IMPRIMIR ARTIGO     |     ÍNDICE DE ARTIGO      |     FALE COM O NANI     

Carmel é melhor que Kipur (dez / 2004)
Carmel é melhor que Kipur

A festa judaica mais importante do ano é o Festival Carmel de dança

Tenho uma confissão pública a fazer: esse domingo fui à Hebraica assistir ao Festival Carmel e chorei do primeiro ao último minuto. Foi uma emoção tão grande que me deixou abismado. Eu assisto todo ano. E todo ano é a mesma coisa. Chega o show final, de domingo à noite, e algo mexe comigo. Nunca entendi bem porque um marmanjo como eu ficaria assim por causa de um bando de moleques dançando num palco. Artisticamente, o show é bonito, mas não chega lá a ser um ballet de Moscou. Não é possível! Tem alguma coisa errada comigo. Além desse acesso de sensibilidade ainda resolvo publicar esses detalhes numa revista... Aos poucos, a medida em que o final do espetáculo se aproximava, essa incompreensão foi se dissipando. A verdade começou a surgir como um clarão, estarrecedora.

Em quase todos os eventos comunitários a que vou, especialmente os dedicados aos jovens, sinto uma apatia generalizada: pouca gente, pouca energia, pouco ânimo. A sensação que tenho é que nossa comunidade é na maior parte das vezes um defunto que esqueceram de enterrar. No melhor caso um zumbi, que continua o seu caminho letárgico rumo ao desaparecimento. Os mesmos líderes, os mesmos discursos, mas sem vida. Até no ápice do ano, Yom Kipur, na data considerada mais sagrada e solene, sinto que a maior parte das pessoas está lá para cumprir tabela: ou para agradar os pais ou por remorso de não ter feito absolutamente nada pelo judaísmo nos demais 364 dias do ano.

Em contraste, quando entrei no ginásio da Hebraica, as luzes coloridas se revezavam enquanto um som ensurdecedor me enchia as narinas. Uma centena de jovens se espalhavam pelo palco, sorridentes, se movimentando pra lá e pra cá. Debaixo daquele som, que emitia músicas em hebraico, os lábios acompanhavam as letras. Era jovens de diversos grupos, de diversas idades, de diversos países. Havia israelenses, americanos, mexicanos e brasileiros de diversas partes do País. O alto falante chamava o grupo de dança gaucho, o Kadima, enquanto metade dos jovens batia no chão e gritava o seu tradicional "POOORTO ALEGRE" para saudar os amigos que estavam se apresentando. Saía um grupo e entrava outro. Mais uma centena de jovens. Faziam danças temáticas, retratando a vida moderna em Israel, a diversidade, o exército e qualquer outra coisa que inventássem. As danças claramente não eram profissionais. Vira e mexe alguém se antecipava aqui, ou tropeçava ali. Mas o que importa? Ali havia judeus que estavam realmente querendo ser judeus. E como é raro ver isso hoje em dia.

Infelizmente, não é possível descrever em palavras a combinação de sons e imagens que chegaram até mim durante essa apresentação. Naqueles minutos preciosos, senti que a comunidade continuava respirando. E eu também estava respirando. É como se o nosso defunto tivesse momentaneamente se levantado e dissesse "viu? ainda tenho algum sopro de vida em mim, não me abandone". Não que o Festival seja perfeito. Nos últimos anos, o evento vem perdendo força e, segundo diversos participantes, hoje há menos gente e menos grupos do que antigamente. Mesmo assim, o Festival é de longe o marco comunitário que reune mais jovens para uma atividade judaica comum. É uma bela rebelião contra o fracasso da juventude dessa comunidade.

Uma boa notícia foi que, pela primeira vez depois de muitos anos, houve grupos de Israel, dois deles neste Festival. Um dos grupos inclusive visitou uma favela no Rio de Janeiro e dançou junto com os sambistas cariocas. A notícia foi tão interessante que acabou saindo no Jornal Nacional. Ao conversar com duas dançarinas, Adi e Michal, após o show, elas se mostraram muito felizes e me disseram que "a gente não sabia que ia encontrar tanta gente legal por aqui. Foi muito bom saber que todo aquele pessoal gosta de Israel e apoia o nosso País". Para quem se envolve mais a fundo, seja como dançarino ou organizador, o clima é contagiante. A Hebraica toda, lotada o fim de semana inteiro de gente cuja paixão é a dança folclórica israeli. Nem mesmo um leigo como eu conseguiu escapar da magia do Festival Carmel.

Ano que vem, vá à sinagoga em Yom Kipur e vá também ao Festival Carmel. Agora se tiver que escolher um só entre os dois, leia o texto acima e decida. Mas por favor, se algum rabino perguntar porque você não apareceu no shiu, só não diga que eu tenho alguma coisa a ver com isso...

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

Site produzido e hospedado por PLETZ.com