Putas e Urina
Uma pessoa só conhecerá realmente o espírito da Alemanha depois que tiver visitado os bordéis e banheiros públicos
Muito já se falou sobre a organização e a precisão alemãs. Todas as pessoas que viajam para lá ficam impressionadas com os trens pontuais, que saem no minuto exato programado. O que pouca gente sabe é que os banheiros e bordéis também dizem muito sobre a Alemanha.
Estação central de Hanover: Os corredores impecáveis seguem esticados debaixo das placas que indicam tudo o que o viajante quiser saber. Debaixo de cada placa, o sinal universal para banheiro - a imagem do homemzinho reto ao lado da mulherzinha de saia - indicando que o banheiro fica três corredores para a direita. Próxima placa, dois corredores, um corredor... finalmente,uma grande placa luminosa nos mostra que chegamos ao tão aguardado W/C. Qual será a opção?
Três divisórias indicam preços e caminhos diferentes, cada uma com uma catraca automática. Entrando pela esquerda, escrito “mulheres” custa um euro. Uma fila de moças apressadas colocava as moedinhas na máquina, que liberava a passagem e dizia algo em alemão que poderia talvez querer dizer: “obrigado por escolher o nosso banheiro”. O caminho do meio é para os homens e também custa um Euro. E a quem restaria o caminho da esquerda? Antes que algum engraçadinho diga que é o caminho dos homosexuais, saibam que na placa está escrito “pissem”. Ou seja, para os homens sortudos que querem apenas fazer um “piss”, ou urinar, eles têm direito a uma área exclusiva do xixi, que custa apenas 60 centavos de Euro. A vantagem dos banheiros alemães é que você pode saber exatamente o que cada um vai fazer lá dentro, de acordo com o preço pago e a área que a pessoa entrar. Fiquei imaginando onde entrariam as mulheres que querem apenas retocar a maquiagem e fofocar? Em tempo: caso você não tenha exatos 60 centavos, existe uma máquina de troco postada na entrada do banheiro. Tudo funcionando automaticamente, sem nenhum funcionário para controlar.
Rua dos bordéis: Em uma cidade de feiras de negócios como Hanover, um dos lugares mais freqüentados por viajantes sem muito dinheiro é a Zeckerstrasse, a rua dos bordéis. Ao longo de uns 500 metros de luzes, neons e outros apetrechos coloridos, os visitantes passam em frente a uma dúzia de prédios temáticos. Dentro de cada prédio, pode-se caminhar livremente e combinar programas com as prostitutas, cada qual fica postada a noite inteira em frente ao seu próprio quarto. Existe um prédio só de loiras polonesas, um prédio de negras africanas e um monte de prédios da Tailândia. As decorações são do pior gosto possível. Um dos prédios foi decorado como se fosse um hospital, com seringas cheias de sangue pintadas na porta (quem foi o gênio de marketing que inventou isso - promoção pague uma trepada e ganhe Aids?!?)
Independentemente da aparência das mulheres (quase todas eram horrorosas), vale a pena citar o funcionamento do programa. Basicamente ocorre o seguinte: 1) o visitante entra de graça em qualquer prédio a hora que quiser e sem controle 2) o visitante escolhe uma mulher na porta do quarto dela para fazer sexo 3) eles entram no quarto e trancam a porta 4) ele tem direito a 20 minutos para “resolver seus assuntos” 5) ele paga o preço de tabela - 30 euros caso a puta seja mulher ou 50 euros caso seja travesti 6) ele se manda para ela poder transar com outro. Assim mesmo. Um atrás do outro. Depois de 2 minutos após a saída do cliente, a mulher já está de novo na porta chamando o próximo.
Fazendo um tour por um dos prédios, descobri que um monte de mulheres são brasileiras. Chegando ao terceiro andar, me deparei com um enorme pôster de um travesti sendo propagandeado: “venha até o quarto 12”, ao lado de um cartaz escrito: “aviso-travesti”. Descobri que esses prédios mantém um travesti por andar, nem mais nem menos, para manter o padrão. Chegando ao tal quarto 12, comecei a falar em português com o cara. Ele me disse que chegou recentemente do Gala Gay no Rio de Janeiro e que está gostando muito da Alemanha, porque, segundo ele, os clientes são educados enquanto os brasileiros batiam e saiam sem pagar. Perguntei como é possível ele ganhar mais do que as mulheres de verdade, que cobram apenas 30 euros enquanto ele cobra 50. “Oferta e procura meu anjo: eu tenho um diferencial competitivo que elas não tem”. Esse cara podia ser professor de administração...
Enquanto se fala da pontualidade dos trens alemães não é tão fácil identificar o tamanho da obsessão do País com eficiência. Qualquer povo do mundo receberia de bom grado um sistema ferroviário como o alemão, basta ter a capacidade e o dinheiro. Já os mictórios e puteiros nos ensinam muito mais sobre a mentalidade do País e o quanto a precisão e eficiência são primordiais. Não basta você querer ir ao banheiro: o sistema precisa ser ajustado para exatamente quanto recurso você vai usar. Um homem faz xixi mais barato do que uma mulher. Provavelmente algum engenheiro calculou o consumo de água e o tempo de uso dos homens para determinar que ele deve pagar 60 centavos para ficar um minuto se aliviando na cerâmica.
Da mesma forma, as putas da Zeckerstrasse não estão vendendo a ilusão de amor e atenção, juntamente com o prazer que essa tão antiga profissão serve para proporcionar. A eficiência alemã transformou essas moças pobres da Polônia, Brasil, Nigéria, Cambodia em exatamente a mesma coisa que os banheiros públicos: elas são meros receptáculos de resíduo humano, urina no primeiro caso e sêmen no caso delas. Ficam lá nos seus quartos, de pernas abertas, recebendo uma dose a cada 20 minutos, possivelmente 20 vezes por noite. Esse é o resultado da precisão e eficiência aplicados ao extremo.
A eficiência, assim como a inteligência, é apenas uma ferramenta. Pode ser usada para o bem ou para o mal. A eficiência alemã já foi usada historicamente para as duas coisas. Sessenta anos atrás, a Alemanha utilizou seu talento de organização para construir uma formidável máquina de destruição. Nas décadas seguintes, esse mesmo talento ajudou a construir um invejável modelo social. Nem as putas nem os banheiros escaparam dessa característica alemã.
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
|