Balfour e Partilha - por Herman Glanz
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Neste mês de novembro três fatos interessantes se destacam: há noventa anos, no dia 2 de novembro, foi apresentada a Declaração Balfour, pela qual o governo britânico se comprometia com a criação do Estado de Israel na Palestina. A Palestina, em 1917, já se achava ocupada pelo Império Otomano durante quatrocentos anos, e acabara de ficar livre com a derrocada desse Império na Primeira Grande Guerra. O território da Palestina de Balfour abrangia Israel de hoje, com toda a Margem Ocidental, Gaza e Golã, e ainda a Jordânia. Essa Declaração foi fruto do trabalho do Movimento Sionista, deslanchado em 1897, há cento e dez anos, portanto. Para levar a cabo a criação de Israel, foi conferido aos ingleses um Mandato sobre o território da Palestina, o que ficou conhecido como Mandato Britânico. Mas, em 1922, o mesmo governo britânico suprimiu todas as terras da Palestina situadas do lado da Margem Esquerda do Rio Jordão, representando mais de 75% de sua superfície, nelas criando o Emirado da Transjordânia, hoje Jordânia. Essa Declaração Balfour foi levada à Conferência de Versalhes no final da Primeira Grande Guerra.

A Palestina, quando ocupada pelo Império Otomano era até maior do que a Palestina antes descrita, pois incluía partes do que hoje é o Líbano e Síria; a atual cidade libanesa de Sidon, por exemplo, era situada na Palestina. Todavia, as Grandes Potências da época, França e Inglaterra celebraram acordo para dividir o butim da Guerra. Assim foram criados nos territórios abandonados pelos turcos, o Líbano, a Síria, o Iraque, a Arábia, que depois foi tomada pela família Saud. (Hoje, a Arábia Saudita é um país de uma família – os Saud). Foi para resolver a confusão em que a Inglaterra se metera, tentando passar a França para trás, que precisavam os britânicos de um lugar, e o acharam suprimindo uma grande parte do território destinado a Israel, criando mais um país árabe, o então Emirado da Transjordânia, pensando em também solucionar toda disputa que surgia entra árabes e judeus na Palestina.

Essa disputa passou a ocorrer depois da Primeira Guerra, porque durante o governo turco, houve o retorno de judeus sionistas, que criaram cidades, kibutzim e moschavim. Tel Aviv, por exemplo, foi fundada antes da Primeira Guerra. Em conseqüência da atividade econômica provocada pelo sionismo começou a atração de massas árabes, em busca do trabalho que não dispunham noutras áreas do Império Turco. Veja-se que nada menos do que Karl Marx, que não era simpático aos judeus, em artigo de 1854, citava uma maioria absoluta judaica em Jerusalém; outras áreas da Palestina eram quase desertas. Assim, com a vinda dos árabes dos territórios vizinhos, foi se formando uma maioria árabe, conseqüência do sionismo, gerando a disputa no vácuo deixado pela queda do Império Otomano. O sionismo produzia um auto-conflito, quase destrutivo, que persiste até hoje.

Trinta anos depois da Declaração Balfour, o segundo fato se apresenta: em 29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral das Nações Unidas, sob a Presidência do representante brasileiro, Oswaldo Aranha, aprovava a Resolução nº 181, que criava o Estado de Israel e outro Estado árabe, dividindo a área da Margem Direita do Jordão, ou seja, nos quase 25% que sobraram da Palestina, no que ficou conhecido como a Partilha da Palestina. O Movimento Sionista aceitou essa Partilha, mas os árabes não a aceitaram e partiram para a guerra. A Independência de Israel foi proclamada em maio de 1948, quando terminava o Mandato Britânico sobre a Palestina. Os países árabes vizinhos invadiram o novo Estado, desencadeando uma guerra que terminaria no armistício de 1949.

Foi nessa guerra de 1948 que o Egito tomou a Faixa de Gaza, a Transjordânia tomou a chamada Margem Ocidental, nome derivado de Margem Ocidental do Reino Hashemita da Transjordânia. Em virtude da existência dessa Margem Ocidental, a Transjordânia alterou sua denominação para Jordânia, por não ser mais, na ocasião, um país apenas de um lado do Jordão. E foi nessa Guerra que fizeram os países árabes vizinhos ao nascente Estado de Israel, que a Síria tomou o Golã, que não era território sírio, tal qual a Faixa de Gaza não era território egípcio e a Margem Ocidental não era território jordaniano. A Resolução nº 181 referida, ao descrever os territórios divididos fala em Judéia e Samária, porque não havia, ainda, a tal Margem Ocidental, que muita gente acha que, falar em Judéia e Samária, é implicância daqueles que pregam um Grande Israel. Nada disso: é o nome local.

E, função da boa ação sionista, gerando empregos, foi que se criaram os problemas que se estendem, até hoje, e que se tenta solucionar, mais uma vez, na Conferência de Anápolis, Maryland, ainda no corrente mês. E ninguém acredita que venha uma solução. O Primeiro Ministro de Israel fala em solucionar os pontos importantes do conflito dentro de um ano.

O grande problema que se apresenta é que há uma deformação dos fatos. Ouve-se muito falar em respeito aos direitos de árabes palestinos, mas ninguém fala em direitos do povo de Israel, que não são respeitados pelos palestinos de hoje. Dos tempos em que Karl Marx indicava maioria judaica, com o impedimento do retorno dos judeus e a liberalidade para a migração árabe, uma maioria da população foi sendo criada com árabes, hoje ditos palestinos. Palestinos, desde tempos dos romanos, eram os judeus. Até isso se inverteu. Esquecem-se os defensores dos direitos humanos que os judeus foram expulsos e impedidos de voltar durante muito tempo. Até o Golã dizem ter sido tomado da Síria, quando na realidade se deu exatamente o contrário. Como, aliás, ocorreu com os chamados territórios ocupados. Que se fale em descartar territórios com maioria de população árabe, mas não em quarenta anos de ocupação israelense. E, diga-se, que foi o desenvolvimento de Israel e a astúcia árabe que inchou esses “territórios ocupados”.

A esperança é de uma paz justa, e é essa justiça que está difícil. Que se reconheça o direito de Israel, que até a esquerda, que tem em Karl Marx um líder, nega, por conveniência, deixando de lembrar dos tempos de maioria judaica, que não foi há tanto tempo assim. O terceiro fato foi a visita do Presidente do Egito, Sadat a Jerusalém, em 1977, da qual resultou a paz com o Egito, que anda a duras penas, mas há paz. Sadat pagou com a vida esse gesto. Mas ainda não se chegou a uma paz com os palestinos, esses vizinhos, que se tenta, agora, começar a abrir o caminho, na Conferência de Anápolis.

Que haja paz!

A seguir, fotocópia da Declaração Balfour:


Fotocópia do texto manuscrito por Ahad Haam, como proposta a ser levada à Conferência de Versalhes:


A seguir, a primeira página da Resolução nº 181 de 29/11/1947


Página da resolução 181 falando em Samaria:


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