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Um Marciano na Palestina e no Sudão (mai / 2004)
Um Marciano na Palestina e no Sudão

Ou "porque um palestino vale o mesmo que 7.811 sudaneses?”

Digamos que neste momento eu não sou mais o Alexandre e sim o simpático Marciano Arc (aquele da Veja, se é que ainda publicam isso), verde que dói, direto do planetinha para aprender mais sobre os terráqueos. Como não tenho muito tempo pra passear por aí, devido ao horário de uma ponte aérea São Paulo-Marte que tenho que pegar, resolvi surfar por alguns minutos na Internet e acompanhar as notícias. Uma coisa que tenho em comum com os terráqueos é o gosto pela desgraça alheia, então passei para a sessão internacional do site da Folha de São Paulo. Surpresa! Dois conflitos bem acesos ocorrendo não muito distantes um do outro. Um deles no Sudão, país conhecido nosso desde a época em que os cientistas de Marte estavam interessados nos rinocerontes terrestres. Outro conflito numa tal de Palestina, ou Israel, sei lá, cada vez chamam de um nome...

Parece que é coisa brava. Nessa tal de Palestina, tem uns caras chamados israelenses matando e expulsando um pobre povo miserável. Como são cruéis esses humanos! Eles usam as armas mais sofisticadas e descem porrada nos palestinos. Bom, deixa-me ver o que está acontecendo no nosso lindo Sudão... Nossa! É quase a mesma coisa. O governo árabe muçulmano de Kartoum decidiu se livrar dos povos do sul do País. Por que será? Deixa-me ver... ahhh... Porque eles não são nem árabes nem muçulmanos. Já vi essa história antes. E são negros também... Então nem se fala. Nesse planeta terra só tem desgraça mesmo.

O bom é que, nas últimas décadas, os demais países do mundo aprenderam a lidar com gente que comete crimes assim. Vejamos as manchetes: "ONU condena governo de Israel por incursão em Gaza". Muito bem! Errou, tem que ser condenado! Vejamos o que fizeram com os malfeitores de Kartoum: "nações africanas elegem o Sudão para a comissão de direitos humanos da ONU". ????? Como é que é? Deve ter algum erro aí. Esse é exatamente o governo que está promovendo uma limpeza étnica sem precedentes no próprio país, roubando, expulsando, estuprando e matando milhares para se livrar de outra religião... Comissão de direitos humanos da ONU?? Só se for pra ensinar como NÃO fazer.

Bom, só com notícia do dia não dá pra entender nada, mesmo. O jeito é fazer uma busca e pegar algum histórico dos dois eventos. Digito "conflito Sudão" na sessão de busca: 64 respostas. Muito bom. Agora abro outra janela e digito "conflito Israel" Minha nossa senhora! 3.652 respostas!! Para cada menção ao conflito sudanês, falaram 57 vezes de Israel. Esse negócio de Israel é bravo mesmo. Deve ser a pior catástrofe da história humana...

Deixa-me procurar o número de mortos e desabrigados. Ahh... Achei aqui na revista "The Economist", 21 de maio: Desabrigados no Sudão desde o ano 2000 - 5 milhões de pessoas. Desabrigados palestinos. 12.400 pessoas. Estranho... Para cada palestino desabrigado, houve 404 sudaneses... E falaram mais dos palestinos ?!? Com o número de mortes acontece a mesma coisa. No Sudão já morreram 370.000 pessoas neste conflito, segundo a mesma revista. Na Palestina, 2.700 pessoas.

Agora que tudo ficou complicado mesmo... Fazendo as contas, morreram 137 vezes mais sudaneses do que palestinos. Por outro lado, foram publicados 57 vezes mais artigos sobre conflito em Israel do que sobre o conflito no Sudão. Ou seja, fazendo conta de marciano, cada Palestino morto "ganhou" pouco mais de um artigo publicado na Folha de São Paulo. No caso do Sudão, foi preciso que morressem 7.811 pessoas para que eles tivessem esse mesmo privilégio (137x 57). Por que será que um palestino vale a mesma coisa que 7.811 sudaneses, aos olhos da Folha de São Paulo? Ao repetir o exercício com os demais grandes jornais do mundo, percebi que, com pequenas variações, o quadro se mantinha.

Mais alguns minutos eu já tinha lido sobre Bósnia, Ruanda, Congo, Tibet e muitos mais (Marcianos fazem curso de leitura dinâmica na escola...). Ninguém dava a menor bola pra esses aí. Já com os palestinos era outra história.

Eta gente famosa esses palestinos! Voltei pra Marte confuso...

Arc Ostrowiecki (Nani)

ps) um cínico que ler esse artigo poderá rejeitar a tese central acima, argumentando que é um absurdo contar vidas humanas e que cada palestino morto por Israel representa uma catástrofe por si mesma, independente de números e estatística. Ou poderá dizer que o fato de haver outros assuntos de interesse em Israel que não os mortos palestinos causa essa maior atenção da mídia. São argumentos válidos, mas para quem achar que é só isso, recomendo que continue sonhando com um mundo em que não existe anti-semitismo e em que a mídia não está intoxicada com uma obsessão por Israel... melhor assim.

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