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CONVERSAÇÃO (fev / 2005)
CONVERSAÇÃO
Sorrindo em um navio afundando

Reparem na figura acima. Ela é a imagem que melhor descreve a nossa comunidade hoje: um navio afundando rapidamente, cuja liderança não consegue salvar. Sem alternativas, nós preferimos continuar sorrindo, fingindo para as câmeras que tudo vai bem. Esse texto faz uma análise do que está ocorrendo hoje na nossa comunidade. Em seguida, avalia as respostas habituais que temos dado aos nossos enormes desafios e porque elas invariavelmente fracassam. Por fim, traz uma proposta concreta de mudança e uma esperança para a continuidade judaica brasileira. A proposta que será feita não terá nada de convencional. Esse texto não está preocupado se as pessoas vão gostar do que lerem ou não. As únicas coisas que estão sendo oferecidas aqui são fatos concretos e análises 100% honestas. Se o leitor acha que tudo está bem e não se sente à vontade para receber más notícias, o ideal seria interromper a leitura neste momento. Caso contrário, se o leitor se preocupa com o futuro da comunidade e está preparado para encarar a realidade, você está convidado a embarcar nessa jornada.

A população judaica mundial, exceto Israel, tem diminuído ano a ano. Segundo o demógrafo Sergio Della Pergola, enquanto o mundo cresce +1,4% nós judeus encolhemos -0,3% ao ano. Aqui em São Paulo é pior. Havia quase 60 mil judeus na cidade em 1970. Hoje há menos de 50 mil. Enquanto a cidade cresceu sem parar nós encolhemos. O número de alunos matriculados nas escolas judaicas tem caído constantemente. É cada vez mais difícil formar uma nova turma para iniciar o ciclo básico. Uma escola importante já fechou. Em breve, pode haver mais fechamentos. Em termos financeiros, a maior parte das instituições judaicas enfrenta grandes dificuldades. O chefe de arrecadação de uma importante instituição comunitária informou, recentemente, sem permitir divulgar o nome da instituição, que o número de contribuintes caiu 30% na última década enquanto a arrecadação caiu 40%. A média de idade entre os judeus é cada vez maior, o que significa que, a maior perda de pessoas ocorre entre os jovens, deixando uma população cada vez mais idosa para segurar as rédeas da comunidade. A tendência é que esse declínio se acentue no futuro. Se tiver alguma entidade com boa clientela à vista, então essa seria a Chevra Kadisha: tem no mínimo mais 50 mil fregueses para enterrar até fechar as portas de vez.

Para descrever em uma frase o que está acontecendo, pode-se dizer o seguinte: o povo judeu está sendo derrotado pela modernidade. Existem fenômenos no mundo moderno e no nosso modo de vida no Brasil para os quais não criamos defesas. Assim como o corpo luta contra a Aids com armas ineficazes e acaba invariavelmente perdendo, o povo judeu tem lutado contra a assimilação com armas ineficazes e invariavelmente tem perdido. Se for algum consolo, não somos apenas nós em São Paulo. É um fenômeno mundial. Com exceção de Israel, que é um caso à parte, não existe nenhuma comunidade importante que venceu o desafio da assimilação.

Apesar do tamanho do desafio, as engrenagens da nossa derrota são bastante simples. Existem três fatores condicionando o desaparecimento da comunidade judaica. Em primeiro lugar, a assimilação, que ocorre pela perda de identidade e valores judaicos. Numa sociedade dinâmica e integradora como a brasileira, cheia de oportunidades e atrativos, o judaísmo acaba ficando em último lugar no rol das prioridades dos jovens. Emprego, namoro, shows, tantas coisas são consideradas mais importantes. Esse fenômeno pode ser visto em praticamente todas as partes do mundo. No entanto, deve-se ter em mente que no Brasil ele é muito mais acelerado. Nosso País é (felizmente) uma das sociedades mais abertas e tolerantes do mundo, formada por um caldeirão de diferentes culturas onde a integração sempre foi peça-chave da sociedade. O lado negativo disso é que o Brasil se constitui em verdadeiro triturador cultural. O jovem acaba deixando o Judaísmo de lado.

