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Hagadá Oriental (abr / 2007)
Hagadá Oriental

Um Seder de Pessach em Tóquio

Chegar a Tóquio é uma tarefa que exige 1 hora de taxi até o aeroporto de Guarulhos, 3 horas de espera pela decolagem, 10 horas de vôo a Nova Iorque, mais 4 horas de conexão, mais 12 horas de vôo até o aeroporto internacional de Narita e, por fim, 2 horas de trem até a capital do Japão propriamente dita. Se você for um judeu como outro qualquer (ou seja, com forte complexo de culpa) e estiver acompanhado de uma esposa que valoriza as tradições judaicas corre o risco ainda de, imediatamente depois de tal viagem de 32 horas, ser convencido a se dirigir até a sinagoga local e participar do Seder. Tudo bem, é verdade que não fomos completamente “no escuro” e que já sabíamos que a tal sinagoga existia e funcionava (em um País com menos de 200 judeus é bom se garantir). Mesmo assim, correndo o risco de cair com a cara no pote de ovo com sal de tanto sono, posso dizer que foi uma experiência muito interessante.

Para uma cidade com menos de duas centenas de judeus, Tóquio tem um belo centro judaico, situado num prédio de três andares, incluindo salão de festas, escola hebraica e uma elegante sinagoga com bancos de madeira. Me disseram que também há mais duas unidades do Beit Chabad, concretizando a máxima de que para cada dois judeus, três singogas! Chegando lá, já havia uma fila de gente passando nomes e documentos para o segurança israelense que conferia tudo do lado de fora e verificava as informações, em Hebraico, com o colega japonês ao lado. Falei que era do Brasil, mas meu nome não estava na lista. A entrada foi garantida quando comecei a conversar em hebraico com o cara. Logo depois, entrou um homem de uns 40 anos, loiro e alto, com uma japonesa metade do seu tamanho e dois filhos. Subimos direto para a sinagoga e já havia umas 40 pessoas fazendo o serviço de Pessach. O Rabino rezava em hebraico, porém passava as páginas em japonês, para que as pessoas soubessem onde acompanhar. San jiu go onega ishimas, página trinta e cinco por favor.

Tratava-se de uma sinagoga liberal tradicional, as famílias sentando-se juntas e as pessoas acompanhando o rabino nas melodias. Quase todas eram cantadas no mesmo estilo e ritmo da CIP. Como eu convivi a vida inteira com essas mesmas rezas, foi natural acompanhar o serviço. Quem me visse ao lado de um outro membro dessa comunidade, de olhos puxados e cantando as mesmas melodias, ficaria impressionado com a universalidade do judaísmo. Mesmo nesse fim de mundo eu tinha algo a compartilhar com essa pessoa que aparentemente não tinha nada de parecido comigo. Provavelmente ele pensaria o mesmo do Brasil...

O serviço foi encerrado quando o Rabino avisou que a garota Hanna seria convidada para rezar o Aleinu. Afinal, na semana seguinte seria o Bat Mitzva dela. Saiu então dos fundos uma garota mestiça, toda orgulhosa, que rezou perfeitamente. O pai loiro e a mãe japonesa olhavam orgulhosos dos fundos. Alías, 80% dos casais presentes eram constituídos por um homem aparentemente ocidental e uma japonesa. Dezenas de crianças loiras com olhos puxados corriam pela sinagoga. Estranho que não havia em nenhum caso o inverso.

Quando descemos para o salão principal, uma série mesas elegantemente colocadas exibiam pratos com Matsot, Kearot, vinho casher e tudo o que um Seder tem direito. Sobre cada prato, uma Hagadá. O rabino então explicou que a Hadadá tem quase dois mil anos de existência, escrita provavelmente na época da destruição do tempo. Um pouco mais para frente, em 1990, foi traduzida pela primeira vez para o japonês, o que segundo marcou um momento decisivo na história judaica. O seder proseguiu de forma descontraída porém realizado conforme manda o figurino. Os israelenses à mesa liam a Hagadá em hebraico, os americanos em inglês e os moradores locais liam em japonês. Cada um com o seu parágrafo; deve ter sido a primeira vez que alguém vai a um Seder e entende exatamente um terço do que está sendo falado.

Em seguida, entraram garçons servindo algo que eles chamavam de guefilte fish, sopa de matze balls e frango assado. Não sei não. O guefilte fish que eu conheço dá um banho nessa versão japonesa. Tudo bem que é covardia comparar qualquer coisa com a comida da minha avó Raquela (como todo bom neto judeu, tenho a convicção que nem nas panelas do céu se cozinha tão bem). Em todo caso apesar de eu ter secretamente desejado que servissem peixe cru nesse Seder, deu para encarar bem o jantar.

Saímos com uma certa sensação de dever cumprido. Realmente como dizem os nossos sábios, “nesse vê nishma”, “faça primeiro e depois escute”. Isso significa que o judaísmo só pode ser vivenciado através das ações. Somente indo ao Seder e participando ativamente é possível sentir Pessach de verdade. Só de boas intenções não se vai a lugar algum.

Incrível também observar a tenacidade desse nosso povo, mesmo em um lugar tão distante e com tão poucos recursos manteve acessa a tradição de Pessach. Esse Pessach com matsá, maror e a Hagadá em japonês.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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