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Devíamos entrar em greve por milagres (out / 2005)
Devíamos entrar em greve por milagres

Os milagres do Deus duraram do Sinai até Auschwitz

Tenho uma teoria sobre porque tantos judeus estão se afastando da religião: acabaram os efeitos dos milagres. Como sabemos, por ocasião da entrega dos mandamentos no monte Sinai, o povo judeu foi testemunha de inúmeros milagres vindos de Deus, como as pragas do Egito, a divisão das águas e o pão caindo do céu. Esses milagres fizeram o povo finalmente acreditar em Deus e assumir a difícil missão de ser a “luz entre as nações”.

Os milagres de Deus duraram do Sinai até Auschwitz. Depois das câmaras de gás, ficou difícil para muitos judeus continuarem achando que o “cara” ainda estava do nosso lado. Se estava, então por que deixou um terço do Seu povo ser incinerado? Por que permitiu que justamente aqueles mais religiosos, mais comprometidos e cumpridores das Mitzvot, que eram os judeus da Europa Oriental, sofressem mais?
Os rabinos têm diversas teorias para explicar isso, uma mais absurda que a outra. Desde as piores, que falam em “punição pelos pecados” (vai punir justo os judeus, que passavam a maior parte da vida rezando e fugindo dos anti-semitas???), até a explicação final, quando não têm mais argumentos, de que “Deus funciona de formas que nós, humanos, não podemos compreender”.

Muito bem, vamos pegar essa linha de argumentação. Deus funciona de formas que não podemos compreender. As maquinações celestes seriam tão profundas e complexas que nosso pobre intelecto terreno é incapaz de alcançar. Só que Deus foi suficientemente gentil na época do Egito para compreender isso e mandar milagres claros e precisos explicando aos judeus porque estavam sofrendo tanto. Sim, nós fomos escravos coletivamente no Egito e, sim, nossos filhos homens foram chacinados pelo Faraó. Porém, na época, Deus nos mandou um profeta e uma penca de manifestações claramente sobrenaturais para nos dizer que ele tinha um plano para a gente. Ele dizia: “agüentem firme aí que vem coisa boa”. Hoje em dia não seria nada mal receber uns milagrezinhos. Se viesse uma voz estrondosa do céu, com raios e trovões, dizendo que o presidente Lula estava naquele momento sendo arrastado por um furacão, quem iria duvidar da existência de Deus?

É possível que Deus tenha outras preocupações. Quem sabe ele não está ocupado criando algum outro universo e deixou escapar essa possibilidade de nos dar um pouco de atenção. Vai ver ele acha que as coisas aqui na terra andam sozinhas e só dá uma espiada de vez em quando. Uma sugestão possível seria entrarmos em greve por novos milagres. Os judeus brasileiros poderiam fazer uma passeata na Avenida Paulista, tentando desencadear um movimento mundial. Nós temos muito poder de barganha, poderíamos cortar o jejum de Yom Kipur ou as rezas de Minchá, por exemplo, até a vinda dos primeiros milagres. E, se os Céus realmente não nos atenderem, podíamos passar o status de povo escolhido para os evangélicos. Eles parecem bastante entusiasmados com a religiosidade hoje em dia. Mesmo se o status de povo escolhido implicar perseguição, como acontece no nosso caso, ainda assim o fervor religioso deles deverá durar uns 200 anos pelo menos. Depois a gente vê o que faz.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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