O segundo fator é o casamento misto e, especialmente, nossa reação habitual a ele. Muita gente acredita que o casamento misto seja a principal causa da assimilação. A verdade é que, apesar de estarem ligados, os dois temas não têm relação direta. Existem judeus assimilados que se casam com outros judeus (assimilados ou não) e existem judeus ativistas que se casam com não judeus. Obviamente, a chance de um judeu assimilado entrar em um casamento misto é maior do que no caso dos judeus com maior envolvimento, mas uma coisa não garante a outra. O fato é que nós somos uma parcela ínfima da população de São Paulo e, para cada judeu que um jovem conhece, ele inevitavelmente conhecerá uns 50 não-judeus. Hoje o casamento misto é uma realidade inescapável.

O terceiro fator determinante é a própria demografia. O número médio de filhos por casal judeu é de apenas 1,3 na diáspora. O mínimo para manter a população estável deveria ser 2,1. Ou seja, mesmo que a assimilação acabe por completo, todas as crianças entrem em escolas judaicas e os jovens só se casem com judeus, vamos continuar encolhendo, porque os casais têm poucos filhos. Esse fenômeno tem pouco a ver com fatores intrinsecamente judaicos e, sim, com a tendência mundial das populações urbanizadas de alta renda.

Resumindo-se a situação, as pessoas se afastam, casam-se com não judeus e são empurradas para fora. Aqueles que sobram têm poucos filhos. Juntando-se tudo, temos o círculo vicioso do nosso destino. Cada pessoa faz a análise que quiser dessa situação. Esse texto considera o estado da nossa comunidade lamentável e revoltante. Ao invés de assistir de camarote ao naufrágio do judaísmo brasileiro, deveríamos vê-lo crescente e vibrante, representado por uma comunidade cada vez mais numerosa e realizando feitos dignos da nossa longa e extraordinária história. É pedir muito?

Correndo na esteira

Os problemas descritos acima não são, obviamente, novidade. Muita gente já vem identificando e se preocupando com as mesmas questões. Diversas ações têm sido tomadas para tentar reverter o quadro de enfraquecimento judaico. No entanto, a maioria das ações é ou ineficaz ou insuficiente. Em grande parte das vezes ficamos no campo da retórica, sem nenhuma providência prática sendo tomada. Ao invés de pensarmos em novas idéias, mantemos nossas mentes fixas em alguns chavões, velhos discursos como os citados abaixo:

Discurso 1

Um dos chavões mais usados é o anti-semitismo. Muita gente acha que os judeus só se preocupam com a comunidade nos momentos de perseguição. Numa demonstração de quase auto-imolação, muita gente chega a desejar de forma indireta que os atos anti-semitas nos empurrem de volta à nossa posição de clã na defensiva. Não é preciso muito trabalho para demonstrar o absurdo de tal pensamento. Em primeiro lugar, houve períodos de florescimento da vida judaica em que o anti-semitismo não tinha papel significativo, como a Idade de Ouro da Espanha, por exemplo. Além disso, os anti-semitas podem até ter contribuído em alguns momentos para o isolamento dos judeus, dificultando a assimilação. No entanto, na maior parte das vezes, eles significaram conversões forçadas e morte, menos judeus ao invés de mais judeus. Ou seja, não precisamos desses cretinos para sermos judeus.

