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Peteleco no Dominó (out / 2009)
Peteleco no Dominó

A Al Qaeda pode ter dado um tiro no próprio pé

Recentemente, dando mais mostras de impetuosidade, a Al Qaeda decidiu antagonizar mais um grande player da geopolítica mundial. Ate recentemente de fora dos conflitos com os fundamentalistas, a China foi ameaçada pela turma de Bin Laden, que conclamou a minoria étnica dos uigures a se insurgir contra o regime de Beijin. Grupo antigo, oriundo da mistura dos povos da estepe nômades com os chineses e convertidos ao islã após a virada do primeiro milênio, os uigures estavam relativamente calmos ate os distúrbios recentes. Quer dizer que um bando de caras nas cavernas do Afeganistão incitam outro bando de caras nos confins da China. E dai? A verdade é que esse incidente aparentemente sem importância pode ter um efeito dominó no grande cenário da política externa mundial. Essa semana a China respondeu com força, prendendo centenas de uigures e atacando ninhos fundamentalistas em seu território. Aparentemente, a liderança chinesa esta começando a perceber que não é possível simplesmente lavar as mãos em relação a ameaça do fundamentalismo islâmico, esperando que esse volte sua fúria tão somente contra alvos nos EUA e na Europa. Se a China não contribuir para a contenção dessa ameaça, está claro que os danos podem recair sobre o próprio território chinês.

A boa notícia é que essa tendência pode tornar a China um player muito mais responsável dentro do contexto internacional. Uma mudança de atitude nesse sentido por parte de Beijing seria muito bem vinda. A posicao oficial do governo chinês ate agora é estar aberto aos negócios com quem quer que seja.
No topo da agenda chinesa está a necessidade de expansao e a busca pelas matérias primas essenciais para alimentar a crescente máquina econômica. Se isso significa fazer alianças e dar cobertura diplomática para governos genocidas e ditaduras opressoras, como a da Coréia do Norte, o Sudão e o Irã, tanto faz, desde que nada atrapalhe o fornecimento de insumos. Esse último caso, o Irã, como sabemos tem impactos estratégicos sobre Israel.

Para o pequeno Estado Judaico, nenhuma ameaça se compara em grandiosidade ao Irã nuclear. Qualquer guerra com os palestinos é fichinha perto da encrenca que teríamos enfrentar quando (e se) o Sr Ahmadinejad puser suas mãos numa arma atômica. Além do perigo óbvio de o Irã disparar mísseis diretamente contra Israel (o que causaria sem dúvida retaliação apocalíptica), ainda há o perigo de proliferação entre os países árabes e dos terroristas colocarem a mão nessas armas. Israel já destruiu os reatores iraquianos na década de 80. Sem duvida a opção militar de ir lá e tentar o mesmo no caso do Irã está na mesa. No entanto, dessa vez não seria nada fácil para Israel atacar simultaneamente quatro usinas enterradas fundo dentro de bases militares e no dobro da distância em relação ao caso do Iraque. Nem mesmo os americanos, que têm uma poderosa frota na vizinhança têm confiança de que tal operação seria bem sucedida e realmente desativaria o programa nuclear iraniano definitivamente. Se for o caso de atacar simplesmente para que as instalações sejam reabertas em poucos meses faz pouco sentido o caminho militar.

Por enquanto, a melhor forma de mudar o curso no Irã seria a adoção das mais duras sanções econômicas contra o País. O Irã veria seus navios no estrangeiro apreendidos, suas contas no exterior congeladas, seria impossibilitado de vender petróleo para pagar os custos nem importar os bens essenciais. A economia entraria em colapso e a pressão seria irresistível para o País ceder na questão nuclear. Infelizmente tais sanções precisam de aprovação do Conselho de Segurança da ONU, sendo que Rússia e China têm exercido poder de veto. Esses dois têm colocados interesses econômicos de curto prazo (a Rússia quer vender material bélico e a China quer comprar
petróleo) na frente de interesses estratégicos de longo prazo. Dos dois, a China é o mais importante, pois seu comércio com o Irã é muito maior do que o russo. É a esperança desse autor que a China comece a perceber que esse petróleo que está obtendo hoje do Irã pode custar centenas de milhares de vidas, talvez até de chineses, no futuro. Um Irã nuclear é o primeiro passo para a nuclearização total de países pobres e instáveis no Oriente Médio, com o conseqüente risco de vazamentos de armas para grupos terroristas.

Al Qaeda empurrando uigures empurrando chineses empurrando o Irã a parar o programa? Pode ser um caminho tortuoso, mas no dominó das relações internacionais eventos pequenos podem ter conseqüências cataclísmicas. Em
1914 um jovem sérvio chamado Gavrilo Princip deu um tiro fatal no herdeiro austríaco. O que deveria ser um incidente absolutamente local deu início a uma rápida seqüência de eventos que trouxe a Primeira Guerra Mundial e depois a segunda. Quem sabe esse evento relatado aqui pelo seu autor não evite a terceira.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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