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Os Judeus Feiosos de Aço (ago / 2004)
Os Judeus Feiosos de Aço

Considerações a respeito de uma Shiva

Os rostos estavam semi-cabisbaixos, o Chazan recitava o Kadish apressadamente enquanto as demais pessoas respondiam em tom europeu oriental "Yehe sheme rob hamevoiroch". Mais cinco minutos de pausa para esperar escurecer e iniciou-se o serviço da noite, o Arvit. A família sentada no sofá. As roupas propositadamente rasgadas. Docinhos coloridos por toda a parte. Cumprimentei a esposa da pessoa falecida, uma senhora com rosto bondoso, com quem compartilhei ocasiões mais felizes por muitos anos. Desejei "rak simchot" (apenas alegrias) daqui para frente. Ela não quis nem saber, me perguntou de cara se eu já tinha comido alguns docinhos, estava preocupada com a possibilidade de eu sair de lá com fome... Esta é a geração dos meus avós, que está aos poucos escapando do nosso convívio. Essa semana meu avô perdeu um amigo querido, um dos muitos que se foram nos últimos anos. Fiquei imaginando como deve ser difícil ver tão de perto o quanto os ciclos da vida são inescapáveis.

Esses homens e mulheres, que estavam espalhados pelo apartamento, são o oposto do que nós jovens aprendemos a admirar. Eles não têm a beleza das pessoas que nós vemos na Rede Globo nem a vitalidade dos artistas de Hollywood. Falam devagar, não conseguem se adaptar às mudanças. Nós somos ensinados a apreciar a juventude e a ousadia. Eles são velhos, orelhudos e cautelosos. Nós somos apaixonados pelo novo, viciados em novidades, queremos o celular mais atualizado, cor de rosa e com música techno. Eles se prendem a um passado que não existe mais, querem que a gente viva como eles viviam, insistem na união da família. Nós estamos obsecados com o indivíduo. Eles comem docinhos para aliviar o sofrimento.

Ainda assim, apesar deles serem, aparentemente, o oposto do que o mundo moderno nos ensina a ser, quanto temos para aprender com eles... Meu avô é um desses homens de aço. Um homem que enfrentou os campos de concentração, a perda da família inteira, a mudança de País e a perda de um filho, sempre seguindo em frente. Uma pessoa que, mesmo traída por gente próxima, manteve um padrão moral irreprensível, entregando o que tinha e o que não tinha para ajudar os outros. Quanta gente não teria desistido no caminho? Acho que eu não teria conseguido se estivesse no lugar dele. Pode ser que existam casos no mundo em que Deus resolve derrubar um homem e, depois de tanto tentar em vão, acaba desistindo. Se tiver casos assim, meu avô é um deles. Se eu estivesse no lugar de Deus e acompanhasse um homem desses por oitenta anos diria: "finalmente valeu a pena ter criado um sujeito chamado Adão há uns seis mil anos atrás".

Se você tem avós vivos da geração dos imigrantes, não despedice a oportunidade de ficar com eles. Passe um bom tempo ao lado deles. Você não estará fazendo isso por favor ou caridade. Na verdade são eles que estarão te fazendo um favor, e com o maior prazer. Pode ser que eles não vão poder fazer esportes radicais com a gente, mas poderão transmitir um enorme tesouro de valores humanos e familiares. Eles não vão junto para a balada, mas contarão muitas histórias engraçadas que a gente nem imaginava. Tudo isso junto com os docinhos que não podem faltar. Eles são construtores. Chegaram no Brasil com uma mão na frente e a outra atrás, sem falar português. Fizeram empresas e construiram uma comunidade judaica vibrante. Nós somos médicos e advogados. Eles eram imigrantes pobres, que suaram muito para que nos tornássemos médicos e advogados.

Durante essa Shiva, vendo-os rezar e conversar em Idishe uns com os outros, pode ser que eu finalmente entendi o quanto eles são preciosos e insusbstituíveis. Eu nunca vou me esquecer desses judeus feiosos de aço.

Alexandre Ostrowiecki (Nani)

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