Discurso 2

Outra postura nessa linha, ainda mais contraditória, apresenta o judaísmo como uma mera vingança contra Hitler. "Papai, por que não devo me casar com a nossa empregada Maria?" "Porque se você fizer isso, será uma vitória para Hitler e os nazistas, uma vez que eles cumpririam o seu intento". É bastante improvável que essa resposta conseguirá extinguir o amor do filho pela Maria. O que ficará demonstrado com certeza é que o pai não tem a menor idéia de quais eram os objetivos de Hitler nem dos nazistas em geral. Para Hitler, mesmo que ele não conseguisse matar todos os judeus do mundo, já estaria bastante razoável fazê-los sumir de vez da Alemanha, tornando-a Judenrein, livre de judeus. O que mais tirava o líder nazista do sério era imaginar o seu precioso sangue ariano, a pureza das purezas, corrompido pelo vírus judaico. Portanto, se você for um pai judeu interessado unicamente em se vingar do nazismo, mande seus filhos imediatamente para a Alemanha e os oriente a engravidar o maior número de moças alemãs possível.

Discurso 3

Uma linha de argumentação um pouco mais razoável, mas ainda assim falha, seria defender o Judaísmo com base na continuidade, per se. "Papai, por que a gente tem que fazer Seder de Pessach?". "Porque os nossos antepassados fizeram durante séculos, de geração em geração, e sofreram muito para que essas coisas chegassem até você". Esse tipo de diálogo, bastante comum, é verdadeiro, porém insuficiente para conseguir grande envolvimento com judaísmo. Afinal, se judaísmo não passa de um peso morto que deve ser carregado, melhor jogar no lixo de uma vez por todas. A continuidade judaica, ao longo dos milênios, é uma coisa muito boa e bonita. No entanto, ela não tem o poder, por si mesma, de motivar as pessoas. Um jovem só será convencido a fazer alguma coisa se ele enxergar suas virtudes: cultura, espiritualidade, riqueza ética, sabedoria.

Discurso 4 – por fim, a educação.

Todas as pessoas interessadas pela comunidade são unânimes em afirmar que a educação é a chave para a sobrevivência judaica. Quanto mais educação judaica, mais envolvimento, menos assimilação e menos casamentos mistos. Segundo essa linha, a solução para os problemas da comunidade passaria por um amplo e profundo investimento em educação. Realmente, a educação judaica é um pilar sem o qual não existe comunidade e é uma arma poderosa contra a assimilação. O levantamento populacional judaico dos EUA, de 1993, separou os judeus em quatro grupos, dos com pouca educação judaica até os com muita educação judaica (mais de 6 anos de escola diária). O levantamento demonstrou que os judeus que tiveram mais educação judaica têm mais amigos judeus, se envolvem mais nas causas judaicas e participam mais ativamente nas sinagogas. Em termos de casamentos mistos, a taxa registrada entre as pessoas com mais educação judaica foi de 20%, contra 70% do grupo que recebeu menos educação judaica.

Com certeza a educação judaica faz parte da resposta aos nossos problemas. No entanto, concentrar as atenções unicamente nesse aspecto é insuficiente. Mesmo que todos os judeus recebam uma excelente carga educacional judaica (hipótese muito improvável), ainda assim teríamos cerca de 20% de casamentos mistos. Como erroneamente, hoje em dia, casamento misto é sinônimo de assimilação, estaríamos perdendo 20% da nossa comunidade a cada geração, número inaceitável dada a baixa taxa de natalidade entre judeus. Além disto, concentrar as atenções exclusivamente na educação judaica seria fazer mais daquilo que já fazemos, ou seja, insistir apenas na solução do passado sem levar em conta as mudanças do nosso ambiente atual.

Cada resposta habitual que vem sendo dada tem seus méritos e seus problemas. Muitas outras já foram tentadas. No entanto, todas falharam em enxergar a verdadeira natureza do desafio que se encontra à nossa frente. Novos tempos exigem novas respostas e, no entanto, nenhuma delas é inovadora. A prova irrefutável de que nossas respostas não funcionam é que, apesar dos esforços e tentativas, nossa comunidade continua seguindo rumo ao abismo. É preciso encontrar alguma coisa nova e experimentá-la de braços abertos.

Nossa comunidade precisa mudar radicalmente a forma de ver a conversão.

