Cobrando um Golf e entregando um Gol
A razão das dificuldades das escolas judaicas
Você estaria disposto a comprar um Gol pelo preço de um Golf? Quantos de nós, em sã consciência (e tendo em vista diversas outras marcas de carro para escolher) pagariam 50 mil reais por um carro pequeno, com motor 1.0 e direção mecânica? Pois bem, é justamente isso que a comunidade judaica impõe a todos os pais pagantes das escolas judaicas: comprar um Gol a preço de Golf.
Nos últimos anos, temos visto um percentual cada vez maior de alunos bolsistas nas escolas. Com a comunidade judaica entrando em apuros financeiros, cada vez mais pais jogam a toalha e declaram sua inabilidade de pagar as altas mensalidades que um colégio moderno requer. Claro que existem os abusos e eventuais fraudes, nos casos de gente que pode pagar, mas banca o coitado. No entanto, de modo geral, a maior parte daqueles que pedem bolsa realmente a necessitam.
Como as escolas judaicas costumam ser pautadas pelo princípio da solidariedade, acabam aceitando os inadimplentes ou mesmo acolhendo novos alunos bolsistas egressos das escolas não judaicas. Tudo isso parece muito bonito na teoria; judeus ajudando judeus, etc. No entanto, esse fenômeno tem um efeito perverso que gera um círculo vicioso de dificuldades financeiras e baixo investimento.
Vamos usar, a título de exemplo, três escolas judaicas imaginárias, aqui chamadas por letras escolhidas ao acaso, “B”, “P” e “R” (qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência). Digamos que a escola “P” tem 5% de bolsistas e que a escola “R” tem 50% de bolsistas. O que irá acontecer?
No caso da escola “P”, a perda de receita será mínima e a existência de bolsistas praticamente não afetará em nada o desempenho da escola. Já no caso da escola “R”, ocorrerão dois fenômenos. Em primeiro lugar, haverá uma enorme perda de receita. Digamos que o preço da escola é R$ 1.000 e que, com esse valor, seja possível oferecer uma boa estrutura de ensino, estrutura física e atividades extra-curriculares. Como de cada dois alunos apenas um paga, a escola terá apenas R$ 500 por aluno para pagar seus custos. Com esse valor, já não é mais possível bancar o mínimo de qualidade exigido e a qualidade do ensino cairá.
É nesse momento que aquele pai que está suando a camisa para pagar R$ 1.000 para seus filhos estudar perceberá que ele caiu na armadilha do Gol e do Golf: ele está pagando uma mensalidade de colégio privado chique e recebendo estrutura de escola pública. Enquanto as escolas não judaicas estão oferecendo, pelo mesmo preço, uma maravilhosa estrutura física, área verde, piscina, artes, inglês forte, culinária, capoeira, balé, etc, a escola judaica ficou para trás. Provavelmente esse pai acabará se mandando, fazendo com que o percentual de pagantes sobre o total caia cada vez mais, junto com a qualidade do ensino. Temos o nosso círculo vicioso.
Para reverter esse quadro, a primeira providência é parar de obrigar os pais pagantes a bancarem os bolsistas. O que estamos fazendo hoje é suicídio e levará ao sucateamento da nossa estrutura de ensino. O que fazer então? Expulsamos os bolsistas?? Claro que não.
Quem precisa bancar as bolsas é a comunidade como um todo. Precisamos assumir a ambiciosa proposição de que todos os jovens judeus têm direito ao ensino judaico de qualidade e que a comunidade como um todo é a responsável, não apenas os pais pagantes. Precisamos criar um grande fundo de bolsas (ou utilizar parte do que temos hoje) destinado unicamente a custear as bolsas de estudo. Mandamos hoje 80% do dinheiro para Israel? Então é bom começar a mandar somente 40%, do contrário não vai ter mais ninguém para contribuir daqui a 30 anos... As bolsas deveriam se tornar prioridade comunitária. Podíamos usar uma das excelentes instituições de assistência social atuais e criar um fundo centralizado para bolsas, que tenha critérios rigorosos, garantindo aos que realmente precisam uma vaga sem que esse custo seja suportado pela escola.
Se a comunidade tirar esse enorme peso que jogamos nas costas das escolas, essas poderiam se preocupar com as questões realmente importantes, como judaísmo e ensino no século XXI e melhorar a qualidade do ensino. Não fazer nada é o mesmo que esperar até o Gol enguiçar.
Alexandre Ostrowiecki (Nani) |