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Lições da África do Sul (out / 2006)
Lições da África do Sul

Negros, Judeus e a propaganda do OMO

Estou escrevendo do aeroporto de Johanesburgo, África do Sul, onde tenho algumas horas livres antes do próximo vôo, rumo a Taipei. Nessas seis horas de conexão, resolvi dar um pulo fora do aeroporto e ver um pouco da vida na África do Sul. O prazo foi curto, mas muitas coisas interessantes surgiram. Ao ver, pela primeira vez na vida, um País onde os negros são “normais” (já já explico) acabei conseguindo refletir um pouco sobre o preconceito que está enraizado no subconsciente de cada um de nós. A história da África do Sul carrega muitas diferenças, mas também muitas semelhanças com o que ocorre em Israel.

Sempre achei o preconceito racial uma coisa horrível. A verdade é que, no discurso, no plano conceitual, sempre rejeitei qualquer estereotipagem de qualquer grupo que seja e sempre considerei a noção de diferenças entre as raças como algo abominável. No entanto, descendo abaixo da superfície e penetrando fundo em planos mentais adormecidos, devo admitir que existe uma forte bagagem de pré definições que temos a respeito dos negros. Quantos de nós olhamos torto ao ver um negro elegante cheio de pacotes no Shopping Iguatemi? Quantos de nós achamos normal as propagandas mostrarem quase 100% de modelos brancos, quando os negros e pardos são mais da metade da população? Quantos de nós vemos os negros como minoria ressentida? Quem ficaria realmente indiferente ao fato da sua filha trazer um namorado negro para casa? Seria fácil ser hipócrita e afirmar que tais pensamentos não existem. Isso seria também ignorar todo um caldo de cultura que o Brasil injeta na cabeça das pessoas.

A África do Sul é diferente. A África do Sul é o País dos negros. Não apenas eles formam 90% da população, mas a grande referência aqui é a estética e o ponto de vista dos negros. Dirigindo pelas ruas de Soweto, uma cidade vizinha a Johanesburgo, o viajante vê cartazes com as mesmas propagandas que existem no Brasil: monitores da LG, aparelhos de DVD e a conhecida propaganda do OMO, com uma criança encardida escrito: “porque se sujar faz bem”. Só que tem um detalhe. Tanto o cara da TV, quanto a mulher do DVD, quanto o moleque do OMO são 100% negros. É impressionante. Quase só tem propaganda com negro!

Em seguida, entrei em um shopping center da região de classe média alta da cidade. Seria o equivalente ao Shopping Villa Lobos. A mesma coisa: todo mundo é negro. O vendedor de calças é negro, a atendente da farmácia (que alias só tem xampu para cabelo sarará) e todas as milhares de pessoas que lotavam o lugar. Olhar a escada rolante era impressionante. Centenas de negros descendo e subindo ocupados e nenhum branco à vista. As pessoas olhavam para mim como se eu fosse um ET. As crianças acenavam intrigadas. Fiquei imaginando se era assim que um negro se sente no shopping Iguatemi... como um estranho num lugar que não lhe pertence.

O supra sumo dessa situação foi quando eu estava voltando ao aeroporto, paramos no semáforo assim como mais uns 20 carros. Havia um único mendigo parado na frente dos carros com uma placa escrito “estou desempregado e não recebo mais pensão. Por favor me ajudem”. Duas pessoas deram uns trocados ao mendigo. Detalhe: quase todos os motoristas eram negros enquanto o referido pedinte era um senhor, branquíssimo, na faixa dos 60 anos, com rosto elegante de lorde inglês. Após um banho e um paletó razoável, esse senhor se faria passar facilmente por um milionário britânico num campo de golfe.