Precisamos deixar de ver a conversão como algo negativo. Precisamos deixar de ver os conversos como judeus de segunda classe. Fazer conversões bem feitas, primeiro dos cônjuges não-judeus e depois de todos aqueles que se interessarem pelo Judaísmo, pode ser a nossa última esperança. A conversão (bem feita) deveria ser vista como um objetivo estratégico de toda a comunidade.

(pausa para as pedras)

Agora que o caro leitor já atirou todas as pedras que queria e lançou todos os xingamentos em português, idishe, hebraico e polonês do dicionário, pede-se mais algumas linhas de paciência para que a idéia possa ser devidamente explicada (afinal, se você já leu até aqui não custa nada continuar).

Em primeiro lugar, o leitor deve ser absolutamente honesto e ter claro na sua mente a alternativa ao que se está propondo: o definhamento da comunidade. Existem diversas linhas honestas e coerentes que você pode seguir. Uma delas seria "eu estou ciente de que estamos seguindo rumo ao desaparecimento, mas mesmo assim prefiro continuar como está. Deixe-me sumir em paz!". Outra linha seria: "a coisa está tão feia hoje em dia que qualquer idéia nova, por mais maluca que seja, vale a pena de ser tentada".

Agora por favor, não venha com slogans do tipo "precisamos resgatar nossos jovens!", "temos que reforçar o sentimento judaico!" ou qualquer outra declaração genérica, sem apresentar uma solução concreta e inovadora. Ninguém aqui é contra o sentimento judaico, os jovens, a educação... O que precisamos ter claro é que, dada a mudança drástica do ambiente onde vivemos, a solução do tipo "fazer mais do mesmo" não tem o poder de reverter esse quadro. Precisamos de mais educação judaica sim, mas no contexto de alguma coisa nova e essencial para que a comunidade volte a crescer.

Atualmente, enxergamos o casamento misto como uma fraqueza por parte do cônjuge judeu. "Ele nos traiu", "ele cedeu às tentações". Hoje em dia nossa comunidade vê a conversão como algo essencialmente errado e com enorme desconfiança. Afinal, quem seria louco o suficiente para querer virar judeu? Nada mais injusto conosco mesmo. Pegar uma dos sistemas de leis e cultura mais ricos em sabedoria da história humana e pintá-lo como se fosse um fardo.

Um dos mitos mais repetidos sobre as conversões é a idéia de que "judaísmo não é missionário", papagaiado seguidamente por todos aqueles que querem rejeitar um converso. "Não acho uma boa ele se tornar judeu. Afinal, judaísmo não é missionário". Ok, os judeus não têm como missão sair pelo mundo afora convertendo a humanidade. No entanto, na história judaica existem repetidos exemplos de conversões, seja de personagens famosos como de povos inteiros. A começar pelo Rei David, descendente de moabitas. O mesmo ocorreu com o Rei Salomão, que se casou oficialmente com dúzias de mulheres não judias. Outro exemplo famoso seria o Rabi Akiva, filho de pai convertido. Todos esses são casos ocorridos após a entrega da Torá no deserto do Sinai, quando o judaísmo tornou-se realmente uma religião codificada. Antes disso nem se fala. Em uma época onde a fé judaica estava restrita apenas a uma família, os nosso patriarcas usaram extensamente o hábito de se casar com pessoas de fora para constituir o que se tornaria o povo judeu. Além das conversões individuais, houve pelo menos um caso registrado de conversão de um povo inteiro, no reino da Khazaria no século VII.

No campo das discussões judaicas, fica claro que o judaísmo prevê a conversão e que qualquer resistência a ela vem de preconceitos que não tem nenhum fundamento na lei judaica. Sempre se registrou grandes debates sobre o tema, especialmente no tempo de Maimônides (séc XII). É consenso desses debates apenas que os conversos devem aceitar a lei judaica, fazer a imersão (mikvá) e, no caso dos homens, o brit milá. A verdade é que todas as linhas judaicas prevêem a conversão, têm regras para elas, e podem transformar não-judeus em judeus tão legítimos como quaisquer outros.

