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Capão Redondo (nov / 2005)
Capão Redondo

Acabei de chegar de um casamento no Capão Redondo. Tratou-se de uma funcionária que estava casando. O noivo, um Office boy que ela conheceu no bairro. A mãe dela, empregada doméstica. Um casamento dos mais simples possível e o mais distante da nossa realidade que podemos imaginar. Após pegar a Estrada do Campo Limpo e penetrar fundo numa das regiões mais humildes da cidade, finalmente chegamos ao local da cerimônia, uma padaria chamada Bola Lanches. Em frente ao local, ficavam algumas pessoas esfarrapadas, bêbados, pessoas comuns. Será possível que é aqui? Entramos numa garagem ao lado da padaria, onde uma placa bem grande dizia: “não nos responsabilizamos pelos veículos”.

Assim que estacionamos, aproximadamente às 20:30, um Uno 95 embicou atrás do carro. Imediatamente saíram alguns jovens sorridentes de paletó surrado. Cumprimentei o pessoal e fui informado que um deles, um moreno com ares de malandro, era o noivo que faltava à festa. Onde estava a noiva? Tinha ficado mais de uma hora no carro esperando aparecer o futuro marido... Me antecipei aos pombinhos e encontramos a pequena escada que levava ao salão de festas. Tratava-se de uma área espaçosa nos fundos da padaria onde amontoavam-se mesas brancas de plástico nas quais os convidados comiam e conversavam alegremente.Ninguém parecia se importar com o fato de que o casamento fora marcado para as 19:00 e quase duas horas mais tarde nenhum dos noivos tinha aparecido. Sentamos numa mesa próxima ao corredor onde havia outro casal sentado. Fomos servidos de Dolly limão pelo pessoal da mesa. Pude reparar melhor no local e nas pessoas.

Havia cerca de 100 pessoas entre os convidados. Todos com aparência simples, geralmente negros ou mulatos. Os homens vestiam ora camisas sociais ou alguns outros desfilavam orgulhosos com paletós. Algumas mulheres usavam vestidos elegantes, outras calças jeans. Ninguém parecia se importar muito com a aparência dos outros. Dezenas de crianças andavam por todo lado. Grande parte das mulheres estavam grávidas. Não havia nada que lembrasse uma decoração da forma como nós entendemos a palavra. As paredes continuavam sujas de gordura como nos dias normais, em que a padoca provavelmente servia refeições aos trabalhadores da região. Do teto saiam fios, ora com lâmpadas na extremidade, ora apenas fios soltos como numa obra em construção. No entanto, o clima era bastante alegre e descontraído, ao som de música sertaneja. As duplas de cantores populares faziam muito sucesso traduzindo hits americanos para português. Enquanto sentávamos, escutamos Xitãozinho e Xororó traduzindo Brian Adams.

A certa altura, o som parou de tocar e uma mulher chamou os padrinhos para o microfone. Mal se podia ouvir qualquer coisa, porque o equipamento ficava falhando o tempo todo. Me aproximei mais para acompanhar a cena. Em seguida, entrou a noiva acompanhada do pai. Rica ou pobre, branca ou negra, todas as mulheres sonham com o dia do casamento. Era num vestido simples, provavelmente emprestado ou alugado por aí. Todas as pessoas olhavam maravilhados para a noiva, no dia mais importante da sua vida. O sorriso dela não era um milímetro menor do que o das noivas que se casam no Buffet França.

Após a tradicional travessia do salão acompanhada do pai, a noiva finalmente chegou até o outro lado, onde um noivo apressado saiu da multidão que o cumprimentava. Ele deu dois beijos na bochecha dela, e, meio envergonhados, se viraram para uma espécie de pastor que aguardava. O pai da noiva estava meio perdido e, no final, acabaram arrastando-
o para um canto. O homem logo disse que não era pastor e que ficava triste que a família não tinha arranjado um pastor de verdade para a cerimônia, mas que ele tentaria o melhor que pudesse. Era um negro de cabelos ralos, levemente rechonchudo, que vestia paletó e camisa verde com gravada roxa. Ele devia achar o máximo. Parecia um bicheiro em época de carnaval.

Iniciou lendo um trecho da Bíblia. Com enorme dificuldade, o pastor leu sobre Adão e Eva, enquanto o microfone falhava constantemente. Parecia um garoto em época de alfabetização:... o... sssenhooorrr... jesssuuuiss... pppai do ccceu. Esse era o oficiante da cerimônia, um semi-analfabeto. Após declarar os dois marido e mulher, todos aplaudiram. Em seguida, uma senhora que aparentava ser da família chamou a atenção de todos, dizendo que iam fazer uma grande surpresa à noiva. “Pessoal, eu gostaria de chamar aqui um casal muito querido nosso, um casal que já tem filhos e netos, mas que nunca se casou”. “E nós vamos casá-los agora mesmo”. Todos se emocionaram. Foi isso mesmo. A mãe e o pai da noiva se adiantaram, ele, um senhor grisalho e magrela, ela, o dobro do tamanho dele e de vestido vermelho, e o Pastor casou os dois também, junto com a cerimônia da filha. Após algumas dúzias de anos vivendo juntos, pai e mãe viraram oficialmente marido e mulher no casamento da filha.

Em seguida, a noiva passou a cumprimentar todos os convidados e pude desejar felicidades e boa sorte na vida de casada. Na hora de ir embora, me lembrei que havia um carro na frente do meu, o tal uno 95. Chamei um amigo do noivo e pedi para tirar. O rapaz me explicou que o carro era do noivo. “Pede pra ele que ele tira”. Como assim? O noivo acabou de sair do altar e vou pedir pra ele manobrar o carro?? “Claro que sim”, respondeu o rapaz com a maior naturalidade. Meio constrangido, me dirigi ao noivo e expliquei a situação. Sem pestanejar, ele largou a noiva e os convidados e desceu à garagem comigo, empurrando o veículo dele para o lado e me orientando na manobra da saída. Fiquei imaginando como seria essa cena se ocorresse em alguma festa chique nos Jardins, o recém casado abandonando a festa para manobrar os carros...

A verdade é que existem diversos mundos paralelos na nossa cidade. A festa do Capão Redondo não tinha salmão, nem banda, nem flores, nem botox, nem peitos falsos, mas não faltou alegria nas pessoas se encontrando e nos noivos passando por essa importante etapa de vida. Seria estúpido idealizar essa festa humilde como algo superior e nos culpar por termos mais condições do que o pessoal do Capão Redondo. Eu gosto muito de salmão e banda. Flores e peitos são coisas muito bonitas, sejam falsos ou verdadeiros. Mas em alguns aspectos o Capão Redondo deu um show. Estavam ausentes os olhares invejosos, as piadas sarcásticas e o olhar de indiferença forçada que definimos como chique. Ficou apenas a cena da noiva de branco, crianças correndo e gente conversando. Pessoas comuns tentando ser felizes.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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