A história da África do Sul é um caso particularmente complexo dentro de um continente castigado. Desde o final do século XVII, imigrantes holandeses, os bôeres, começaram a colonizar a região em busca da criação de uma sociedade melhor e livre de perseguições religiosas. Com as hordas de bôeres chegando e criando uma sociedade com cultura e idioma (o Africâner) distintos, começaram os choques com os habitantes originais. Mais tarde, seguindo-se ao descobrimento de ouro e ocupação britânica, a África do Sul moderna começou a se formar. Quando ocorreu a descolonização pós segunda guerra mundial, o processo se deu de forma relativamente fácil na maior parte das ex-colônias britânicas. Como havia muito pouca população da metrópole, os respectivos povos colonizados simplesmente se livraram dos europeus e tocaram a sua vida, cada um com diferente grau de sucesso.

No caso da África do Sul, havia a grande população Bôer, que tinha seus próprios projetos para o País: a criação de um Estado desenvolvido e culturalmente avançado na região, em que os brancos mandam e os negros não passam de um incômodo. Como os bôeres detinham, na época, maior poder econômico e militar, conseguiram manter o território todo sob seu controle. No entanto, um fator escapava ao seu controle: a população nativa, que sempre superou de longe os brancos, não parava de crescer e o pesadelo bôer de ver seu País modelo engolido pelas hordas de negros foi se intensificando. Cada ação gera uma reação e, passo a passo, sempre justificando as ações como legítima defesa, o cenário estava sendo montado para o Apartheid. Durante décadas, um pavoroso regime de segregação oficial manteve a população negra sob absoluta opressão e a população branca sob medo crescente da ameaça negra, contra a qual essa não tinha armas.

Como sabemos, o Apartheid acabou em 1994, implodido pelo seu próprio anacronismo e pela insustentabilidade sobre a qual esse modelo foi construído. Felizmente, ao contrário de outros conflitos étnicos em que um grupo se vingou do outro através da repetição dos crimes dos algozes, no caso do Apartheid, a segregação foi eliminada de forma pacífica e pela implantação de direitos iguais. Hoje, a África do Sul ainda tem grandes desafios, como a pobreza e o crescimento da Aids. No entanto, está muito melhor do que há 20 anos atrás e as pessoas olham confiantes para o futuro. Mais importante do que tudo, os negros são os senhores do seu próprio destino e não se sentem mais oprimidos pela minoria branca.

Quando se compara a história da África do Sul com Israel, a tendência é que nós, judeus, fiquemos com uma pulga atrás da orelha. Realmente, uma das mais notórias acusações que os anti-semitas jogam sobre Israel é esse ser um Estado de Apartheid. Esse absurdo é desmontado pelas muitas diferenças entre as duas trajetórias. Em Israel a lei é a mesma para todos enquanto o Apartheid previa regimes específicos para negros e brancos. Israel precisa manter um exército forte porque seus vizinhos estão em constante estado de guerra, enquanto a África do Sul não tinha tais ameaças. Israel concordou desde a partilha com o princípio de dois Estados para dois povos enquanto o regime do Apartheid nunca cogitou tal solução. Em Israel judeus são maioria enquanto na África do Sul os brancos são uma pequena minoria. No caso da África do Sul, o adversário do Apartheid era um homem de visão, que rejeitava a violência, como Nelson Mandela e não os barbudos do Hamas, que fazem festa toda vez que explodem um ônibus escolar.

No entanto, as semelhanças não podem ser descartadas... ambos os regimes tentaram pela força suprimir as aspirações políticas de outro povo. Nas duas histórias, a taxa de natalidade de um dos lados é fator decisivo de distribuição de poder e criação de medo nos corações do adversário. A África do Sul foi um caso de um grupo que, ao tentar defender sua cultura e realizar o legítimo desejo de auto-definição, acabou seguindo um caminho de escalação do confronto e cometendo as maiores atrocidades, pois ficou cego para a realidade.

Israel não é nem nunca foi a África do Sul. No entanto, caso a situação atual se prolongue por muito tempo, corremos o sério risco de chegarmos lá. Isso não seria bom para ninguém.

Alexandre Ostrowiecki (Nani

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