Outro mito é a desconfiança sobre as reais intenções do converso. “Será que ele realmente quer ser judeu?”, “ele tem certeza?” “ele vai se dedicar para sempre ao judaísmo ou vai desistir?”. Caros leitores, perguntem com sinceridade a si mesmos: vocês têm certeza absoluta de que querem ser judeus? Vocês estão todos o tempo todo 100% certos da existência de Deus? Na verdade, em um mundo complexo e dinâmico como o que vivemos, é muito difícil ter certezas. Como podemos exigir fidelidade eterna de alguém que ainda não conhece o Judaísmo se essa fidelidade é algo que muitos de nós não conseguimos oferecer?

O terceiro mito importante a ser decapitado é a noção de que a entrada de conversos de alguma forma dilui a essência do que é o judaísmo. Ou seja, cada nova pessoa convertida estaria levando embora parte do que é ser judeu, como se alguma substância tóxica viesse poluir um lago cristalino. A princípio, o argumento faz bastante sentido: se eu faço parte de um clube exclusivo e gosto dele justamente por ser exclusivo, abri-lo significaria destruir aquilo que eu mais prezo no meu clube. Esse mito decorre de duas confusões que as pessoas fazem. Em primeiro lugar, elas confundem solução com problema. A conversão não é o problema que elimina a exclusividade do clube. A conversão é justamente a ferramenta que prepara os novos entrantes para se juntarem ao clube. Ela é a solução para que, ao mesmo tempo em que o clube continue exclusivo, novas pessoas possam entrar. É preciso aceitar a conversão e, mais do que isso, investir nela de forma que as pessoas entrem no clube judaico devidamente preparadas.

A segunda confusão que as pessoas fazem é entre o individual e o coletivo. Usando o mesmo exemplo do último parágrafo, o que existe de bom no nosso clube não é a qualidade individual de quem está nele e sim o que foi construído pelo conjunto durante todos os anos. As quadras, as piscinas, o playground e, por fim, a cultura das pessoas é o que importa. Nas palavras do Rabino Chefe da Inglaterra, Jonathan Sacks: "Como indivíduos, não há nada de notável nos judeus. Houve muitas teorias, judaicas e não judaicas, que nos atribuem um gênio inato, um dom racial, um dom genético, uma diferença mística. Nenhuma convence. Removidos das nossas tradições, nosso passado, nosso estilo de vida e nossa comunidade, dentro de três gerações ou menos, nos fundimos na paisagem maior e nos tornamos invisíveis. Individualmente, somos comuns. Coletivamente, nos tornamos algo diferente”. Ninguém precisa ser extraordinário para ser judeu. No entanto, ao se tornar judeu, está fazendo parte de uma coisa extraordinária. Qualquer pessoa tem o potencial para entrar.

Bom, já tratamos de derrubar algumas idéias de porque não aceitar as conversões e porque os possíveis malefícios são mais imaginários do que reais. Vamos avaliar agora alguns dos benefícios trazidos pela mudança de mentalidade:

Como vimos, o casamento misto é um fenômeno inevitável, mesmo para judeus com alto envolvimento comunitário. Uma das maiores causas de afastamento de jovens ocorre quando a família e a comunidade rejeitam sua escolha amorosa. Divididos entre tradição e amor, os jovens têm majoritariamente feito a segunda opção. Ao receber de braços abertos o novo casal, a comunidade está removendo de uma só vez uma das maiores razões para o afastamento.

Em segundo lugar, ao ver a conversão como oportunidade ao invés de ameaça, a equação se transforma na nossa cabeça. O que antes era 1+1=0 vira 1+1=3. Ou seja, se antes víamos o casamento misto como o fim da família judaica, agora vemos como uma oportunidade de ampliar a população judaica mais do que se estivéssemos somente com nossos próprios recursos. Se o namoro com não judeu resultar em conversão bem feita, veremos a formação de um novo lar judaico. O que era apenas um judeu do grupo original pode se transformar em uma grande família, na medida em que os filhos são integrados à comunidade.

