O Caramuru Beduíno ou Moshé "Baratinado" - por Marcos Wasserman
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Houve uma época em que eu viajava muito para conhecer o interior de Israel. Este é um país em miniatura, geograficamente falando, mas enorme por dentro, por sua vasta e antiga História, cujos resquícios são fáceis de encontrar quase que em cada metro quadrado. Pode-se percorrer Jerusalém, por exemplo, durante meses a fio – e o tempo será insuficiente para conhecer o tesouro contido nesta cidade.

Em minhas andanças viajei muito em direção ao Sul do país, para conhecer um pouco o Neguev, que chegou a ser considerada uma região semidesértica e que hoje floresce. Para não falar do deserto do Sinai. Percorri-o várias vezes, chegando ao Convento de Santa Catarina, que fica aos pés do Monte Sinai, onde Moisés recebeu as Tábuas da Lei e ao qual subi duas vezes, uma a pé e, outra, montado num camelo. Para não falar da cidade de Gaza, e até do Canal de Suez. Todas essas são regiões de surpresas inesgotáveis.

A 30 quilômetros de Beer Sheva, considerada a capital do Neguev, ao lado do Kibutz Shoval, encontramos a tribo de beduínos Huzayel. Lá nos deparamos com um beduíno-israelense, Ahmad El Huzayel, que nos recebeu com a tradição e as honras dos homens do deserto, em um ponto obrigatório de visita de turistas. Depois de saborearmos um cafezinho amargo, como só os beduínos sabem preparar, ele nos contou algo sobre a estória da tribo. Seu pai, o xeique Salman (Suliman) El Huzayel, foi uma figura extraordinária. Ele não era uma pessoa especialmente religiosa, mas respeitava a tradição do Islã, ainda que sua vivência fosse mais laica. Ele tinha uma belíssima coleção de cavalos de raça, daí ter surgido uma amizade muito especial com o falecido ministro da Defesa de Israel Barlev, que também era aficionado por cavalos.

O referido xeique se casou com 39 mulheres. Claro, não com todas de uma vez, mas mantinha sempre quatro esposas, de acordo com a Lei Muçulmana. É fácil entender o fato de que ele teve 79 filhos. Faleceu deixando filhos, netos, bisnetos, e a família hoje atinge cerca de 4.500 pessoas. Muitos membros da família são homens de negócio, agricultores e exercem as mais diferentes profissões. Boa parte deles prestou serviço militar em Israel, como voluntários. Fez-me recordar a figura do Diogo Álvares Correia, quem, por volta de 1510, chegou ao Brasil e foi chamado pelos índios de Caramuru, Filho do Trovão, e sobre quem, nos bancos escolares brasileiros, se não me falha a memória, aprendemos que "povoou São Vicente".

Outra estória envolvendo o Sinai é um artigo recém-publicado em que se faz referência a Beni Shanun, professor de Psicologia Cognitiva da Universidade Hebraica de Jerusalém, o qual se dedicou a estudar certas plantas psicodélicas na região da Amazônia. Lá ele encontrou uma planta, denominada Ahyauasca, que teria sido usada em cerimônias místicas por várias religiões, desde os antigos Hinduístas, os Zaratrustas Persas, os Incas e os Maias. Daquela planta se extraía um líquido que produz alucinações em quem o toma.

O citado Professor refere-se também a certas plantas encontradas no Neguev, que também contêm produtos alucinógenos e são usadas até hoje por alguns beduínos. Ele cita várias plantas, entre elas, a que se denomina em hebraico Shitá, e nos deparamos, na tradução para o português, que ela é conhecida pelo nome de acácia, citada muitas vezes no Pentateuco e que era usada pelo Povo de Israel a caminho da Terra Prometida.

A partir daí o referido Professor se refere a Moisés – Moshé Rabeinu –, que ao fazer uso de tais plantas teria tido a ilusão da "sarça ardente", enquanto ouvia a voz de Deus dirigir-se a ele. Em outras palavras, Moisés teria estado "baratinado". É certo, diz ainda o Professor, que "não é qualquer um que, utilizando a tal planta, pudesse trazer as Tábuas da Lei; para isso só poderia ter sido Moisés". É uma teoria no mínimo extravagante. Felizmente os judeus são muito liberais, gostam de folclore e até fazem piadas sobre coisas sagradas de sua própria religião. Por isso ninguém se atreveria a ameaçar de morte o referido Professor por crime de heresia!

Vale a pena percorrer o Neguev de olhos bem abertos.

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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il


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