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| Sinta-se em casa, Hamas (jan / 2006) |
Sinta-se em casa, Hamas
Fantasmas assustam mais enquanto permanecem no escuro
A vitória do movimento terrorista Hamas na semana passada deixou muita gente de cabelo em pé. Especialmente para aqueles que apostam no processo de paz, o parceiro ideal do lado palestino, aquele que deveria estar governando um povo supostamente democrático, não é exatamente um bando de fanáticos que deliram de alegria toda vez que um sujeito se explode nos ônibus israelenses. Para Israel, a princípio, foi triste a notícia de que o inimigo mais implacável foi justamente aquele que recebeu a benção de 60% dos palestinos. No entanto, uma análise mais aprofundada nos faz concluir que, ao contrário do que se vê superficialmente, a ascensão do Hamas poderá ser uma boa notícia para Israel.
Em primeiro lugar, deve-se colocar em perspectiva a opção dos palestinos na urna. Em relação ao governo atual da Fatah, a corrupção reina tão forte que até os petistas têm o que aprender visitando a Autoridade Palestina. É consenso de todos os analistas que o grande atrativo do grupo islâmico nessa eleição foi sua plataforma supostamente limpa e a proposta de reduzir a corrupção na Autoridade Palestina. As centenas de milhares de pessoas que votaram no Hamas nesta eleição estavam mais interessadas em conseguir uma administração pública decente do que em executar ao pé da letra a plataforma de destruir Israel. Isso é um bom sinal.
Além disto, fará muito bem ao Hamas tomar um choque de realidade. Uma coisa é ficar do lado de fora do espectro político, criticando tudo e todos, explodindo suas bombas e acusando a Fatah de não fazer nada. Agora, a partir do primeiro dia de governo, o Hamas terá que encontrar um jeito de pagar os dezenas de milhares de servidores, fazer rodar os serviços públicos, resolver questões como água, esgoto, energia e investir na precária infra-estrutura palestina. Discursos raivosos não vão encher a barriga de ninguém. Hoje em dia, um terço do orçamento palestino vem dos EUA e Europa, nenhum dos quais está disposto a entregar dinheiro para um grupo apoiador do terror.
Outro aspecto é a legitimidade das represálias israelenses. Até agora, os palestinos gozavam de posição confortável. Quando o Hamas executava um atentado, o presidente da Autoridade Palestina meramente emitia um comunicado (convenientemente só em inglês) "condenando" o ataque, enquanto os palestinos comemoravam na rua. As retaliações de Israel eram ou muito leves ou condenadas mundo afora. Claro, afinal, "quem executou o ataque foi um pequeno grupo radical, condenado pela maioria do povo palestino. Israel não pode punir todos os palestinos pelos crimes de alguns". Hoje esse argumento não cola mais. Qualquer atentado cometido pelo Hamas é um ato aberto de guerra, perpetrado pelo partido escolhido pela maioria do povo palestino. Eles que arquem com as próprias escolhas.
Por fim, o aspecto diplomático não pode ser descartado. Israel está num momento em que, pela primeira vez na história, um grande grupo de centro está sendo formado, para colocar em prática o plano de separação dos palestinos. É uma idéia dolorosa e trabalhosa, mas que reconhece a realidade dos fatos, que a paz ainda está distante e que o primeiro passo para ela é o desengajamento entre esses dois povos envolvidos num abraço mortal. A subida do Hamas ao poder vai aliviar a pressão internacional e dar espaço a Israel para fazer o que tem que ser feito para o desengajamento.
O grande paradoxo dessa vitória do Hamas é que o grupo se tornará mais fraco ao assumir o poder, não mais forte. Seus líderes sabem disso e estão perdidos batendo cabeças. O grupo que vendia o sonho da pureza e coerência terá que sofrer o choque da realidade. Virá o desafio de conciliar interesses conflitantes, função máxima da política e virão os bilhões de dólares que passam pelos cofres de qualquer governo, bem como as tentações inerentes a tanta riqueza. Um observador argentino diria sobre isso: "no veremos lo mismo Hamas, Jamás".
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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