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Somos todos gregos e judeus (fev / 2010)
Somos todos gregos e judeus

Nossa civilização veio de uma curiosa fusão de valores vindos da antiguidade

O mundo antigo foi dominado por uma sucessão de grandes impérios. Babilônios, egípcios, persas, macedônios e por fim, romanos fincaram seus estandartes por toda a parte, das costas atlânticas da Espanha, passando por um sem número de terras e povos e chegando até os caudalosos rios que margeavam a Índia. No entanto, em termos culturais, quem marcou mesmo terreno foram dois pequenos povos confinados em áreas geográficas bastante restritas. Judeus e gregos trouxeram inovações para o pensamento, para a literatura e para a cultura que, após um longo período de intercâmbio e evolução, forjaram o mundo ocidental como o conhecemos. Tal intercâmbio, ora marcado pelo deslumbramento mútuo, ora estranhamento, foi decisivo na criação do nosso modo de ser.

Monoteísmo não foi exatamente uma invenção judaica. Antes de nós, alguns outros povos antigos já praticavam versões primitivas de um proto-monoteísmo. O Ahura Mazda dos persas não deixava nada a desejar, em termos de onipotência, em relação à nossa versão de Deus. Também já existia bastante cristalizado o conceito de pureza e do sagrado. Rituais de purificação eram conhecidos por diversos povos e templos eram usados para esse fim. O conceito de pureza moral, entretanto, era inexistente. Coube aos judeus pela primeira vez na história definir um código que estabelecia a necessidade do ser humano se elevar não apenas através do ritual e do sacrifício, mas especialmente através do comportamento moral frente ao seu próximo. Já havia códigos de leis. O código de Hamurabi Babilônico, antecessor da Torá em pelo menos 300 anos, já prescrevia as diversas punições para o assassinato. Dependendo do ranking ou da posição social da pessoa morta, em relação àquela que perpetrou o crime, a punição era ajustada. Foi o código judaico, entretanto, que clara e firmemente determinou a completa proibição do assassinato, não importando quem o causou e quem o sofreu. Era a primeiro vez em que a vida humana foi categoricamente e universalmente caracterizada como sagrada.

O conceito de proteger os fracos é judaico. Nenhum povo antigo deixou qualquer registro de que havia preocupação com o bem estar dos pobres, dos escravos, das viúvas. Até o advento da moral judaica, a vida era uma sucessão de vitórias dos fortes, que invariavelmente eliminavam os fracos. O judeu não só exigiu que se desse importância aos que estão embaixo, mas efetivamente colocou essa preocupação como uma atividade fundamental aos olhos do criador. O povo era julgado não pelas suas conquistas bélicas ou territoriais mas sim pelo progresso moral. Juízes e profetas que prediziam a destruição de Israel não o faziam alegando que éramos fracos militarmente e sim previam o fim do reino devido às fraquezas morais, ao orgulho, ao mau trato dos pobres. Séculos depois, essa idéia viria a ser expandida e universalizada através do cristianismo, que chegava em algumas seitas até a pregar a superioridade moral do pobre sobre o rico como uma das leis do universo.

A visão de mundo judaica diferia em outro aspecto radicalmente de tudo o que se tinha visto até então. As sociedades antigas tinham uma visão cíclica do mundo. Para eles, a existência era uma sucessão de ciclos idênticos em que a cada nova estação, renovava-se a situação do homem na terra para patamar idêntico ao anterior. Não se estava indo a lugar nenhum, apenas vivia-se. O objetivo do homem era agradar aos deuses para que estes mostrem-se generosos e permitam a passagem das estações com harmonia e colheitas fartas. Nada disso era aceitável na visão judaica. Os judeus introduziram a idéia da redenção espiritual e material do homem. O mundo sim está se movendo para algum lugar. O homem sim existe para dar forma ao plano divino e quando esse plano for alcançado, o mundo deixará para sempre a atual situação e entrará numa outra, mais elevada. Os judeus introduziram a idéia de progresso ao mundo, ainda que, há três mil anos atrás, tal progresso seja manifestado no campo espiritual e não científico. Os judeus, pode se alegar, foram os primeiro otimistas, confiando radiantes na idéia de que estamos caminhando rumo a um mundo melhor e que cabe a cada um ajudar a construí-lo usando nosso próprio comportamento como matéria prima.