Em terceiro lugar, devemos nos lembrar que a maior parte dos jovens judeus de hoje encontram-se completamente alienados do Judaísmo. Não receberam educação judaica, não tiveram um lar judaico. O momento da conversão do cônjuge pode ser a última chance que a comunidade terá de trazê-lo de volta. Um dos caminhos mais naturais que levam à assimilação é: não ter lar judaico, pouca ou nenhuma educação judaica, poucos amigos judeus, casamento misto. Se, ao invés de esquecer o casal, investirmos em uma excelente conversão, temos uma boa chance de fornecer a educação judaica que o jovem não teve. Esse ponto é sustentado com inúmeros exemplos reais de casais onde uma parte se converteu, foi integrada à comunidade e hoje formou um lar judaico. Alguns dos mais brilhantes jovens ativistas de hoje têm ou um pai ou uma mãe que não nasceu judeu(ia).

Em quarto lugar, aceitar melhor os conversos significa sermos mais coerentes conosco mesmos. Muitos não-judeus perguntam porque as moças cristãs são consideradas suficientemente boas para diversão e sexo, mas não são suficientemente boas para casamento. Não temos resposta. Existem judeus que se consideram religiosos que ainda seguem a máxima "goy é pra aproveitar e judia é pra casar". Não existe nada de judaico nisso. Certos comportamentos de parte da comunidade são profundamente imorais, para não dizer repugnantes. Aceitar melhor a conversão resolveria esse problema ético.

Nu?

Precisamos iniciar um novo capítulo do nosso trato com a conversão. Começando pelos casamentos mistos e continuando por todos aqueles que têm vontade de se tornar judeus, precisamos mudar de atitude. Seu filho vai se casar com uma não judia? Convide-a imediatamente para o Shabat e ensine o máximo de receitas Kosher. Sua filha se apaixonou pelo filho da vizinha? Convide-o também para o Shabat e ensine as mesmas receitas Kosher. Hoje em dia está na moda homem cozinhar. Temos que começar a ver o casamento misto como mais um e não menos um. O primeiro pilar de mudança está na cabeça das pessoas.

Precisamos de estruturas específicas para lidar com a conversão. Cada comunidade, cada sinagoga, deveria ter um departamento preocupado em receber os conversos com tapete vermelho. Profissionais qualificados poderiam oferecer todas as informações sobre judaísmo, ensinando sobre festas e costumes, rezas e tradições. Poderíamos organizar viagens para Israel e jantares de integração na casa de membros mais antigos da comunidade. Outros grupos poderiam orientar os conversos em todos os passos da integração nas instituições comunitárias, tais como se tornar sócio da Hebraica, atuação política na FISESP, voluntariado nas entidades assistenciais e informações sobre a agenda comunitária.

Essas atividades e estruturas independem da linha religiosa da congregação. O converso deve ser bem recebido em qualquer lugar, seja na Comunidade Shalom ou no Beit Chabad, respeitando-se a orientação espiritual de cada lugar. O que é absolutamente indispensável é que a conversão seja muito bem feita e que siga alguns parâmetros básicos aceitáveis para todos.

Existem alguns raros momentos em que as condições à nossa volta mudam tão radicalmente que, a menos que se encontre novas e radicais soluções, o povo desaparece. Um desses momentos ocorreu logo após a destruição do templo de Jerusalém, quando os judeus se encontraram sem sua terra nem o templo sagrado. Para quem viveu na época, deveria ser como se tivessem tirado o chão debaixo dos pés. Estamos vivendo em outro dos tais momentos. Após a expulsão de Israel, os judeus deixaram de lado o modelo religioso centrado no templo/sacrifícios e inauguraram a era rabínica. A cara do judaísmo mudou da água para o vinho. Hoje precisamos realizar uma mudança semelhante para sobrevivermos a esse enorme e sem precedentes cataclismo chamado modernidade.

Por: Alexandre Ostrowiecki (Nani) e Eduardo Flit

Agradecimentos: Rabinos Henry Sobel, David Weitman e Michel Schlesinger

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