Quero um cafezinho
Hamas mata Fatah. Fatah mata Hamas
Nas últimas semanas, temos acompanhado a evolução do conflito entre as facções palestinas rivais, Fatah e Hamas. Começando por alguns desentendimentos a respeito de cargos, passando por ocasionais tiroteios e mortes de militantes, a briga evoluiu bastante e se transformou em uma quase guerra civil, em que os grupos armados islâmicos do Hamas acabaram obtendo a vantagem e chutando o Fatah da Faixa de Gaza. Até o momento da preparação desse artigo, o Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, tinha acabado de responder, ao declarar o Hamas oficialmente fora do governo de coalizão e trazer novos membros independentes.
Duas conclusões importantes podem ser tiradas dessa história, uma diz respeito a como os palestinos deixaram isso acontecer e a segunda é sobre os desdobramentos desse conflito para Israel.
1) Por que eles se matam? A resposta mais simples seria: o fracasso do Altalena Palestino. Aqui cabe um breve flashback histórico. Quem se lembra do episódio Altalena, ocorrido em 1948? Naquele ano crítico da independência de Israel, nós judeus estávamos, assim como os palestinos de hoje, divididos em diversas milícias armadas, as principais delas sendo a Haganá e o Irgun. Durante uma trégua na Guerra de Independência, um navio repleto de armas destinadas ao Irgun aportou em Tel Aviv. O recém formado governo de David Ben Gurion ordenou que as armas fossem entregues ao exército de Israel, alegando que só poderia haver uma única força de defesa dos judeus. O Irgun insistiu para que as armas ficassem com seus próprios combatentes e se recusou a ceder. O Exército de Israel então abriu fogo, inclusive matando uma dúzia de soldados do Irgun. Esse episódio dolorido na história causou profundas divisões e amargura, no entanto demonstrou para todo o Mundo que Israel estava 100% unido sob o comando do seu exército único. Dali em diante, só havia uma força israelense e somente uma vontade sendo executada de cada vez: a vontade do povo israelense, decidida pelas urnas.
Uma das maiores tragédias do ponto de vista palestino é que eles nunca tiveram o seu episódio Altalena. Na Palestina, uma dúzia de grupos armados com objetivos diversos opera em paralelo ao governo. Qualquer avanço no processo de paz pode ser facilmente sabotado por um desses grupelhos. O que estamos assistindo hoje é justamente uma confissão por parte do governo palestino de fracasso na hora de executar qualquer diretriz. O conflito entre Hamas e Fatah é a conseqüência lógica da falta de um Altalena.
2) Por que esse conflito é bom para Israel? Cada analista avalia de forma distinta os acontecimentos. Esse autor, no entanto, vê com bons olhos a divisão palestina atual. O primeiro e mais óbvio motivo é que, quanto mais preocupados os palestinos estiverem em matarem-se uns aos outros, menos preocupados eles estarão em matar israelenses. A queda no número de atentados que se observou recentemente é prova disso.
O segundo motivo é que, se as coisas continuarem a evoluir como estão evoluindo, não seria impossível que Gaza se torne eventualmente um País enquanto a Cisjordânia se torne outro. Ironicamente, é melhor ter duas Palestinas do que uma. As características desses dois territórios são bastante distintas. Gaza é 15 vezes menor que a Cisjordânia. Sua população é muito mais pobre e radicalizada, enquanto o fundamentalismo islâmico é mais difundido. Comparativamente, a renda da Cisjordânia é muito maior (o dobro de Gaza), a população é mais urbanizada e melhor instruída.
Isso significa que se o Hamas realmente se consolidar em Gaza, será aberta uma grande oportunidade para Israel mantê-lo isolado por lá e voltar a negociar com o governo palestino na Cisjordânia. Se Israel entregar os impostos bloqueados, a ajuda internacional voltar a fluir e a situação for aliviada, os dois territórios tenderão a se distanciar cada vez mais. Isso deixará claro e cristalino que a solução do Hamas para o conflito não consegue entregar aos palestinos nada do que eles desejam e que somente através de uma paz negociada o nível de vida poderá subir. Israel tem a possibilidade inédita de, ao mesmo tempo que pune com cerco e bombas a Palestina “malvada” (Gaza), premia com dinheiro e retirada de assentamentos a Palestina “boazinha” (Cisjordânia). Essa rivalidade entre os dois sistemas palestinos, um progressista, laico, diplomático e pragmático e o outro arcaico, religioso, vingativo e violento, fará com que ambos passem a competir pelo apoio da população. Como sabemos, o Hamas só terá para entregar cada vez mais sangue e ódio. Enquanto as ilusões irão se desfazendo, os palestinos ficarão cada vez mais cansados. A paz só pode vir quando esse cansaço se somar a uma alternativa viável de governo.
Isso tudo é para o futuro. Nesses dias, para aqueles de nós que já se conformaram e sabem que a cada dia alguém aparece assassinado no Oriente Médio, já é um grande consolo saber que, no momento, não são os israelenses que estão nem matando, nem morrendo. Tomemos o cafezinho antes que esfrie.
Alexandre Ostrowiecki (Nani) |