Por que o Japão deu certo?
Observações de viagem
Pegue-se uma pequena olha vulcânica no Oceano Pacífico, onde furacões e terremotos são uma constante. Retire-se dela todos os recursos naturais úteis ao homem, como metais preciosos ou petróleo. Deixar apenas uma pequena parcela da terra como adequada para o plantio, o resto sendo área seca e montanhosa. Em seguida, coloque-se sobre essa terra algumas dezenas de milhões de pessoas. Por fim, coloque-se o povo dessa terra dentro de uma guerra sangrenta durante a qual 90% das cidades são completamente arrasadas. Esse era o Japão em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial. Receita para um País fracassado? Nada disso, em três décadas, os japoneses transformaram essa terra condenada na segunda potencia econômica mundial, onde inexiste o analfabetismo e a expectativa de vida é a maior do mundo. Como isso foi possível?
Cena 1 – Metro de Tókio: ninguém tem coragem de atravessar correndo uma avenida lotada de veículos em pleno movimento. Apesar de não haver carros se deslocando pelos túneis do metrô de Tókio, a quantidade de pessoas é tão assustadoramente grande que são formados verdadeiros rios de gente circulando de uma linha para a outra. A marcação no chão é clara, dizendo qual sentido deve ser tomado em cada lugar. Uma manada de gente se desloca empacotada, de forma que seja praticamente impossível atravessar um fluxo de japoneses no metro. Esse movimento dura o dia todo, durante o qual milhões de moradores da cidade circulam nas dezenas de linhas que cortam cada canto do Município. Apesar do volume estrondoso, o fluxo ocorre de modo preciso e sem acidentes. Os trens chegam e saem no minuto exato previsto e as catracas eletrônicas registram o movimento. No Japão não existe barreira física impedindo as pessoas de entrar e sair do metro. Isso seria uma perda de eficiência. O viajante precisa simplesmente atravessar um pequeno corredor e ir direto para o trem. Burlar o sistema e viajar de graça seria fácil, mas no Japão espera-se que cada um pague a sua passagem mesmo sem controles rígidos.
Cena 2 – Giro por Kyoto: apesar de Tókio ser a capital política e econômica do Japão, é em Kyoto que ficam os principais pontos históricos do País, bem como as mais refinadas tradições culinárias e artísticas. Kyoto é a capital cultural do Japão. Nessa cidade, que serviu como capital política entre os séculos VIII e XVIII, quase mil anos, foram desenvolvidos alguns dos principais marcos da cultura japonesa, como a cerimônia do chá, o teatro kabuki e a cozinha kaiseki. Em todas as formas artísticas, os japoneses são famosos por prezar a harmonia e qualidade. Nos arredores da cidade encontram-se também alguns dos mais belos templos e castelos do Japão. Nas ruas, pode-se encontrar gente vestida ainda com os tradicionais quimonos e as hospedariam tradicionais acomodam visitantes em quartos de tatame. O Japão é um País que aderiu à modernidade sem abrir mão das tradições.
Cena 3 – Museu de Ciência: o prédio do museu é relativamente simples visto de fora. Um pátio no final do parque de Ueno se estende até as paredes, onde uma estrutura quadrada de três andares se projeta. Se não fosse a multidão de crianças vistas em fila seria de se esperar que uma repartição pública estivesse lá dentro. Por dentro, é outra história. Além dos três andares externos, mais quatro pisos subterrâneos compõem o complexo. Em cada andar, um determinado tema é exposto de forma lúdica e criativa. O primeiro piso, por exemplo, recria a ambientação nas raízes das árvores. É como se os visitantes fossem formigas e estivessem passeando pela selva. Tudo é para tocar. Tudo é interativo. O andar é repleto de pequenas atividades e experimentos. Por exemplo, quem levantar um casco de árvore de plástico encontrará embaixo dele uma projeção de larvas eletrônicas, que podem ser tocadas e interagem eletronicamente com o visitante. Outro salão mostra uma centena de diferentes animais africanos, como leões, elefantes e girafas. O visitante pode pressionar um botão ao lado de cada modelo de animal e um vídeo será mostrado sobre o bicho. Empacotado de crianças de todas as idades, o museu de ciência é com certeza considerado uma grande atração. Para orientar os visitantes, havia um grande número de senhores idosos, provavelmente aposentados. Esses circulavam pelas dependências do museu, tiravam dúvida e conduziam pequenas aulas sobre cada assunto. Parece que os japoneses, ao invés de jogar seus idosos em asilos, preferem utiliza-los de graça no sistema educacional.
