O Judeu da Kipá Vermelha
Alguns Significados do Rabino Sobel
O que faria uma pessoa sair de casa numa segunda feira a noite, deixar o filho pequeno e passar mais de três horas dentro da sala São Paulo escutando discursos? Se você respondeu "Rabino Sobel" acertou. Centenas e centenas de pessoas, incluindo aí Gilberto Kassab, Geraldo Alkmin, Jose Serra e outros, estiveram presentes nessa última segunda feira na homenagem a Henry Sobel, organizada por amigos do Rabino. Ocorrido na Sala São Paulo, com apresentações de Zizi Possi e da Sinfônica Heliópolis, o evento foi bem organizado e de bom gosto. A primeira pergunta que me veio à mente é: que tipo de pessoa, atualmente não ocupante de qualquer cargo institucional que seja e desprovido de quaisquer poderes formais, conseguiria juntar tão notável platéia para uma homenagem? Certamente alguém extraordinário é a resposta. No caso de Sobel, estamos falando de alguém extraordinário em vários sentidos.
O evento começou com uma seqüência de discursos. Falou o ex-ministro Celso Lafer, o secretário Walter Feldman, o presidente do Conselho Latino Americano Jack Terpins, o prefeito Kassab, Serra e outros. Com maior ou menor habilidade oratória, todos deram a sua mensagem de carinho ao Rabino. Cumprido isso, o próprio Sobel foi chamado ao palco para passar a sua mensagem. E que mensagem! Não é todo dia que se dá um banho de eloqüência nos políticos mais graduados do Brasil. Sobel passou uma poderosa mensagem sobre a relação entre a existência judaica e a brasileira, criou imagens na cabeça de cada ouvinte sobre os dois lados que existem em cada moeda, amarrou eruditamente com os ensinamentos de Maimônides e sua condição simultânea de judeu e espanhol. O olhar passava pela platéia, fazendo cada um se sentir como se o discurso fosse voltado para si, os tons de voz variando perfeitamente conforme o conteúdo que estava sendo falado. As palavras chave sendo pronunciadas sílaba a sílaba. E a cada frase e em pontos importantes uma pausa estarrecedora... ah, as pausas daqueles que realmente sabem falar... São as pausas que dão o poder para os discursos, que são o chamamento e provocam curiosidade sobre o que será falado em seguida. Sobel é extraordinário porque tem o dom da palavra.
Certa vez quando perguntaram ao Rabino se os judeus acreditam em Jesus. Era uma entrevista para um programa cristão e a pergunta colocava qualquer um numa situação delicada. Dizer que acreditamos certamente estava fora de questão, pois seria mentira. Dizer que não acreditamos seria bater de frente com a crença mais querida daquela platéia. Sobel pensou um pouco, sorriu e disse: "Meu querridow, nós judeus acreditamos que o Messias ainda está para chegarrr. Vocês, cristãos, acreditam que ele já veio, foi embora, mas vai voltarrr. Então uma coisa nós concordamos: ainda vem alguém pela frente. Então, quando Ele chegarrr, nós perguntamos para Ele: 'Senhorrr, essa é a primeira ou a segunda vez que o Senhorrr está passando por aqui'". A platéia foi cativada instantaneamente. Eles entenderam o pensamento judaico de uma forma carinhosa e com respeito. Essas e outras habilidades foram tornando o Rabino mais e mais conhecido, dentro e fora da comunidade. Na inauguração de uma fábrica no interior de Minas Gerais, Sobel foi convidado a fazer uma benção para dar boa sorte ao empreendimento. No momento em que a marcante kipá vermelha começou a circular entre os operários, escutei de uma senhora falar "ei, olha lá aquele padre judeu que aparece na TV". Logo, todos estavam comentando a respeito da celebridade que tinha passado na pacata cidadezinha. Não consigo imaginar que exista nenhum judeu hoje ou anterior na história brasileira com tamanha fama entre o público não judeu e tamanho trânsito entre as autoridades do País. Do vereador ao Presidente da República, Sobel conseguiu portas abertas para a comunidade. Precisamos reconhecer e agradecer por isso. Sobel é extraordinário porque tem o dom da política.
Esses dons são extraordinários, mas sendo bem franco, se fosse apenas por eles eu teria ficado em casa com minha família naquela noite e concederia ao rabino apenas uma respeitosa aprovação à distância. Eu pensaria, afinal, que não preciso dele e muito menos ele precisa de mim, pessoalmente. Uma qualidade do Rabino que se sobressai às demais me impulsionou a estar lá comemorando com ele essa homenagem. Acima de tudo, ele é alguém que, mesmo por poucos preciosos segundos, me faz sentir como se eu fosse o centro do universo. Com todos os seus afazeres e ocupações, quando me vê abre um enorme sorriso, volta cem por cento de sua atenção para mim e demonstra interesse e afeto genuínos. Essa semana no evento, sentado entre Serra e Kassab, após ter cumprimentado pelo menos umas quinhentas pessoas, ele me viu, me chamou pelo nome e perguntou se meu filho já tinha feito um ano (realmente, fez aniversário recentemente). Muitos dos que conhecem Sobel pessoalmente devem saber exatamente do que eu estou falando. E ninguém consegue ser assim tão afetuoso, tão atencioso, com praticamente todo mundo, durante tanto tempo, se não o fizer genuinamente. O Rabino Sobel realmente gosta das pessoas e a atenção que ele dispensa a cada um, mesmo que por pouco tempo, é extraordinária.
Existem pessoas que derivam seu poder de cargos e títulos. Outros usam a violência para obter o que querem. Sobel possui um poder ainda mais profundo e duradouro, oriundo daquele magnetismo pessoal que se encontra em figuras como Ghandi ou Martin Luther King. Recentemente, como sabemos, um episódio abalou a vida do Rabino profundamente. Talvez ele não saiba, mas essa pode ter sido o seu mais recente ensinamento, ainda que obviamente involuntário. Claro que as pessoas devem ser assumir seus próprios atos e Sobel também se inclui nessa regra comum a todos. No entanto, para nós fica disso tudo a oportunidade de aplicar duas máximas defendidas pelo Rabino toda a vida: não fazer julgamentos dos outros e concentrar nossas atenções nas coisas boas que as pessoas fazem. Todos estão sujeitos a erros e acertos, sem exceção, faz parte da condição humana. E, como disse Henry Sobel no evento, "O Divino é Ser Humano".
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
|