IMPRIMIR ARTIGO     |     ÍNDICE DE ARTIGO      |     FALE COM O NANI     

O Barmitzvometro (ago / 2009)
O Barmitzvometro

A intensidade da Hora é o melhor indicador de identidade judaica que existe


Esse autor que vos escreve acaba de sair de um Bar Mitzva. Como de praxe em tais circunstâncias, o garoto de 13 anos encontrava-se na frente, terninho e gravata ajeitados, Talit em volta do pescoço, recitando as rezas e os trechos da Torá com a doce voz dos impúberes. Mostrou destreza e tranqüilidade na execução dos dizeres estudados cuidadosamente nos meses anteriores. Até aí nada de muito diferente de outras cerimônias semelhantes. Um certo nervosismo é natural em um garoto tão jovem na frente de trezentas pessoas. Varia um pouco a quantidade de erros de um para o outro, as desafinadas ocasionais que alguns dão, enquanto outros performam como rouxinóis, mas de resto era uma linda cerimônia de maioridade. Entra a banda e começa a tocar música judaica, em alto volume e em tom animado. “Chava Naguila”, “Siman Tov Umazel Tov”, “Ani Maamim” e muitas outras do conhecido repertório. No entanto, apesar da presença de um mar de gente, incluindo pelo menos uma centena de jovens, praticamente ninguém foi à pista. Os pais do garoto começaram a puxar um pessoal para a roda e um ou outro, os mais próximos do jovem, se sentiram na obrigação de ir dançar. Durante umas três ou quatro músicas, ensaiou-se uma pequena roda de familiares mais próximos, umas vinte pessoas, tentando cumprir o ritual de ter dança judaica, mas o espetáculo não convencia. Talvez porque eles próprios não estavam acostumados com isso; praticamente nenhum participa ativamente da vida judaica. Em volta, as centenas de convidados se espalhavam para observar o espetáculo que, aparentemente, não era com eles. Sim, levantou-se o rapaz na cadeira. Sim, deram algumas voltinhas ao seu redor. Mas tudo rápido, tudo com pouca gente e pouca convicção. Após alguns minutos, sobrou apenas uma roda indecisa de gente parada batendo palmas e deixando o garoto lá no centro, meio sem saber o que fazer. Todos respiraram aliviados quando a coisa logo se encerrou, a música judaica foi substituída, entrou um Hip Hop americano das discotecas e aí sim a pista finalmente lotou de jovens e a festa começou a pegar fogo.

O casamento de um conhecido meu também se desenrolou de forma similar. Ele tem origem judaica, os pais são judeus, mas o rapaz nunca ligou muito para a comunidade. Estudou em colégios laicos a vida inteira, a família nunca foi envolvida na comunidade, a maioria dos amigos são não judeus, nunca estudou nada de judaísmo, acabou casando com uma garota não judia, mas na festa de casamento escolheu que queria sim quebrar o copo de vidro e que queria sim música judaica. Pelo que vira das festas judaicas de alguns conhecidos, achou que seria animado ter dança Hora. Tarde demais. Havia música judaica mas não havia sentimento judaico ali. Dançou-se forçadamente umas três ou quatro músicas enquanto a massa de convidados olhava distante. A festa começou mesmo com as músicas modernas americanas, como se a dança judaica fosse parte da cerimônia: algo para ser executado, algo obrigatório. Ninguém sabia responder porque a coisa não se desenrolou como nas festas que eles já tinham visto da comunidade. A banda estava lá e era competente. O som estava funcionando.

Qual é a forma mais eficaz de se medir a identidade judaica de um grupo ou indivíduo? Freqüentar a sinagoga ou não é um mau indicador. Apesar de haver gente que goste de ir à sinagoga, grande parte dos jovens só vai para agradar os pais e avós. Então ir ou não ir não é necessariamente um indicador de sentimento judaico. Conhecimento de judaísmo também não é ideal como indicador. Até acredito que quanto maior o conhecimento, maior o sentimento, mas isso não é uma relação linear. Existe gente que se identifica fortemente como judeu e sabe muito pouco. Outros estudam judaísmo a fundo e alguns até seguem essa área academicamente, mas não necessariamente se identificam como judeus. Muitos nem o são. Ter o “sangue puro”, seja lá o que isso queira dizer para certos segmentos mais racistas da nossa comunidade, nem se fala.

Na falta de algo melhor, vou me ater ao Barmitzvometro. Recém criado (por mim), esse indicador aponta o quanto um determinado grupo ou indivíduo se engaja na Hora durante uma festa judaica. Apesar do nome, obviamente ele se aplica também a casamento, Brit Mila, Chaguim e demais celebrações. Isso me faz lembrar do casamento de um outro amigo, ocorrido recentemente num Buffet da zona sul da capital. Tendo sido Chanich e Madrich em colônia de férias judaica, tendo formado uma grande turma de amigos judeus ao longo dos anos, tendo conhecido, namorado e finalmente casado com uma garota judia que conheceu nessa mesma colônia, lá estava ele, meu amigo, no centro da pista, quando as primeiras notas do “Siman Tov Umazel Tov” começaram a tocar. Ah aquelas notas! Levaram uma mensagem instantânea para cada jovem que estava naquele salão. Uma multidão invadiu a pista instantaneamente. Uma massa fenomenal de gente, centenas de pessoas, pulando, dançando e se amontoando, disputando cada centímetro daquele centro. Era uma euforia irresistível. O som permeando cada célula dos que estavam ali no meio e todos sentiam, ainda que de forma inconsciente: “eu sou judeu, eu pertenço a isso, isso pertence a mim e me orgulho de fazer parte”. Não importava ali quem era mais religioso ou menos, uns comiam kasher, outros comiam salame. Uns nasceram judeus outros se tornaram judeus mais tarde. Durante quase uma hora, aquela energia contagiante balançou o salão. Quando a banda finalmente parou de tocar, as pessoas estavam tão empolgadas, tão suadas, tão amassadas umas nas outras que começaram a cantar sozinhas durante mais alguns minutos, não queriam que aquilo acabasse.

Se uma pessoa estudou em escola judaica e/ou freqüentou movimento juvenil e/ou teve um bom exemplo judaico em casa, enfim, se foi realmente EDUCADA COMO JUDEU, durante a festa, na Hora, e na vida, aparecerá a identidade judaica. O Barmitzvometro não mente.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

Site produzido e hospedado por PLETZ.com