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O Defunto (nov / 2004)
O Defunto

Cenas surreais da morte de Arafat

A choro da viuva - Durante o funeral no Egito, a imprensa notou o choro intenso de Suha Arafat, a viuva, que derramou lágrimas sem parar. Fiquei com alguma dúvida se as lágrimas eram de tristeza pela perda do marido ou eram de emoção por ter herdado uma fortuna bilionária, desviada das doações européias. Levando-se em conta que o marido não era nenhum Adonis e o fato dela não ter visitado Arafat nenhuma vez nos últimos três anos, acho que vou ficar com a segunda opção.

As comemorações - Enquanto isso, a polícia israelense deteve na quinta feira quatro judeus que saíram às ruas de Jerusalém para comemorar a morte do homem. Nos assentamentos foram marcados jantares para comemorar. Aqui em São Paulo, o pessoal do Bnei Akiva teve uma longa discussão sobre se era permitido comemorar a morte de Arafat ou não. Alguns disseram que não, porque "na Torá os judeus foram proibidos de comemorar a morte dos egípcios durante a saída do Sinai". Segundo esse raciocínio, se não pode festejar a morte dos egípcios antigos, então não pode festejar a morte desse egípcio moderno que é o Arafat. Parece que depois eles mudaram de idéia e aprovaram os festejos, o que eu acho muito certo. Afinal, na dúvida, sempre melhor optar pela alternativa que combine mais com uma cachaça.

Os atrasados - O governo Lula decidiu enviar uma comitiva de deputados para prestar homenagem ao defunto. Nada mais típico do PT, que criticou durante 8 anos as viagens de FHC e agora não perde uma oportunidade de gastar dinheiro público em viagens. Só que, mais típico ainda, o nosso pessoal chegou atrasado e acabou barrado do funeral. Quando chegaram, a família Arafat já tinha decolado, junto com os ministros e todo mundo que importava por ali. Acabaram usando o tempo para visitar as pirâmides do Egito. Eu faria o mesmo. Lá, nossos deputados puderam comprovar que até as múmias fizeram mais pelo processo de paz do que Arafat.

O afogamento - Por falar em múmias, os egípcios fizeram com elas o mesmo que alguns jornais brasileiros fizeram com a verdade. Quando construiu a represa de Assuan, Nasser não teve dó e permitiu que as águas inundassem o enorme sítio arqueológico de Abu Simbel, afogando indícios importantíssimos da história. Aqui foi o mesmo. Nas seis páginas que dedicou ao tema, o Estado de São Paulo não digitou uma linha sequer mencionando os atentados terroristas comandados por Arafat. O assassinato dos atletas em Munique, o massacre a tiros de 28 crianças na escola de Maalot e a morte de Leon Klinghoffer, um judeu paralítico jogado ao mar em sua cadeira de rodas, ficaram esquecidos no meio das declarações de quão grande foi o "lider Arafat, herói da justiça e liberdade".

Os tiros - O enterro demonstrou entre outras coisas que os palestinos são mestres em física mecânica. Após a tradicional salva de tiros para o alto, as balas acabaram descendo e oito pessoas ficaram feridas. Foi a comprovação pratica da lei de que tudo o que sobe, desce.

O legado - Lá atrás nos anos 60, as simpatias mundiais estavam concentradas em Israel e os palestinos eram nada mais que um grupo de pessoas dispersas pelo Oriente Médio. Quase não se falava em nação ou povo palestino. Arafat percebeu que o terror poderia ser a melhor arma para chamar atenção e colocar sua causa no palco das discussões mundiais. Inicialmente pelo terror e depois por meios políticos, Arafat soube catalizar as emoções dos diversos grupos e uní-los em torno de uma causa comum, forjando toda uma identidade. Neste sentido, Arafat foi brilhante e pode ser considerado um Theodor Hertzl palestino. Não é fácil se tornar uma referência para tanta gente diferente. No entanto, seus métodos brutais e autoritários impediram os palestinos de realizar suas aspirações e encerrar o conflito. Nesse sentido ele fracassou e levou o povo palestino a passar desgraça atrás de desgraça. Sua morte pode abrir uma nova porta de esperança.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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ps) As virgens - Enquanto isso, no céu, uma multidão armada espera a chegada do Arafat para linchá-lo. Apavorado, o sapo barbudo pergunta pra São Mohamed se o pessoal é israelense. "Não Arafat, eles são os homens-bomba, querendo saber por que não ganharam nenhuma virgem até agora..."

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