Viva o Mel Gibson!
Devíamos agradecer ao diretor australiano por nos ensinar duas importantes lições
Nessas últimas semanas, pessoas mais conhecedoras do que eu já se alongaram sobre as distorções e parcialidades mostradas no mais recente filme de Mel Gibson, "A Paixão de Cristo". Tendo isso em vista, decidi sugerir algumas lições que podemos tirar desse episódio todo.
1- Nossa resposta comunitária foi um fracasso
A menos que a intenção da nossa comunidade tenha sido fazer propaganda grátis para o Mel Gibson, nossa postura não ajudou. Muito pelo contrário. Nossos artigos, nossas pressões, nossos protestos fizeram quem está de fora ter duas reações possíveis. A primeira e mais favorável seria: "afinal, o que será que tem nesse filme que os judeus querem tanto esconder de nós?". Essa seria a reação do público mais esclarecido e com um pouco mais de cultura. Já o povão pensaria simplesmente: "eles são contra o nosso senhor Jesus Cristo!". Explicar que ninguém está contra Jesus, mas sim que estamos contra uma interpretação específica e extremamente tendenciosa dos evangelhos é pedir demais pra quem lê, se conseguir, apenas a manchete dos jornais.
Claro que não estou afirmando aqui que a comunidade deve se esconder e ficar sem fazer nada. No entanto, as respostas devem ser inteligentes e calculadas para não trazer o oposto do que se deseja. O ideal é conseguir que as críticas ao filme partam não dos judeus mas sim da própria igreja católica, que tem cem vezes mais legitimidade do que nós, especialmente para esse tipo de assunto. Em pesquisas recentes com o filme, ficou clara a distância entre o posicionamento de judeus e cristãos a respeito do filme. Enquanto cerca de 80% dos judeus acharam a obra anti-semita, 77% dos cristãos opinaram o contrário (OESP 22/03/04). A única crítica universal ao filme foi o excesso de violência. Ou seja, os cristãos não deram a mínima para as nossas acusações de anti-semitismo. O único grupo não judaico que tem condenado o filme sistematicamente é a extrema esquerda. E aqui chegamos no nosso segundo ponto.
2 - A maior ameaça não são os cristãos religiosos, com ou sem filme
Se "A Paixao de Cristo" esta sendo condenada pela esquerda por incitar a violencia anti-semita então pode ser que isso seja a unica coisa boa a sair desse filme. Pela primeira vez vamos ver a inteligentsia socialista condenando a violencia anti-semita. Ate agora, a cada atentado suicida contra judeus escutavamos pérolas do tipo "precisamos entender as raizes deste odio" ou "o terror é uma resposta contra a ocupação". Ou seja, quando os ataques aos judeus partem de fundamentalistas islâmicos, então tudo bem. Não importa se os terroristas transformaram uma dúzia de crianças judias em pedaços só porque estavam no ônibus errado. Já quando o anti-semitismo parte de setores tradicionais de direita, agora sim ele merece ser condenado.
Esse assunto é importante porque, mesmo com todo o rebuliço causado pelo Sr. Gibson, ainda é bastante improvável que uma nova onda de anti-semitismo parta da cristandade conservadora. Com ou sem filme, os cristaos religiosos dos EUA continuarão a ser os melhores amigos que Israel pode ter. Alias, se eu fosse ministro de Israel e tivesse que escolher entre um fundamentalista de Ohio ou uma mãe judia do shoping Higienopolis para apoiar Israel ficaria com o primeiro. A chance do filho do primeiro continuar sendo um fundamentalista de Ohio e muito maior do que o filho da mãe judia continuar a ser judeu. Alem disso, os fundamentalistas de Ohio impedem menos seus filhos de visitar Israel, então eles pelo menos geram uns trocados turísticos lá na terrinha.
A verdadeira ameaça aos judeus vem justamente daquela religião que os intelectuais de esquerda insistem em denominar de "pacífica", (apesar das instruções específicas de Maomé para matar os infiéis, apesar das maiorias apoiadoras do terror e apesar da virtual ausência de movimentos pacifistas entre os tais grupos). O grande perigo hoje vem dos grupos fundamentalistas islâmicos, legitimados por uma extrema esquerda absolutamente imbecilizada pela luta contra o capitalismo. Se eu tivesse que escolher entre o pessoal da TFP e o pessoal de esquerda que dançou em Durban afirmando que "sionismo é racismo", eu taparia o nariz e ficaria com o primeiro grupo.
Provavelmente essa seja a maior lição que o Sr. Gibson esteja nos ensinando: que, apesar do seu filme, não precisamos mais temer tanto esse grupo que escolheu um judeu para adorar.
Alexandre Ostrowiecki (Nani) |