é Economista (USP), Mestre em Marketing (Michigan State) e Professor Universitário


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