Dificilmente poderia ter um povo mais diferente dos judeus do que os gregos. Em contraste ao nosso rigoroso monoteísmo, os gregos desfilavam uma infinidade de deuses, deusas e semi-deuses, repletos de características humanas e efetivamente interagindo com os homens. Provavelmente nossos sábios da época de Chanuka ficavam de cabelo em pé ao ver aqueles brancos atléticos semi-nus contando sobre os episódios de inveja, traição e relação afetiva entre os heróis antigos e os próprios deuses. Enquanto judeus se vestiam com modéstia e cuidavam das ovelhas, os gregos usavam cores vivas e treinavam no ginásio. Os judeus aspiravam estar próximos do criador e entendiam que quanto mais elevada espiritualmente fosse uma vida, melhor seria o destino daquela alma. Os gregos viam a questão dos deuses de forma diferente: para eles, não se deve ser nem muito bom naquilo que se faz, para não despertar a inveja dos deuses, nem mau demais, para não incorrer em sua ira. O homem deve estar sempre “abaixo do radar” e torcer para ser ignorado, se ele quiser levar uma vida tranqüila. Os deuses eram mais um incômodo, uma raça superior que às vezes brincava com os destinos, do que verdadeiramente os criadores do mundo.

O individualismo talvez seja a grande contribuição grega ao nosso mundo. A idéia de que uma pessoa possa ser o melhor que sua capacidade a levar, que ela deve ser excelente atleta, guerreira feroz, pensador de renome, enfim, que o objetivo da vida é se destacar e modificar o mundo a sua volta através da criação humana, essa idéia é grega. Seria impensável vermos na Torá um episódio em que Abrão, Isaac e Jacob batessem no peito e, grunhindo, resolvessem fazer um concurso para ver quem consegue atirar mais longe uma pedrona. Pois isso seria algo bastante plausível para os gregos e, efetivamente, desde o século VIII aec já vinham praticando esportes e competições, como as Olimpíadas e os concursos de teatro. Em tudo os gregos competiam e isso foi uma marca que ficou até hoje. Como sabemos, a competição saudável é o principal motor do progresso. É da disputa entre pessoas, empresas, movimentos, onde cada um dá o seu melhor esforço, que se produz os avanços da sociedade. Não se pode imaginar que o mundo teria chegado ao atual patamar científico, tecnológico, médico sem a idéia grega de que cada um deve ser o melhor que puder.

A democracia e a idéia do regime de leis é grega. No século IV aec. um gigantesco exercito persa cruzou o estreito de Dardanelos rumo ao coração da Grécia. Perto do que era a Pérsia da época, simplesmente o maior império que o mundo já tinha visto, os gregos não eram nada. Seria o mesmo que os Estado Unidos de hoje declarassem guerra contra o Estado de Sergipe. Imediatamente, uma liga de cidades estado gregas se formou para conter o avanço inimigo e defender o País. Apesar de terem apenas uma fração dos soldados de que a Pérsia dispunha, os gregos contavam com o conhecimento do terreno, com suas excelentemente treinadas falanges de infantaria e com uma idéia fixa na cabeça. Até então, as inúmeras guerras que tinham sido travadas no mundo eram a respeito de qual rei ou imperador iria triunfar. O rei que ganhasse ficava mais forte e o outro perdia o poder, a cabeça, ou ambos. Nenhuma mudança fundamental estivera em jogo até então. No entanto, quando aqueles gregos de diversas origens pela primeira vez se enfileiraram para batalha, ficou claro a eles que estavam defendendo algo distinto. Não havia rei, não havia imperador. Eles eram cidadão livres lutando em nome da democracia e do regime de leis. Se fossem derrotados, a liberdade que haviam construído desapareceria com eles. Como sabemos, após uma seqüência de duras batalhas, como Maratona, Thermopilas e Salamis os gregos finalmente derrotaram os invasores e iniciou-se uma era de ouro de criação e cultura. Existe um consenso entre os historiadores de que tais batalhas foram o marco inicial da idéia de governo representativo, regime de leis e liberdade individual, idéias estas que estão cristalizadas no mundo de hoje e sem as quais não imaginamos viver.

O império que finalmente unificou os dois sistemas de pensamento foi o romano. Copiando a filosofia, o governo, o foco na racionalidade dos gregos e mais para frente, via Cristianismo, incorporando os conceitos morais judaico-cristãos, foi dada a partida para se formar o mundo como o conhecemos hoje.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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