O panfleto de Michael Moore (jul / 2004)
A fórmula de Farenheit 9/11: 10% de pimenta, 20% de humor e 70% de cinismo
Essa terça feira o Lar das Crianças da CIP promoveu na Hebraica o avant premiere do novo filme de Michael Moore: Farenheit 9/11. Essa excelente iniciativa da instituição teve o duplo benefício de arrecadar fundos para o Lar e promover o debate de idéias dentro da nossa comunidade. Tomo a liberdade aqui de fazer uma breve avaliação do filme.
Desde o início, o diretor deixou claro que pretendia investir cada minuto de filme na esculhambação de George W. Bush e seu governo. Em defesa do filme deve-se dizer que o diretor conseguiu reunir um conjunto de fatos apimentados e preocupantes. Moore cita, por exemplo, uma série de ligações de negócios entre as famílias Bush e Bin Laden, bem como as visitas de membros do governo Taleban ao Estado do Texas. Se o governo Bush quiser reter alguma credibilidade, terá que dar boas explicações sobre esses fatos.
Outra qualidade é o senso de humor cortante de Moore. Um dos pontos altos do filme é o momento em que Moore sai à caça de congressistas norte americanos para convencê-los a alistar seus filhos para combater no Iraque.
Os elogios param por aí. Muitos autores anti-Bush produziram críticas sensatas a respeito do governo republicano, expondo os pontos espinhosos e fazendo análises equilibradas. Moore não quer saber de nada disso. Ao distorcer fatos, pinçar imagens cuidadosamente escolhidas e fazer paralelos entre evento desconexos ele é no mínimo cínico e provavelmente mau caráter mesmo. Na maior parte das vezes cai em contradição. O tom que o diretor escolhe para atacar o governo é tão forçado que muitos republicanos receberam o filme de braços abertos. "Depois desse filme aí, ninguém mais vai ter coragem de se dizer anti-Bush", escreveu Lexington, da revista inglesa The Economist.
Ao longo do filme, Michael Moore não consegue se decidir bem se deseja pintar George W. Bush como um conspirador ganancioso ou como um completo incapaz. As cenas de Bush gaguejando à frente das câmeras se revezam com as supostas provas de um amplo círculo de interesses sugerindo estar o dinheiro saudita por trás da invasão do Iraque. Em outro trecho do filme, o diretor critica a manipulação de imagens gloriosas da guerra, por parte do governo. Só que Moore usa a mesma tática às avessas. Explora abundantemente os casos de famílias que perderam filhos no Iraque. Enquanto derrama lágrimas de crocodilo em conversa com uma mãe americana, ela lê o trecho da última carta do filho, antes de ser abatido pelos rebeldes iraquianos. O filho escreve: "espero que na próxima eleição as pessoas votem nos democratas e tirem esse idiota (Bush) daí". Conveniente não? Outras pérolas da exploração forçadas de imagens são as cenas de crianças iraquianas brincando em playgrounds. Elas estão felizes e contentes, até que chegam os soldados americanos. O que Moore está sugerindo? Que o Iraque de Saddam era uma maravilha??
Tudo isso ocorre em meio a um bombardeio de informações randômicas, jogadas sobre o espectador. Mostram a rotina de um guarda de Oregon, o sistema de recrutamento de Marines, o problema dos desempregados e mais uma porção de assuntos desconexos, sugerindo que tudo faz parte das engrenagens "do sistema", desenhado para enriquecer as corporações e empobrecer ainda mais os desprivilegiados (Ué, não são as corporações que geram empregos e riqueza?). Nesse ponto Michael Moore revela a sua verdadeira agenda e sua grande contradição. Sua agenda é a destruição "daquilo que está aí", sem sugestões concretas do que deveria ser colocado no lugar. Sua grande contradição é que, ao longo do filme, enquanto Moore poupa o partido democrata de qualquer crítica, ele ignora o fato de que os democratas também são parte "daquilo que está aí", diferem nos métodos mas não na essência dos republicanos. Ou seja, ao endossar implicitamente os democratas, ele está abençoando o próprio sistema que quer destruir.
Um cidadão americano chamado Michael Moore publicou os mais agressivos ataques contra um presidente que alguém conseguiria fazer. O fato de esse sujeito estar ganhando prêmios de arte e não estar na cadeia, como ocorreria em muitos outros lugares do mundo, é provavelmente a maior prova da grandeza desse lugar chamado Estados Unidos da América.
Alexandre Ostrowiecki (Nani)
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