O Rabino e o General: Como é sublime morrer pela Pátria! - por Israel Blajberg
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Aos 90 anos, o General Ruy Leal Campello exibe o mesmo entusiasmo do tempo de Tenente. Em 2007 assumiu a presidência do Conselho Deliberativo da ANVFEB Associação Nacional dos Veteranos da FEB. Dedicado à memória dos feitos heróicos da FEB, é autor do livro Um Capitão de Infantaria da FEB, precioso relato da campanha abordando a trajetória do seu comandante Valdir Moreira Sampaio, publicado em 1999 pela BIBLIEX. Na Itália em 1944/45 foi subcomandante da 5ª. Companhia de Fuzileiros do II Batalhão do glorioso regimento da Vila Militar, que leva o nome do Patrono da Infantaria, o Brigadeiro Sampaio.

Passados 45 anos, o General tem boas recordações do Grão Rabino Dr. Henrique Lemle, sobre quem escreveu em maio de 1963, na época Tenente-Coronel, nas páginas do Boletim Informativo do Conselho Nacional da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, cujo original, cuidadosamente datilografado, o General gentilmente nos ofereceu. Era o 8 de maio, o Dia V-E, da Vitória Aliada na Europa. Ainda estavam aqui muitos milhares de Veteranos Expedicionários, que se reuniam no então recém construído Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, inaugurado em 1960.

Em 2007 esta mesma cerimônia congregou não mais que alguns poucos ex-combatentes, todos com mais de 80 anos, os remanescentes dos 25 mil integrantes da FEB, e de outros tantos milhares de marinheiros, aviadores, tripulantes da Marinha Mercante, e militares que aqui permaneceram na defesa do litoral. O culto religioso reuniu naquele domingo de 1963 a católicos, israelitas e evangélicos, em preces e sermões homenageando aqueles que tombaram. No texto publicado no Boletim, o então Tem Cel Campello destacou a cerimônia israelita, “a qual compareceram todos os dirigentes dessa Igreja no Rio, tendo a frente o Grão Rabino, Dr. Henrique Lemle.”

Intelectual e rabino consagrado já na Alemanha, o Dr. LEMLE emigrou para o Brasil em 1941, radicando-se no Rio de Janeiro, onde a sua figura carismática à frente da ARI – Associação Religiosa Israelita, com sinagoga a Rua General Severiano 170, Botafogo, marcou por longos anos uma época de ouro da coletividade judaica carioca. Pela relevância, é importante o registro desta especial passagem da sua atuação rabínica, como bem descreve o General:

“A imponência da execução do culto, a despeito da chuva inclemente que caia, foi algo de admirável. De inicio, vale lembrar a recusa do Grão Rabino em utilizar o abrigo oferecido pelo próprio Monumento, fazendo questão de realizá-lo do alto do Pantheon, afirmando que a chuva não lhe seria obstáculo, assim como não foi para os soldados que combateram na Itália. Após as preces ditas em hebraico, pronunciou curto porém incisivo e patriótico sermão”.

“Lembrou o heroísmo de nosso irmãos e de todos que, em todas as frentes de batalha haviam oferecido suas vidas em prol da liberdade. Disse da tradição da cerimônia, e da honra que para ele representava concorrer para a realização daquele culto religioso, que demonstrava o elevado espírito da democracia, onde as diferenças de credo não impediam a consecução dos mais elevados ideais da Pátria Brasileira”.

“Referiu-se, descrevendo com emocionantes palavras, ao monumento que visitara há pouco no Vale da Galiléia, em Israel, erigido em homenagem aos soldados tombados na luta pela liberdade de seu povo. Um imponente bloco de granito representando um leão, cujo olhar a infundir respeito domina o histórico vale, com a inscrição Como é sublime morrer pela Pátria!”

“Prosseguiu depois, mostrando que a Pátria orgulhosamente reverenciava a todos os seus filhos que por ela haviam morrido, destacando o esforço dos que com abnegação também, sabiam viver por ela, inspirando-se nos exemplos de nossos heróicos pracinhas, cujas cinzas estão guardadas na cripta do Monumento onde se realizava aquela cerimônia. Fácil é compreender a emoção que soube o Grão Rabino Dr. Henrique Lemle transmitir a todos os assistentes, aqui finalizando este singelo relato, prestando mais uma vez homenagem aos nossos companheiros de jornada nos campos da Itália, repetindo a frase que encerra o reconhecimento de seus concidadãos, e serve de exemplo e estímulo para as futuras gerações”: Como é sublime morrer pela Pátria!

Em conversa, o General recorda ainda hoje o simbolismo da frase. Trata-se do monumento do Leão de Judá, erigido em Tel-Hai (Colina da Vida) ao Norte de Israel, onde Josef Trumpeldor ferido de morte pronunciou as palavras cujo capital simbólico o Grão Rabino Dr. Henrique Lemle tão bem soube associar ao heroísmo dos nossos pracinhas, citando a inscrição hebraica

Ein Davar, Tov Lamut beAd Hartzeinu
Não importa, é bom morrer pela nossa Pátria.

Na batalha de 1° de março de 1920, Trumpeldor e mais sete combatentes tombaram, 6 homens e 2 mulheres, daí a cidade próxima levar o nome Kiriat Shmona, a Cidade dos Oito. Trumpeldor era russo, e havia perdido um braço no cerco de Port Arthur em 1902 na Guerra Russo-Japonesa. Foi promovido a Capitão e agraciado com a Cruz de São Jorge. Juntamente com Wladimir Zeev Jabotinski fundou o Zion Mule Corps (Jewish Legion), que integrou os Royal Fusiliers britânicos na Primeira Guerra Mundial.

O monumento aos defensores de Tel-Hai, um grande leão de pedra, representa Trumpeldor e seus camaradas, desafiador, como que montando guarda ao tumulo dos heróis, bem no alto da estrada que leva a fortaleza. Separado deste por milhares de kilometros, o nosso Monumento dos Pracinhas honra a última morada de 456 bravos, simbolizando a mesma mensagem de luta pela liberdade que o Grão Rabino Dr. Henrique Lemle manifestou.



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