Um Tapinha não Dói
O melhor que Obama poderia fazer por Israel seria endurecer sua posição em relação ao Estado Judeu
Todo amigo precisa escutar umas verdades de vez em quando. Toda criança precisa de um certo grau de severidade dos pais quando ela está indo no caminho errado. O mesmo pode ocorrer com países inteiros. Tradicionalmente,o lobby judaico tem como política pressionar os diversos governos,especialmente o dos EUA, a apoiar Israel seja qual for o contexto. Certo ou errado, tomando medidas sensatas ou exaltadas, a idéia é sempre tentar alinhar a posição americana à israelense custe o que custar. Apesar de confortável no curto prazo, esse caminho pode ser péssimo para a sobrevivência do Estado Judeu mais à frente. Mais importante do que avalizar o que quer que Israel faça, os Estados Unidos precisam deixar claro que um
acordo negociado com os palestinos deve ser perseguido independente de qual governo esteja comandando o Knesset (no caso, aparentemente o governo Bibi).
Dois países, Israel e Palestina, convivendo lado a lado. Israel retorna para as fronteiras de 1967, com pequenos ajustes de modo que retenhamos os 3 principais blocos de assentamentos e os palestinos recebam em troca terrasde tamanho e qualidade equivalentes. Jerusalém dividida em duas partes, sendo a parte ocidental capital judaica e a parte oriental capital árabe, com supervisão internacional para os lugares santos. Palestinos recebem
direito de retorno simbólico para os seus refugiados, sendo que somente uma parcela minúscula e controlada efetivamente vai morar dentro de Israel, os demais recebendo algum tipo de compensação financeira a ser paga por Israel, países árabes, EUA e Europa. A Palestina se torna um pais soberano, porém desmilitarizado, com uma ligação própria entre Gaza e Cisjordânia passando pelo território israelense.
Basicamente a configuração acima é a solução definitiva que praticamente todo o alto escalão tanto em Israel como na Palestina sabe que será a adotada no final da linha. Ela é a mais vantajosa possível para nós? Não. Mas é uma boa solução, uma que pode ser vendida como justa para ambos os lados e que tem o mérito de não cruzar as linhas vermelhas de cada um. O que fica no ar é quanto tempo e quanto sangue serão necessários até que ambos
lados estejam exaustos o suficiente para adotá-la.
Nossos cantores de funk poderiam ensinar a Barak Obama a respeito da
política do "um tapinha não dói". Ou seja, ao mesmo tempo em que apóiam Israel e demonstram amizade em relação ao País, os Estados Unidos deixariam claro para o Estado Judeu que a solução de dois Estados descrita acima deve ser perseguida rigorosamente e que os EUA não tolerarão procrastinação. Isso seria particularmente crítico num momento como esse, em que o líder do Likud, Bibi, ainda balança entre a estratégia de formar uma coalizão centrista com o Kadima ou costurar uma liga de partidos de extrema direita. Obama deve dizer claramente que, apesar da política interna de Israel ser assunto interno nosso, qualquer governo que emergir e que não esteja comprometido com a solução de dois Estados será visto com desconfiança em Washington.
É muito comum lermos na imprensa judaica a respeito das falhas dos
palestinos, tanto as reais quanto as imaginárias. Entre elas estão a
fragmentação da liderança, a corrupção e, no caso do Hamas, o não
reconhecimento de Israel e a insistência no uso de violência contra civis. Mas o que dizer das nossas falhas?
De todas as falhas cometidas por Israel, nenhuma se compara aos
assentamentos. A partir de 1967 e mais intensamente após 1977, Israel
construiu centenas de assentamentos judeus dentro dos territórios
palestinos. Essas construções continuaram sob governos de esquerda ou
direita, durante a guerra ou durante avanços no processo de paz. Do ponto de vista árabe, esse fato é um tiro no coração do processo de paz e uma declaração por parte de Israel de que os judeus jamais aceitarão a existência nacional palestina. Imagine, caro leitor, se você fosse um agricultor árabe vivendo em Qalkilia (cidade palestina). A cada ano você observa os quatro assentamentos judeus em volta de você. A cada ano tem novas casas, mais soldados protegendo, novas estradas que são proibidas para você e sua família. A cada ano, novas terras são confiscadas e arvores
derrubadas para uso de alguma necessidade dos assentamentos e quando você precisa visitar um parente em outra cidade, passa por cinco ou seis checkpoints onde precisa ser revistado na mira de uma metralhadora israelense. Diga honestamente, caro leitor, se você estivesse nessa situação e visse assentamentos pipocando por todo lado nos territórios que supostamente deveriam se tornar o seu País, você acreditaria na sinceridade israelense? Eu não. Eu entenderia que a estratégia israelense é apenas falar de paz e espremer os árabes até estarem completamente destituídos. Os palestinos podem ter muitos defeitos, os quais tornam a paz difícil. Os assentamentos tornam a paz impossível.
O que tem isso a ver com Obama? Bastante coisa. Dado o impasse no
Afeganistão e o fiasco no Iraque, que só agora começam a ser melhorados, é muito importante para a nova administração dos EUA conseguir uma vitória diplomática no conflito árabe-israelense. Isso só pode ser feito se os EUA conseguirem fazer Israel entregar a sua parte, ou seja, congelar imediatamente a expansão de assentamentos e de preferência coordenar com a Autoridade Palestina a retirada dos mais isolados. Os Estados Unidos têm meios de sobra para isso. Antes de se manifestar publicamente, Obama pode usar um enviado especial para dizer a Bibi que se Israel não mostrar boa vontade nesse quesito, correrá sério risco dos EUA reverem o apoio ao País.
Estamos falando aqui na ajuda econômica anual, na ajuda bélica e o apoio no Conselho de Segurança da ONU, sem o qual Israel pode receber uma chuva de resoluções negativas (muito mais sérias do que as resoluções da Assembléia Geral, essas sem grande importância). Idealmente, não seria preciso chegar em tais sanções, sendo que a mera ameaça das mesmas faria Israel se mover na direção correta.
Coordenar uma retirada gradual com a Autoridade Palestina seria bom não apenas para a imagem dos Estados Unidos e obviamente para os palestinos. Isso seria excelente para Israel também. Em junho de 2007, escrevi nessa coluna que eu via com bons olhos a ascensão do Hamas em Gaza. Lá eu afirmava que "Israel tem a possibilidade inédita de, ao mesmo tempo que pune com cerco e bombas a Palestina ´malvada´ (Gaza), premia com dinheiro e retirada de assentamentos a Palestina ´boazinha´ (Cisjordânia). Essa rivalidade entre os dois sistemas palestinos, um progressista, laico, diplomático e pragmático e o outro arcaico, religioso, vingativo e violento, fará com que ambos passem a competir pelo apoio da população". Foi o que ocorreu. Enquanto Gaza se radicalizou e vimos conseqüentemente a guerra recente, a Cisjordânia ficou mais tranqüila, sua economia está crescendo e praticamente não houve protestos, mesmo durante a ação israelense contra o Hamas. No entanto, faltou Israel reconhecer a atuação moderadora da Autoridade Palestina e recompensar o povo da Cisjordânia com o congelamento de assentamentos, remoção dos mais isolados e levantamento do máximo de barreiras internas possível naquele território. É preciso criar um circulo virtuoso em que a não violência gera melhorias reais na vida dos palestinos e que deixe claro aos nossos vizinhos que Israel estará novamente disposto a
concessões dolorosas em troca de uma paz verdadeira. Os americanos não devem esperar que esse tipo de iniciativa saia espontaneamente de um governo do Likud.
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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