Cena 4 – Castelo Himeji: na cidade de Himeji, na parte oeste da ilha de Honshu, fica um dos castelos mais impressionantes do Japão. Uma belíssima construção medieval de seis andares, com torres de vigia, altas muralhas e belos jardins no interior. Na primavera, as árvores de cerejeira que florescem por todo o País podem ser encontradas em abundância também nesse castelo. Milhares de turistas chegam diariamente para visitar a edificação. A massa de gente é tão grande, que é preciso colocar cordas para delimitar as passagens de subida e descida pelo castelo, do contrário ficariam todos travados lá dentro. Mesmo com tanta gente e considerando o fato de ninguém morar mais no castelo há 200 anos, todo visitante deve retirar os sapatos na entrada e calçar chinelos deixados à disposição para essa finalidade. A pessoa chega à entrada do castelo no piso térreo, recebe um saco plástico para guardar seus sapatos, calça os chinelos e segue em frente para a sua visita. Após acompanhar a multidão pedaço a pedaço da construção, quando o visitando está prestes a sair, pelo segundo piso, uma área destinada a recolocar os sapatos permite que cada visitante devolva o saco plástico e os chinelos. Importante notar que a devolução dos materiais ocorre no segundo piso, logo acima da área de recebimento de materiais. Ligando um piso no outro existe um pequeno buraco no chão. Ou seja, duas senhoras de uns 60 anos conseguem gerenciar milhares de pessoas de cada vez simplesmente porque a senhora de cima joga os materiais pelo buraco par a senhora de baixo. Sobre a questão de tirar o sapato, isso não é uma exclusividade dos castelos e templos.Por toda parte, aos visitantes é solicitado tirar o sapato antes de entrar nas edificações. Os japoneses são obcecados por limpeza. Tomam banho várias vezes por dia e mantém o País rigorosamente limpo o tempo todo. Mesmo em um dia movimentado no McDonalds não se vê papeis e comida jogados nas mesas. As ruas das cidades são impecáveis. No entanto, é difícil encontrar latas de lixo. Para os japoneses, quanto mais latas de lixo mais mão de obra será necessária para recolher. Cada pessoa guarda o seu lixo consigo até achar as poucas latas que estão disponíveis.
O Japão não é um lugar perfeito, é claro. 150 milhões de pessoas em um território dezenas de vezes menor que o Brasil faz com que o visitante sempre tenha a sensação de estar em um lugar lotado. Aonde quer que alguém vá, sempre tem mais gente em volta. Além disso, as regras sociais diametralmente opostas às brasileiras dão a impressão de se estar em um lugar frio e impessoal. Por trás dos sorrisos que os japoneses distribuem profusamente, está um conjunto de normas sociais rígidas. O toque em público no Japão é mal visto. No máximo pode-se ver um aperto de mãos entre homens. O correto é cumprimentar baixando a cabeça levemente. Abraços e beijos nem pensar. Apesar do sexo ser visto com naturalidade, quando realizado em particular, é praticamente impossível ver casais de namorados se beijando em público, mesmo no rosto.
Mesmo levando-se em conta esses fatores aparentemente negativos, o Japão é um lugar fascinante. Seu povo está transmitindo aos visitantes a mesma lição, que é a verdadeira raiz do sucesso japonês: em tudo o que você fizer, faça com perfeição. Seja num arranjo de flores, seja no preparo da comida, seja na construção de um sistema nacional de trens, seja nos negócios. Faça com perfeição desde a primeira vez. Daí a obsessão japonesa por qualidade. Nenhum japonês se contentará com nenhum produto de segunda linha.
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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