Liberdade de expressão versus respeito religioso
A polêmica da dinamarca x islã
Durante décadas a fio, nós judeus assistimos ao festival de caricaturas que vinham aparecendo nos países árabes com frequência cada vez maior. Vira a mexe, aparecia alguém desenhando Israel como um País assassino e sanguinário, os judeus como pessoas más por natureza e o Holocausto como ficção. Não é de se estranhar, portanto, que muita gente da comunidade tenha recebido as notícias sobre a caricatura dinamarquesa com uma certa dose de "bem feito, vocês muçulmanos mereceram!".
A reação dos países árabes aos desenhos reforçou esse sentimento judaico: alguns acabaram colocando a culpa em nós. O lider religioso supremo do Irã afirmou que todo esse episódio se deveu a uma armação de "líderes sionistas com raiva da vitória do Hamas nas eleições palestinas" (ele se esqueceu que as caricaturas sairam 4 meses antes da eleição...)
Do ponto de vista islâmico, ocorreram duas ofensas simultâneas. A primeira foi o desenho em si do profeta Maomé. Segundo o Islã, é uma grave ofensa produzir imagens do sagrado. Ironicamente, essa proibição sempre esteve mais associada a prevenir idolatria do que prevenir críticas. Teoricamente, é muito mais grave desenhar o profeta com dizeres do tipo "eis o grande profeta Maomé, maravilhoso, divino!", do que dizer que ele é terrorista. Apesar disso, ao longo da história, os muçulmanos sempre olharam com indiferença as imagens de Jesus que os cristãos vinham pintando em suas igrejas e catedrais. Como sabemos, Jesus é considerado um profeta pelo Islã e suas imagens também cairiam na proibição, mas na prática isso nunca tirou o sono de ninguém.
Isso nos leva para a segunda ofensa, que foi o real estopim da crise. Dizer que Maomé é terrorista é uma ofensa aos milhões de muçulmanos pacíficos espalhados pelo mundo todo. Numa época marcada por tensões culturais e invasões americanas do Iraque e Afeganistão, a crítica não poderia vir em hora pior. O pessoal mais radical também não ficou nada contente em ver nos jornais a zombaria da visão islâmica do Paraíso: os terroristas mortos chegando ao céu e encontrando o lugar esgotado de virgens.
Apesar disso, a verdade é que essa polêmica toda explicitou uma questão bastante profunda que diz respeito a todas as sociedades livres: "até que ponto a liberdade de expressão deve ser defendida?". Uma pessoa pode, por exemplo, conclamar seus seguidores e matar seres humanos e depois ser inocentada com base na liberdade de expressão? É permitido espalhar um boato que leve um banco a falência, por exemplo, e destrua milhares de empregos? É permitido insultar uma religião com um bilhão de fiéis, a maioria dos quais absolutamente pacíficos, afirmando que seu profeta é um terrorista? O respeito religioso não é um valor universal? O que deve ser mais forte, a liberdade de expressão ou o respeito religioso?
São questões espinhosas, mas, no momento da dúvida entre proibir ou permitir alguém dizer alguma coisa, o ideal é sempre a balança pender para o lado da permissão. O ministro do interior da França Sarkozy afirmou recentemente que prefere "excesso de caricaturas a excesso de censura". Ele está mais do que certo. Existem alguns casos raros em que a liberdade de expressão deve ser limitada, notadamente a incitação à violência e a difamação. Para todos os outros, melhor ter algumas pessoas ofendidas do que ter muitas silenciadas. Poder dizer o que você quiser, mesmo que isso signifique fazer gozação com o Deus dos outros, é uma característica que define a civilização liberal.
Certa vez disse Voltaire celebremente: "não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo". O mesmo se pode dizer ao jornal dinamarques que publicou pela primeira vez as caricaturas: "vocês foram extremamente desrespeitosos ao insultar o Islã, desenhando o maior profeta muçulmano como um terrorista. Apesar disso, o direito que o seu jornal tem de dizer isso é muito mais importante do que as sensibilidades de quem quer que seja."
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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